Bullying

domingo, 15 de março de 2026

Redes sociais: proibir para proteger

Redes sociais: proibir para proteger

Impedir acesso a menores de 16 anos não é cruzada contra a tecnologia, mas conter modelo que explora vulnerabilidades de cérebros ainda em formação

Claudia Costin e Rafael Parente

Presidente do Instituto Salto, ex-diretora global de educação do Banco Mundial e ex-secretária municipal de Educação do Rio de Janeiro.

Diretor do Instituto Salto, doutor em educação (Universidade de Nova York) e ex-secretário de Educação do Distrito Federal.

As redes sociais foram desenhadas para maximizar a retenção por meio de mecanismos que a ciência reconhece como potencialmente compulsivos. Isso não é hipótese nem exagero. Executivos das próprias plataformas admitiram, sob juramento, que seus produtos priorizam engajamento.

Os documentos internos revelados por Frances Haugen, em 2021, mostraram que a Meta conhecia os impactos negativos de seus sistemas de recomendação sobre adolescentes e, ainda assim, manteve arquiteturas que privilegiam tempo de uso acima de bem-estar. A neurociência descreve o mecanismo com precisão inquietante: recompensas em intervalos variáveis, rolagem infinita, notificações imprevisíveis e métricas públicas de validação social ativam circuitos de dopamina associados ao comportamento compulsivo.

Essas plataformas não são neutras. Foram projetadas para capturar atenção. E estão nas mãos de crianças de nove anos.

Defender a proibição do acesso de menores de 16 anos às redes sociais tal como operam hoje não é uma cruzada contra a tecnologia. É conclusão ética diante de um produto cuja lógica explora vulnerabilidades de cérebros ainda em formação.

A experiência internacional mostra que, quando a sociedade reconhece mecanismos de dependência precoce, a combinação de regulação, responsabilização empresarial e informação pública pode alterar padrões de consumo. O paralelo com o cigarro não está na natureza do dano físico, mas na lógica da dependência e na assimetria de poder entre quem projeta e quem consome.

As apostas on-line oferecem uma comparação ainda mais próxima: recompensa variável, estímulo intermitente e a sensação de quase vitória que mantém o usuário engajado. Quando o dano social se tornou evidente, reagimos com regulação.

Somos favoráveis à proibição do acesso de menores de 16 anos às redes sociais como medida temporária e urgente, enquanto se constroem alternativas mais responsáveis.

A objeção de que adolescentes contornarão a regra ignora o ponto central. O debate não é sobre vigilância individual, mas sobre responsabilidade corporativa. A proibição inverte o ônus: em vez de famílias competirem sozinhas contra arquiteturas digitais sofisticadas, a lei deve tornar juridicamente e economicamente inviável a exploração algorítmica de menores.

A proibição impõe algo mais estrutural: integrar o letramento midiático e a cultura digital ao currículo escolar, formando jovens capazes de compreender os mecanismos que disputam sua atenção

Essa discussão já chegou ao Congresso Nacional. Tramitam projetos de lei que propõem restringir o acesso de menores às redes sociais, incluindo um de autoria do deputado Renan Ferreirinha (PSD-RJ), que implantou a proibição de celulares nas escolas municipais do Rio de Janeiro. A experiência mostrou que proteger o ambiente de aprendizagem exige, por vezes, decisões inicialmente impopulares, mas fundamentadas em evidências.

A proibição, por si só, não resolve o problema. Ela cria espaço para algo mais estrutural: integrar o letramento midiático e a cultura digital ao currículo escolar, formando jovens capazes de compreender os mecanismos que disputam sua atenção.

Nosso maior desafio é estabelecer um novo padrão de responsabilidade na relação entre tecnologia e infância. Proteger não significa retroceder. Significa reconhecer que inovação sem regulação pode produzir danos previsíveis e que a proteção do desenvolvimento infantil deve ser sempre uma prioridade pública.

MEC recomenda veto de IA na educação infantil e orienta a evitar reconhecimento facial.


MEC recomenda veto de IA na educação infantil e orienta a evitar reconhecimento facial

Documento traz panorama sobre uso da tecnologia no sistema educacional

Paulo Saldaña

BRASÍLIA Um referencial inédito do MEC (Ministério da Educação) sobre a incorporação da inteligência artificial na educação recomenda o veto da tecnologia na educação infantil, atividades desplugadas nos anos iniciais e desaconselha a adoção de reconhecimento facial nas escolas — o que é realidade em muitas redes de ensino e instituições privadas.

O documento foi divulgado nesta quinta-feira (12) pela pasta do governo Lula (PT). O referencial do MEC está alinhado com o parecer sobre o tema que o CNE (Conselho Nacional de Educação) deve colocar em votação na próxima segunda-feira (16), de acordo com o relator, conselheiro Celso Niskier. Essa será a primeira regulamentação geral sobre IA na educação no país.

Segundo o MEC, o referencial reafirma que a inteligência artificial deve ser utilizada como instrumento capaz de apoiar ações que fortaleçam a inclusão e ampliem a equidade, e não a exclusão. O trabalho do MEC destaca preocupações sobre questão de autoria de atividades, inclusive dos professores, avaliação e segurança de dados e privacidade.

