Bullying

domingo, 12 de abril de 2026

📚 Gestão escolar: entre o discurso e a prática.

 📚 Gestão escolar: entre o discurso e a prática

A gestão escolar contemporânea exige mais do que boas intenções ou discursos bem elaborados. Um estudo recente sobre estilos de liderança em escolas públicas revela um ponto essencial: há uma diferença significativa entre dizer que se pratica a gestão democrática e, de fato, vivê-la no cotidiano escolar.

Em algumas realidades, a liderança se concretiza por meio do diálogo, da escuta ativa e da participação da comunidade. Em outras, embora o discurso seja democrático, a prática não se sustenta na percepção dos professores. Isso evidencia um desafio central da educação pública: alinhar o discurso institucional à prática cotidiana.

A pesquisa também reforça que a liderança não se impõe — ela é construída e reconhecida coletivamente. Um gestor só se torna líder quando consegue mobilizar pessoas, compartilhar decisões e gerar pertencimento na comunidade escolar.

Outro aspecto relevante é o papel da cultura organizacional. Escolas com histórico de participação e cooperação tendem a consolidar práticas mais coerentes de gestão. Nesse contexto, destaca-se a importância da liderança compartilhada, na qual professores, alunos e comunidade assumem protagonismo no processo educativo.

O Projeto Político-Pedagógico (PPP) também aparece como elemento central. Quando construído coletivamente, ele orienta as ações da escola e fortalece sua identidade. Quando não, torna-se apenas um documento formal, distante da prática.

Por fim, o estudo reforça que liderança é uma competência que se desenvolve. Exige formação contínua, reflexão e capacidade de dialogar com a realidade da escola.

A principal conclusão é clara:
👉 não há gestão democrática sem participação real, nem liderança eficaz sem coerência entre o que se diz e o que se faz.

sábado, 11 de abril de 2026

IA na educação não substitui professores, amplia o valor das competências humanas


IA na educação não substitui professores, amplia o valor das competências humanas

Com novas discussões no país, IA tende a assumir tarefas operacionais e reforçar o papel do professor como mediador e construtor de vínculos na aprendizagem

Por Karen Cristine Teixeira* | O debate sobre o uso da inteligência artificial (IA) na educação brasileira começa a ganhar contornos institucionais. O Conselho Nacional de Educação (CNE) está elaborando as primeiras diretrizes nacionais para orientar o uso pedagógico da IA em escolas e universidades, um marco regulatório inédito no país. A proposta busca estabelecer princípios para o uso responsável da tecnologia, incluindo formação docente, ética no uso de dados e preservação do papel central do professor no processo educativo.  

Mudanças no papel docente são uma constante.

É importante contextualizar que a docência e a educação estão em constante transformação. As concepções da pedagogia tradicional (ênfase conteudista expositiva na qual o professor estava no centro do processo de ensino-aprendizagem) foram sendo repensadas e deram espaço ao paradigma contemporâneo, cuja evidência de êxito não é mais apenas a cobertura do conteúdo, mas uma aprendizagem significativa que põe o estudante no centro e vê o professor como curador, orientador e mediador. Esse papel vai sendo revisto para responder aos objetivos da educação num dado tempo, numa dada sociedade e num determinado contexto.

Competências docentes tradicionalmente valorizadas, como o domínio do conteúdo, clareza expositiva, organização e controle da turma continuam sendo importantes, mas não dão conta de instrumentalizar e apoiar o professor para o exercício dessa profissão tão complexa e multifacetada. Com a mudança de paradigma e a valorização do socioemocional, ganham destaque competências como comunicação dialógica, colaboração, empatia, resiliência emocional, flexibilidade, pensamento crítico, entre outras.

O que muda com a chegada da IA?

A IA vem para apoiar o professor em diferentes tarefas, dado seu potencial para a automação sobre tarefas repetitivas e a ampliação das competências docentes. Com esses dois movimentos cresce ainda mais o valor das competências “humanas” e o professor ocupa menos um lugar de executor e mais um papel gestor, decisor e mediador do processo de ensino-aprendizagem.

