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quarta-feira, 23 de março de 2016

A celebração da Páscoa na história de Israel. A celebração da Páscoa é uma tradição de mais de quatro mil anos. A Páscoa, palavra vinda da língua acádica pesahu, era a festa da primavera dos pastores no Oriente Próximo. Celebrava-se na primeira lua cheia da primavera, do hemisfério norte, como a festa da vida que renascia depois do inverno.


Anos depois, já nos tempos bíblicos, a Páscoa-Passagem, a Páscoa-Saída, foi celebrada como libertação do Egito. O povo hebreu, escravo no Egito, não podia festejar a Páscoa livremente porque o faraó, com medo de que o povo fugisse, não o deixava sair à amplidão e liberdade da estepe. Ainda assim, os hebreus teimosamente mantiveram sua cultura e tradição. A Bíblia conta, no livro do Êxodo, como o povo organizado conseguiu sair da escravidão. E essa saída foi Páscoa-Passagem, que veio ser celebrada por muitos anos em nome de Javé, o Deus libertador (Ex 12,1-14.21-28).
Memória da libertação
No tempo das tribos, lá pelos anos 1.200-1.000 a.C., a festa da Páscoa-Memória era celebrada como festa de família num espaço de catequese. Comiam ervas amargas para lembrar da amargura da escravidão, e pão ázimo ou sem fermento para recordar a saída apressada do Egito. O cordeiro e o sangue faziam memória da libertação. Aos poucos foi estabelecido um ritual para a festa onde o rapaz mais novo da família fazia perguntas ao pai, que respondia explicando o sentido da festa (Ex 13,11-16). Era momento de memória e renovação da Aliança entre Deus e seu povo.
Durante a época da Monarquia, depois da edificação do Templo e especificamente depois da reforma do Rei Josias, os reis e sacerdotes convidavam o povo para celebrar a Páscoa-Sacrifício em torno do templo, para assim unificar a nação (Nm 28,16-25; Dt 16,1-8).
Após a construção do segundo templo, no pós-exílio, a festa passou a ser festa de romaria do povo judeu que ia a Jerusalém. Às três horas da tarde se matavam os cordeiros no próprio templo e depois se levavam para as casas onde se reuniam por famílias para celebrar a ceia conhecida como seder (Ex 12,43). Esta festa é a que se celebrava no tempo de Jesus. Por isso, os evangelhos relatam que Jesus foi a Jerusalém celebrar a Páscoa, e lá mandou preparar a ceia e jantou com seus discípulos (Mt 26,2.19; Mc 14,1.16; Lc 22,1.13; Jo 2,23; 13,1; 18,39). Jesus assumiu o ser Cordeiro, Pão, Vinho, alimento para nós, dentro da tradição judaica.
Feliz Páscoa!
Até hoje, muitos judeus, na véspera da Páscoa, queimam o que eles chamam de hamets, ou seja, tudo o que leva fermento, já que está proibido ter algo fermentado em casa (Ex 12,19). Celebra-se o rito da busca, passando uma vela por toda a casa e recitando uma bonita oração (lembremos 1Cor 5,7-8). Na hora do jantar, na celebração da ceia se acompanha um texto muito antigo dos judeus chamado Hagada de Pesaj.
Para nossos irmãos judeus a celebração da Páscoa, em todo o mundo, é festejar a nova criação. Páscoa é Aliança. Trato de amizade garantido por Deus. Memória e certeza da promessa feita aos pais (Ex 3,6). O Senhor se revela go’el, redentor ou resgatador do seu povo e assim renova os laços que o unem com o seu povo. Páscoa é passagem da escravidão à libertação, da tristeza à alegria. É o memorial da saída do Egito. Louvação orquestrada pela recitação do Hallel, ou seja, pelos salmos 115 ao 118 das nossas bíblias. Ou pelo Grande Hallel que acrescenta o salmo 136: “Dai graças ao Senhor, porque é bom, porque é eterna sua misericórdia”. Esses judeus, em todo o mundo, repetem a despedida da festa: “Até o próximo ano em Jerusalém”, manifestando o desejo de celebrar na cidade de Davi a festa mais importante da fé judaica.
Para as primeiras comunidades cristãs, a Páscoa foi o centro da pregação, da catequese: lembrar a morte e ressurreição de Jesus! O Jesus vivo, ressuscitado, o Kayros que estava e está presente na comunidade e se faz alimento e força para todas e todos nós (1Cor 11,23-26). Para nós, os cristãos, a Páscoa é esta profunda experiência feita memória e vida em Jesus.
Dizer Feliz Páscoa, na tradição cristã, é desejar e fazer acontecer a fecundidade da terra, dos animais e das pessoas. É acreditar na vida de família, na dignidade da educação, na vida da comunidade, em que a celebração de Jesus Ressuscitado nos anima a lutar contra a opressão, no serviço e na solidariedade.

Mercedes de Budallés DiézBiblista, assessora do CEBI, Goiânia, GO.mercedesbudalles@hotmail.com         Fonte site do Jornal Mundo Jovem

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