"Sistemas de reconhecimento facial em ambientes escolares não são recomendados, em razão dos riscos associados à exposição e ao tratamento de dados pessoais de crianças e adolescentes", destaca o documento do MEC.

O reconhecimento facial tem tido expansão nas redes públicas de ensino, sem padrão nacional ou avaliação, segundo o estudo Tecnologias de Vigilância e Inteligência Artificial na Educação, lançado em outubro pelo Internetlab, centro de pesquisa em direito e tecnologia.

O referencial do MEC cita a necessidade de cuidados com a proteção de dados de estudantes e professores e a transparência nos algoritmos usados em sistemas educacionais. "A integração de inteligência artificial ao campo educacional também apresenta desafios que demandam acompanhamento permanente e avaliação rigorosa. Entre os desafios, destacam-se a transparência e a explicabilidade de sistemas frequentemente descritos como 'caixas-pretas'", diz o texto.


Incorporação pede supervisão, diz especialista

Para Sonia Dias, gerente de Desenvolvimento e Soluções do Itaú Social, o uso da inteligência artificial generativa na educação deve estar intimamente ligado a princípios de responsabilidade, com supervisão do professor e compromisso com a promoção da equidade na aprendizagem.

"O uso da tecnologia é providencial para potencializar o estudo, desde que não comprometa o pensamento crítico e a retenção do conhecimento", diz ela.


Sobre a vontade de ler POR ISMAEL LÓPEZ GÁLVEZ.

Sobre a vontade de ler

POR ISMAEL LÓPEZ GÁLVEZ

Há algum tempo ouvi Manuel Vicent dizer que existem duas formas de ler: de barriga para cima e de barriga para baixo. A primeira suporia uma leitura lúdica, hedonista, de sofá, cama ou praia, de puro prazer e passatempo; a segunda envolveria uma abordagem mais profunda, dir-se-ia estoica, de cadeira e escrivaninha, com os cotovelos sobre a mesa. O escritor defendia — talvez acertadamente — que a leitura que nos faz voar é, sem dúvida, a primeira. E não lhe falta razão. Assim, por exemplo, muitos de nós cruzamos o Egito antigo de Sinuê, embarcamos no Nautilus, perseguimos Moby Dick ou habitamos a Fantasia, a Terra do Nunca, a Ilha do Tesouro e outros sonhos e narrativas que nos divertiram e dignificaram. São, na realidade, milhões de pessoas que vivem hoje na imaginação oferecida pelo legado mais acessível do junco, onde cada manifestação, por mais medíocre que pareça a alguns, é digna de louvor na medida em que faz viver aqueles a quem a vida falha.

Dito isso, e descartada qualquer posição elitista, gostaria de reivindicar justamente a segunda: esse ler exigente na seleção e exigido por sua indispensabilidade. Pois, às vezes, embora não acreditem, os livros não têm que proporcionar prazer (pelo menos não imediato). De fato, há textos de extrema necessidade — que coincidem quase sempre com os considerados "clássicos" — que demandam um esforço considerável, uma intelectualidade desafiadora, uma leitura tão sossegada quanto crítica e ativa, e cujo contrato promete nos amar se também estivermos dispostos a aprender a amá-los. Emilio Lledó escreve que "se nos acostumarmos a ser inconformistas com as palavras, acabaremos sendo inconformistas com os fatos". Certo: a não aceitação do que é dado consiste em segurar, muitas vezes, o que nos move, e essa postura apela à vontade. Digamos que ela não foca no que os livros podem fazer por nós, mas no que estamos dispostos a entregar por eles. Este é o motivo pelo qual defender os clássicos a partir de seu divertimento ou entretenimento imediato quase sempre termina em fracasso.

Os textos que sobreviveram ao tempo, que se provaram contra o esquecimento, a tirania e a barbárie, alcançaram um status de sacralidade. No entanto, a distância que separa o tempo deles do nosso pode parecer intransponível: em ocasiões, sua forma profunda, densa e sóbria de nos revelar o terror que nos produz saber quem somos contrasta com a superficialidade que buscamos hoje, com a vacuidade que conseguiremos amanhã. Não pretendo enganar ninguém: "sagrado" e "sacrifício" compartilham a mesma raiz, indício claro de que, como apontou Platão, o bom é difícil (χαλεπὰ τὰ καλά). Séculos depois, Sêneca imortalizou também seu "Non est ad astra mollis e terris via": "Não há caminho fácil da terra às estrelas". Chesterton não estava equivocado: "as novas ideias são apenas fragmentos quebrados de velhas ideias".

Como Luis Alberto de Cuenca, não acredito na dicotomia entre alta e baixa literatura; apenas na boa e na má. Isso significa que uma grande história em quadrinhos pode ser tão nutritiva para a alma quanto um excelso tratado filosófico; e um péssimo poema tão nefasto para a emotividade quanto um insosso romance policial. Não é questão de gêneros, mas de qualidades. E o sublime, por ser sublime — isto é, por estar abaixo do que está, do que é evidente, por ter uma profundidade admirável —, necessita habitualmente de um trabalho de mina, de suor. Mark Twain dizia que um clássico é um livro que todo mundo quer ter lido e ninguém quer ler. Normal, o esforço enobrece, mas não costuma agradar. Apenas a recompensa última — se houver — poderia aliviar a fadiga. Portanto, a vontade, entendida como a capacidade para levar a termo decisões livres submetidas à razão, torna-se indispensável na hora de nos entregarmos a certas obras; sobretudo quando sua dificuldade emerge e seu divertimento é adiado ou, pior ainda, não aparece.