Onde a IA pode apoiar mais e o que permanece essencialmente humano?

Em tarefas administrativas, como organização de registros e planejamento, sistematização de informações e geração de materiais-base. Assim, o tempo que o professor levaria para realizar tarefas repetitivas e burocráticas (ou aquelas nas quais a IA tem um potencial expandido de contribuição) pode ser investido em gerir o processo de ensino-aprendizagem, com observação, estratégia, acolhimento, diálogo, acompanhamento e reflexão.

Já ocorre uma atuação concreta da IA na personalização da aprendizagem. Adaptar níveis de dificuldade de acordo com a proficiência do estudante, produzir e ajustar conteúdos e atividades diversas, criar formas alternativas de trabalhar o mesmo tema. A IA consegue identificar padrões de erro e propor exercícios específicos para determinadas lacunas. No entanto, é importante dizer que ela adapta o ritmo e a forma, mas não decide o sentido da aprendizagem. Ela pode sugerir caminhos, mas não determina por que aprender, para que aprender ou o que é relevante naquele contexto específico e para aquelas pessoas.

Outro destaque para a IA diz respeito a feedback rápido e contínuo. Correções automatizadas de atividades objetivas, devolutivas imediatas em ambientes digitais e relatórios de desempenho são cada vez mais comuns. Essa agilidade pode ser extremamente valiosa para monitorar progresso e ajustar intervenções. Contudo, uma devolutiva pedagógica também envolve observação, percepção de sinais sutis ou ambíguos, interpretação, análise do contexto, empatia, encorajamento, entre outras competências por parte do educador. 

Há dimensões fundamentais do trabalho docente que a IA não substitui, pois cabe ao professor as decisões sobre o processo de ensino e aprendizagem e a intencionalidade pedagógica. Além disso, a IA não constrói vínculos pedagógicos nem assume responsabilidade pelo outro. Empatia envolve compromisso humano; julgamento ético exige decisões orientadas por valores; liderança pedagógica implica inspirar, mediar conflitos, saber regular as emoções e responder pelas escolhas educacionais. Adicionalmente, a criatividade docente é situada, orientada pelo contexto e pelas necessidades dos estudantes.

Ao mesmo tempo a IA pode ampliar competências docentes importantes. Ela fortalece o pensamento crítico ao exigir avaliação das sugestões geradas, apoia a tomada de decisão baseada em evidências ao organizar dados educacionais e pode favorecer a diferenciação pedagógica e a experimentação criativa. Nesse cenário, a IA deve ser entendida como parceira do professor, não como substituta, preservando a centralidade da responsabilidade e do julgamento profissional docente.

Para saber mais

Confira a seguir alguns exemplos de onde a IA pode apoiar mais e o que segue sendo expertise do professor.

Exemplos 

Onde a IA pode apoiar mais 

O que segue expertise do professor 

 

 

 

 

 

 

Geração de ideias de atividades e planos de aula;

sugestão de sequências didáticas;

criação de materiais multimodais;

organização de conteúdos por objetivo;

sugestão de estratégias de engajamento;

analise de padrões de participação (em ambientes digitais);

sugestão de estratégias e atividades para potencializar o vínculo e autorregulação emocional;

geração de conteúdo/leituras para apoiar a ação docente;

apoio à análise de feedback;

sugestão de pontos de melhoria;

apoio à registros reflexivos;

geração de estratégias de ensino e comunicação alternativas;  

