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quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Em quem você vai votar? - pelo Cardeal Dom Odilo Pedro Scherer. "O voto nunca deveria ser carimbado de ódio, raiva ou irresponsabilidade em relação ao bem comum"



Odilo Pedro Scherer é um cardeal brasileiro, décimo nono bispo de São Paulo, sendo seu sétimo arcebispo e quinto cardeal. Atualmente exerce também a função de Grão-Chanceler da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Tem por lema episcopal “In meam commemorationem”   (“fazei isto em memória de mim”).


Em quem você vai votar?

Já escolheu em quem vai votar? No próximo dia 7 de outubro, os brasileiros serão chamados às urnas para escolher um novo presidente da República, o governador e dois senadores do próprio Estado, um deputado federal e um deputado estadual. São cinco decisões determinantes para os rumos da vida política do Brasil nos próximos anos.

Embora a campanha para presidente e governador esteja em maior evidência e mereça especial discernimento, a escolha dos parlamentares não deveria receber atenção menor. De fato, eles integrarão o Poder Legislativo, com a missão de aprovar ou rejeitar os projetos do Poder Executivo e de controlar suas ações de governo. Bons deputados e senadores são tão necessários quanto bons presidentes e governadores. Para governar, o presidente precisa de uma boa base parlamentar, formada por políticos sérios, corretos e verdadeiramente interessados no bem do povo e do país.

Já está na hora de fazer a listinha, a ser levada na mão no dia da votação. Ainda dá tempo para se informar melhor sobre o perfil e a idoneidade dos candidatos, mas não se deveria chegar ao dia da eleição sem ter uma ideia clara a respeito dos candidatos a votar. O voto de cada cidadão tem peso e, por isso, fugir das urnas, votar em branco ou nulo, embora possam ser atitudes legítimas, não são a melhor prática. Além de demonstrar desinteresse pelo bem comum, isso poderia favorecer candidatos que o cidadão não gostaria de ver eleitos. O melhor mesmo é escolher e votar conscientemente, valorizando o próprio voto. E não é o caso de, simplesmente, votar com a maioria: cada um deve tomar a decisão autonomamente e responder à própria consciência pela escolha que faz.

Talvez, alguém ainda espera que a hierarquia da Igreja indique partido e candidato aos fiéis, mas isso não é possível, porque a própria lei eleitoral é restritiva em relação a isso. Além disso, foi uma decisão do próprio episcopado católico do Brasil não fazer escolhas em lugar dos eleitores. A Igreja Católica não é um partido nem tem partido: ela é uma comunidade de muitas pessoas, no meio das quais podem existir várias expressões políticas, contanto que não contradigam os fundamentos e princípios da própria Igreja. Da mesma forma, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) não é um partido, nem tem uma opção de partido ou candidato.

Entendemos que não é correto instrumentalizar a ação religiosa em função da busca do poder político; nem devem os clérigos mesclar atuação religiosa com campanha eleitoral. Mas é legítimo que os representantes da Igreja se interessem pela vida política e pela formação da consciência política dos cidadãos, propondo critérios de discernimento para a participação dos cidadãos na vida política e de escolha de partidos e candidatos nas eleições. Esses critérios decorrem dos princípios doutrinais e morais da fé católica e estão presentes na Doutrina Social da Igreja. Mas também decorrem da análise atenta da situação social, política, econômica e moral na qual se encontra o país.

O Papa Francisco recordou vários desses princípios na sua Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (2013), na qual ele ensina com clareza que a evangelização e a vida cristã possuem uma forte “dimensão social”. O ensinamento católico não é neutro em relação à vida política e social. Por isso, os católicos não podem se desinteressar pela promoção do bem comum e a ação política. Aos bispos da América Latina, o Papa Francisco manifestou sua preocupação pela fraca presença e atuação de católicos na vida política de seus países. Naturalmente, ele também ensina que a militância partidária e o desempenho de cargos políticos são atividades próprias da missão dos cristãos leigos.

Para ser mais direto, está claro que a Igreja Católica não incentiva o voto em quem não possui as capacidades esperadas para o exercício do cargo pleiteado, ou em quem já deu provas de corrupção, falta de retidão e honestidade na gestão do bem público. A Igreja também não incentiva a votar em quem tem propostas políticas que incluam o uso da violência e sejam contrárias à justiça e à paz, ou sejam lesivas à vida e à dignidade da pessoa, de toda pessoa. É de se esperar que aqueles que assumirão os mandatos tenham uma atenção especial pelos pobres e as camadas mais injustiçadas e esquecidas da sociedade brasileira, de maneira a promover uma verdadeira equidade e solidariedade social.


O voto nunca deveria ser carimbado de ódio, raiva ou irresponsabilidade em relação ao bem comum. Voto é questão de consciência e chegou a hora de cada um fazer a sua parte para deixar o Brasil melhor após as eleições. No final de tudo, é isso o que conta.
 Via Aletéia,  fonte:O São Paulo

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