Lamento ter destruído o romantismo que se atribui à literatura; no entanto, há escritos fundamentais cuja essência não é deleitar. Acontece o mesmo com a árvore: sua espessura permite que o pássaro cantor se esconda da ave de rapina, mas esse não é o seu telos, seu propósito, senão, quem sabe, uma consequência inesperada.

Vejam bem, diante da pergunta "O que é o mais difícil de conhecer?", a única resposta possível para a escola pitagórica era "Conhecer a si mesmo". Ora, um clássico — seja ele antigo, moderno ou contemporâneo — é, como definiu Italo Calvino, aquele texto que serve para definirmos a nós mesmos em relação e, talvez, em contraste com ele. Resulta lógico, então, que envolva alguma complexidade, que nos exija como leitores e seres humanos.

Por conseguinte, o mínimo que podemos fazer diante de tamanha recompensa é resistir, nos responsabilizar, perseverar na leitura mesmo quando esta seja ou se torne árdua; não esquecer que houve homens e mulheres que nos ofereceram barcos robustos para navegar os maus tempos, mapas que nos indicaram o caminho para o que fomos, para o que somos e seremos, tanto em sua vileza quanto em sua bondade. "Com os clássicos — diz-nos Irene Vallejo — você se sente em casa". E um lar se cuida, não se abandona ao primeiro inconveniente. Pois, se algo a história do fogo nos ensinou é que, para sentar-se ao calor da fogueira, deve-se adentrar na floresta fria e recolher a lenha com frutífero e habilidoso empenho. Assim: a vontade de ler.

Por que os Professores ficam Viciados em Reality Shows?

Por que os Professores ficam viciados em Reality Shows?

Você já se pegou, após um dia exaustivo de reunião de planejamento, correções de provas e gestão de sala de aula, hipnotizado diante da TV assistindo a discussões triviais em um ambiente confinado de big brother? Se a resposta é sim, você não está sozinho, mas o motivo por trás disso pode ser mais preocupante do que parece, especialmente para quem tem a missão de educar.

O Cérebro no "Modo de Sobrevivência"

As pesquisas revelam cada vez mais que o cérebro humano tem uma tendência natural de focar em conflitos por uma questão de sobrevivência ancestral. Quando vemos alguém gritando ou chorando, nossa amígdala cerebral — o sistema de alarme emocional — é ativada instantaneamente.

Para o professor, que já vive em um ambiente de envolvimento em alta carga emocional e estresse constante, o reality show atua como uma distração perigosa. Ao observar o "laboratório de emoções baratas" alheio, o docente acaba utilizando seu precioso tempo de descanso para alimentar mecanismos cerebrais de alerta, em vez de promover o verdadeiro relaxamento ou o crescimento intelectual.

O Tribunal Mediático vs. A Ética Educacional

Um dos pontos mais fortes dos estudos e pesquisas sobre os reality shows e a educação é a crítica ao "tribunal coletivo" que se forma nas redes sociais, onde julgamos o caráter de estranhos baseados em recortes editados. Para um educador, cuja formação é pautada na empatia, na análise crítica e na compreensão do ser humano, participar desse espetáculo de degradação humana é uma contradição direta com os valores da profissão.

Perda de Tempo e o Abandono da autoformação.

A afirmação é dura, mas necessária: assistir a um reality show é, em grande medida, uma perda de tempo que poderia ser investido na sua autoformação.

Enquanto o cérebro fica preso no ciclo da dopamina — esperando a próxima briga ou o próximo "paredão" — o professor perde a oportunidade de:

  • Ocupar o cérebro com leituras densas: Livros que expandem o repertório pedagógico e cultural.

  • Refletir sobre a prática: Os estudos de psiciologia humana menciona que é mais fácil julgar o outro do que refletir sobre os próprios vazios.

  • Desenvolver o Córtex Pré-Frontal: A região do cérebro responsável pelo controle de impulsos e raciocínio perde eficiência sob estresse contínuo e estímulos vazios.

Conclusão: A Lupa do Comportamento

O vício em reality shows funciona como uma lupa que amplia nossas próprias frustrações e a tendência de projetar no outro o que não queremos ver em nós mesmos. Para o professor, que precisa de clareza mental para guiar seus alunos, trocar a "lupa" do entretenimento fútil pela lanterna do conhecimento é uma escolha ética e profissional.

A vida real acontece fora das telas. As relações com os alunos, as decisões pedagógicas e o crescimento pessoal exigem um esforço emocional que os reality shows tentam, de forma barata, substituir.

Referência Bibliográfica:

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 69ª Edição. São Paulo: Paz e Terra, 2021. (Coleção Leitura).