Decidir o que fazer para um grupo em específico;

ajustar o planejamento com base em clima escolar, perceber emoções, cultura da turma e acontecimentos imprevistos;

ler micro sinais emocionais ou sinais ambíguos;

entender silêncios, resistências e constrangimentos situados; julgar adequação cultural, etária, emocional (para o estudante real);

integrar criatividade com intencionalidade pedagógica;

perceber como as atividades são recebidas e o que, de fato, motiva;

relacionar-se de forma genuína;

cultivar interesse autêntico pelos estudantes;

promover presença afetiva; escutar de forma ativa e empática;

reconhecer/acolher sofrimento e emoções; crer no potencial de desenvolvimento;

gerenciar frustação;

lidar com conflitos;

sustentar a presença emocional ao longo do tempo e ensinar pelo exemplo;

refletir e significar sua prática docente;

atribuir sentido, valores e metas à profissão;

decidir quando, para quem e por quê;

realizar julgamento pedagógico;

ler o contexto;

tomar de decisão sob incerteza;

construir identidade docente e sentido no trabalho;

atuar com responsabilidade social;

estabelecer relações de confiança com a comunidade escolar;

comunicação sensível;

mediar expectativas e conflitos;

construir comunidade. 

 

Para conhecer um pouco mais sobre o modelo organizativo de competências relevantes ao fazer docente do Instituto Ayrton Senna, consulte o artigo “More than just experience? Effects of years of teaching, age, and gender on teachers’ social-emotional and instructional characteristics” disponível em:  https://doi.org/10.1016/j.tate.2025.105203 

 

*Karen Teixeira é gerente de pesquisa do Laboratório de Ciências para Educação (eduLab21) do Instituto Ayrton Senna. Psicóloga, mestre e doutora em Psicologia com ênfase em avaliação psicológica em saúde e desenvolvimento pela Universidade Federal de Santa Catarina. 

Turmas multisseriadas: uma pedagogia para a diversidade das aprendizagens!

Turmas multisseriadas: uma pedagogia para a diversidade das aprendizagens

Quando bem implementada, a multisseriação pode ser um fator favorável às aprendizagens 

Por Tereza Perez e André Lázaro* | O fenômeno da urbanização no Brasil foi uma das características mais marcantes do século 20. Na década de 1960, a população urbana ultrapassou a rural e a ideia da vida no campo ganhou, injustamente, uma apreciação negativa, virando sinônimo de atraso e anacronismo nos tempos modernos. Hoje, observamos, entre outras consequências desse fenômeno, o inchaço das cidades e a substituição das pequenas propriedades rurais por latifúndios dominados pela monocultura.

Essas aceleradas transformações tiveram impacto direto nas escolas do campo. Em função da baixa densidade populacional em determinadas localidades, não havia quantidades de alunos da mesma faixa etária suficientes para compor séries e surgiu assim a alternativa das turmas multisseriadas. Atualmente são aproximadamente 1,2 milhão de estudantes, presentes em quase todas as unidades da federação (Censo, 2019).

As multisseriadas são muitas vezes vistas como uma solução precária à luz dos desafios que enfrentam para assegurar uma educação de qualidade: grande rotatividade docente pela precariedade do vínculo, falta de acompanhamento das secretarias de educação em função das distâncias, condições estruturais precárias, além da própria complexidade no manejo das aprendizagens de estudantes de idades e “séries” diferentes.

Um olhar menos contaminado, no entanto, permite perceber a potência de um modelo que, em período de pós-pandemia e escancaramento das desigualdades de oportunidades, reconhece a diversidade inerente a toda sala de aula. A multisseriação, quando bem implementada, pode ser um fator favorável às aprendizagens.

Dessa forma, a ideia de que as turmas multisseriadas são um modelo a ser superado que deve avançar para o modelo seriado, vem sendo questionada por alguns autores (Terigi, 2014). Argumentam que a crise no nosso sistema de ensino tem origem em uma tentativa de homogeneizar os estudantes por desconsiderar a diversidade e a heterogeneidade presentes em toda sala de aula.

É essa ideia de precariedade que guia a tendência de nucleação, iniciada nos anos 70. A nucleação consiste em deslocar estudantes de escolas com salas multisseriadas para escolas centrais na cidade. Assim, ao invés de se criar as condições para que essas crianças tenham um bom ensino no lugar onde vivem, opta-se por levá-las por transporte escolar para unidades muitas vezes distantes de suas casas, dificultando a participação das famílias na vida escolar dos filhos. A escola também é parte da vida comunitária no campo, exerce importante papel na socialização das famílias, é centro de articulação e convivência e tem impacto na economia local, já que emprega parte da população e compra alimentos de produtores locais para a merenda escolar.

A literatura acadêmica sobre o tema aponta, ainda, que a valorização da estrutura seriada – orientadora das políticas educacionais e dos planejamentos de ensino – faz com que práticas pedagógicas baseadas nesse princípio sejam reproduzidas em multisseriadas, o que limita a potência de uma sala composta por estudantes de diferentes idades e frustra a possibilidade de agrupamentos que ampliam as oportunidades de aprendizagem entre pares.

Dessa forma, é preciso reavaliar a tendência de nucleação que muitas redes estão seguindo e promover um deslocamento que traga a proposta das multisseriadas para o centro das políticas públicas educacionais. Este modelo pode inspirar estratégias pedagógicas capazes de dar maior sentido às aprendizagens de todas as crianças e adolescentes, o que garante, de fato, o direito à educação.

*Tereza Perez, diretora-presidente na Roda EducativaAndré Lázaro, diretor de Políticas Públicas da Fundação Santillana, foi secretário da Secadi (Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão) do Ministério da Educação.

Como o ECA Digital impacta o dia a dia escolar!

 Autor

Redação revista Educação

Publicado em 17/03/2026

Como o ECA Digital impacta o dia a dia escolar

Primeira lei brasileira a propor regras e punições objetivas às plataformas digitais entra em vigor

   

Por Davidson Gogora, coordenador de tecnologia e inovação do Colégio Ábaco, SP | A Lei do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital) passa a vigorar a partir de hoje, 17. O documento estabelece novas regras para proteger a presença desse público no ambiente online — passo fundamental, por exemplo, por conta da presença massiva em canais do universo virtual: segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024, 83% das crianças e adolescentes que usam internet no Brasil têm contas em redes sociais e quase 30% delas já relataram alguma situação de desconforto na internet.

Vale contextualizar que, recentemente, um episódio de exposição e adultização de crianças ganhou repercussão nas mídias sociais, acendendo o debate sobre a utilização das imagens desse público para gerar engajamento e lucro. E, dentro da discussão sobre a responsabilidade das plataformas e das famílias e a necessidade de políticas públicas, ganhou força o consenso de que o Estatuto da Criança e do Adolescente, de 35 anos atrás (criado em 1990), precisava ser atualizado para o contexto da digitalização.

Dessa forma, o novo documento representa uma ampliação do Estatuto da Criança e do Adolescente para o universo digital e tecnológico, estabelecendo regras específicas no que diz respeito ao uso de redes sociais, aplicativos, serviços de streaming e jogos eletrônicos; e definindo também novas obrigações para empresas e ressaltando a responsabilidade do Estado e da sociedade na instituição de medidas de proteção.

Entre as obrigações da nova lei, vale destacar a necessidade da adoção, por parte das plataformas, de mecanismos que possibilitem a identificação segura da faixa etária dos usuários, indo além da autodeclaração; da vinculação de um responsável legal para contas de crianças e jovens de até 16 anos tendo-se em vista a supervisão parental; o desenho de políticas rígidas de proteção e privacidade de dados em plataformas de produtos, redes e serviços e virtuais; e a remoção, com notificação de autoridades, de conteúdos nocivos que indiquem, por exemplo exploração, abuso sexual, discurso de ódio, cyberbullying e incentivos a desafios perigosos.

ECA Digital

ECA Digital também atinge escolas do ensino privado e de toda a rede pública. Por exemplo, eventos que antes eram divulgados em redes sociais passam a exigir regras claras de autorização (foto: Shutterstock)

ECA Digital, responsabilidade das escolas

Por mais que o ECA Digital seja uma legislação voltada, sobretudo, para plataformas digitais e para o ambiente virtual, naturalmente traz impactos concretos e relevantes para o cotidiano escolar. Em primeiro lugar, no que diz respeito à governança interna das escolas, se coloca como fator relevante a criação de políticas específicas para lidar com as novas disposições normativas, de modo que se possa tratar, adequadamente, por exemplo, o consentimento para uso de imagem e diretrizes para conteúdo postado online; além de estratégias para a proteção de dados de alunos.

Nesse sentido, as medidas do ECA Digital dialogam diretamente com práticas que já vêm sendo construídas em diversas instituições de ensino, cuja tecnologia é compreendida não como fim, mas como meio pedagógico, sempre mediado por valores éticos, responsabilidade e cuidado com o desenvolvimento integral dos estudantes.

A discussão proposta pelo ECA reforça caminhos que já se mostram essenciais no contexto educacional, como o uso consciente de imagens, a transparência na comunicação institucional, a atenção à proteção de dados e, sobretudo, a formação contínua de educadores para atuar de forma crítica e responsável no ambiente digital.

Além de uma adequação normativa, esse momento pode ser compreendido como uma oportunidade de aprofundar o diálogo com as famílias e fortalecer ações de educação para a cidadania digital, preparando crianças e adolescentes para uma participação segura, respeitosa e consciente no mundo conectado.


Nesse ponto, a postagem de fotos e vídeos referentes a eventos escolares nas redes sociais merece dupla atenção, visto que será necessário garantir autorização clara dos responsáveis e clareza sobre a intenção do uso dessas imagens. Além disso, é essencial que as escolas revisem seus materiais de comunicação, de maneira a garantir que o uso de informações e fotos de crianças esteja em conformidade com o que dispõe o ECA Digital.

É fundamental, ainda, a capacitação dos professores e profissionais da educação, que devem estar cientes das novas implicações legais sobre o tema, principalmente sobre privacidade digital, coleta de dados e supervisão parental, de modo a contribuir, assim, na construção de uma cultura responsável no ambiente escolar.

Cidadãos conscientes

O ECA Digital representa, com tudo isso, um salto importante na legislação brasileira ao reconhecer que a proteção de crianças e adolescentes, no atual contexto, deve se estender ao ambiente digital. Para escolas e instituições, ela é uma oportunidade de reforçar sua missão de formar cidadãos conscientes e preparados para navegar com segurança e responsabilidade no mundo virtual, um contexto que, hoje, faz parte do dia a dia dos chamados nativos digitais e das gerações nascidas após o boom da internet no Brasil.

Naturalmente, as novas disposições exigem esforços práticos e revisão de processos, mas representam, também, um catalisador para um diálogo essencial e mais profundo sobre proteção de dados, privacidade e cidadania digital de jovens que formarão o futuro da sociedade brasileira.

A fiscalização da lei será de responsabilidade da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), que poderá aplicar multas e advertências e, em casos mais graves, a suspensão e/ou proibição da atividade de plataformas no país, por meio de decisão judicial.

Revista Educação: referência há mais de 30 anos em reportagens jornalísticas e artigos exclusivos para profissionais da educação básica.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

🌍 A Terra vista de longe, sentida de perto!

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Há momentos em que a humanidade precisa se afastar de si mesma para, enfim, se compreender.

Foi assim quando os astronautas da missão Artemis II olharam para a Terra e não viram fronteiras, disputas ou diferenças. Viram apenas um ponto azul — frágil, silencioso, suspenso na imensidão do universo.

Um ponto vivo.

O astronauta Jeremy Hansen disse que a Terra parece frágil. E essa palavra carrega uma verdade profunda. Fragilidade não é fraqueza — é convite ao cuidado.

Curiosamente, essa mesma percepção ecoa nas palavras do Papa Francisco em sua encíclica Laudato Si’. Nela, o Papa nos lembra que a Terra não é um recurso a ser explorado, mas uma casa comum a ser cuidada. Uma casa que geme, que sofre, que pede atenção.

E há algo profundamente belo nisso: dois olhares distintos — um vindo da ciência, outro da fé — convergem para a mesma verdade essencial.

Do espaço, os astronautas veem a Terra como um milagre improvável.

Da Terra, o Papa nos convida a enxergá-la como um dom sagrado.

Mas talvez o mais impactante não seja o que se vê, e sim o que se sente.

Lá de cima, dizem os astronautas, não faz sentido destruir. Não faz sentido competir por aquilo que é tão pequeno diante do infinito. Faz sentido cooperar. Apoiar. Construir juntos.

E aqui embaixo, quantas vezes esquecemos disso?

A Terra, vista de longe, não revela cidades ricas ou pobres. Não distingue religiões, ideologias ou nações. Ela revela apenas humanidade.

Uma única humanidade.

Talvez seja esse o maior ensinamento da missão Artemis II: não se trata apenas de ir mais longe no espaço, mas de voltar mais conscientes para casa.

Porque, no fim, o verdadeiro avanço não está na tecnologia que nos leva ao céu, mas na consciência que nos faz cuidar da Terra.

E então, diante dessa pequena esfera azul, tão bela e tão vulnerável, resta uma pergunta simples — e urgente:

Se somos privilegiados por viver aqui… por que ainda não aprendemos a cuidar? 🌱

quarta-feira, 8 de abril de 2026

🎉✨ INAUGURAÇÃO DO PARQUINHO DA FONTE LUMINOSA ✨🎉

🎉✨ INAUGURAÇÃO DO PARQUINHO DA FONTE LUMINOSA ✨🎉

📍 Um novo espaço de alegria, cuidado e desenvolvimento para as nossas crianças!

A Prefeitura convida todas as famílias, estudantes e comunidade escolar para um momento especial: a inauguração de um parquinho pensado com carinho, segurança e muita diversão!

🗓 Data: 10 de abril de 2026 (sexta-feira)
Horário: 17h
📍 Local: Fonte Luminosa

🌈 O que te espera:
🍭 Algodão doce para adoçar o dia
🎨 Pintura facial para colorir a alegria
🎉 Muita recreação e diversão

🛝 Um espaço completo para brincar e crescer:
✔️ Balanços, gangorras e escaladores
✔️ Ambiente seguro e cercado
✔️ Estrutura moderna e acolhedora

💛 Mais que um parquinho… um espaço de infância, convivência e felicidade!

👨‍👩‍👧‍👦 Traga sua família e venha viver esse momento conosco.
Esperamos por você!

terça-feira, 7 de abril de 2026

O Silêncio das Telas e o Grito da Infância: Reflexões de um Pedagogo depois de ouvir uma palestra!

O Silêncio das Telas e o Grito da Infância: Reflexões de um Pedagogo

Por: Deodato Gomes Costa

No último dia 06 de abril, em Belo Horizonte, tive o privilégio de acompanhar a palestra magna do pediatra Daniel Becker. Como pedagogo e entusiasta do chão da escola, saí do auditório não apenas com dados técnicos, mas com uma inquietação profunda que transborda as paredes da sala de aula e invade o cerne da nossa humanidade.

Becker nos apresentou um diagnóstico severo: vivemos a era da "Infância Enclausurada". O que antes era o espaço do encontro — a rua, a praça, o recreio de correr — foi substituído pelo brilho hipnótico das telas. E, como educadores, precisamos encarar a verdade: a tecnologia, que nos prometeu conexão infinita, está gerando um isolamento sem precedentes.

A Captura da Atenção

O que mais me tocou na fala de Becker foi a desmistificação do "uso inofensivo". Ele nos mostrou que não se trata apenas de distração; existe uma engenharia de design persuasivo feita para viciar. Quando entregamos um smartphone a uma criança pequena, estamos oferecendo uma "metralhadora de dopamina" para um cérebro que ainda não possui o "freio" do córtex pré-frontal desenvolvido.

O resultado? Uma geração com dificuldade crônica de foco, onde a leitura profunda e o raciocínio abstrato perdem espaço para o estímulo fragmentado do scroll infinito. Como ensinar a paciência do aprendizado em um mundo de satisfação instantânea?

A Erosão da Empatia e o Papel do Exemplo

Outro ponto nevrálgico da palestra foi a "distração parental". Becker foi cirúrgico: a criança não compete apenas com o seu próprio jogo, ela compete com o celular dos pais pela atenção deles. Esse "deserto de olhar" atrofia a empatia. A pedagogia nos ensina que o aprendizado é, antes de tudo, um vínculo afetivo. Se não há olhar, o vínculo se esgarça; se o vínculo se esgarça, a autoridade pedagógica e familiar desmorona.

O Antídoto: Mais Pé no Chão, Menos Wi-Fi

A palestra não foi apenas um alerta, mas uma convocação. Precisamos resgatar o ócio, o tédio criativo e o contato com a natureza. Como secretário e professor, reforço a tese de Becker: a escola não pode ser apenas um depósito de conteúdos digitais. Ela deve ser o refúgio do real, o lugar do corpo em movimento, da mão na terra e do debate olho no olho.

Precisamos de uma "Dieta Digital" urgente. Não por tecnofobia, mas por amor à infância. Proteger o sono, garantir o brincar livre e, acima de tudo, desconectar para reconectar com quem está ao nosso lado.

Saí da palestra convencido de que o maior ato revolucionário que podemos fazer hoje por nossas crianças e adolescentes é oferecer-lhes a nossa presença plena. Menos telas, mais vida. Menos curtidas, mais abraços. A infância tem pressa de ser vivida no mundo real.


Gostou da reflexão? Como tem sido o desafio do uso de telas pelas crianças e adolescentes na sua casa ou na sua escola? 

Vamos conversar nos comentários.

sábado, 4 de abril de 2026

A RESSURREIÇÃO NO MEIO DE UMA SEXTA FEIRA SANTA PROLONGADA!

 



Nem o mais otimista pode negar que vivemos tempos sombrios e ameaçadores. Estamos dentro de um mundo sem regras e no interior do caos, sem termos a certeza de que esse caos possa ser generativo e não somente destrutivo. Agora, estamos sob a regência do caos destrutivo. Há uns 18 lugares de guerra, há muitos genocídios e ameaças de uso de armas de destruição em massa. Talvez nem se passem na Terra, mas no espaço por onde giram centenas de satélites, alguns carregados de armas mortíferas. Há ainda a ameaça de uma paralisação mundial cibernética, feita por uma das potências beligerantes. Tudo pode parar, celulares, aviões, carros, sistema elétrico e de comunicação. Todos ficamos de joelhos, reconhecendo a derrota

Estamos entregues a umas quatro ou cinco pessoas que podem deslanchar, em momentos de insanidade ou sob ameaça  existencial, como é o caso do presidente destinado dos EUA, uma guerra nuclear com armas atômicas estratégicas (não táticas), que pode produzir um inverno nuclear. Tal será a densidade de partículas na atmosfera que impediriam a penetração da luz solar. Os efeitos letais sobre a humanidade e a natureza (as plantas não produzirão mais oxigênio) são inimagináveis, beirando o desaparecimento da espécie humana.

Perguntamo-nos: como celebrar a Páscoa e a festa da ressurreição neste contexto? A maioria da humanidade vive alheia a estas ameaças, seja pela negação de informações por parte das mídias dos países hegemônicos do grande sistema imperante, seja por ignorância ou descaso. De todos os modos, com ameaças ou sem ameaças, a vida deve continuar com seus afazeres e trabalhos que garantem comida na mesa das pessoas. Viver sem se desesperar.

Amarras do espaço-tempo

Antes de mais nada, precisamos aclarar o que se entende por ressurreição. Não devemos confundi-la com a reanimação de um cadáver, como ocorreu com Lázaro (João 11, 1-44; O  Filho da Viúva de Naim, Lucas 7, 15; A Filha de Jairo Lucas 8, 41). Eles  voltaram à vida mortal que tinham antes e acabaram morrendo. Ressurreição significa outra coisa: uma transformação radical da existência histórica de Jesus de Nazaré, crucificado, morto e enterrado. Talvez São Paulo tenha expressado melhor o que significa ressurreição: a irrupção do “Novissimus Adam”(1 Cor 15, 45).

“Novissimus Adam” significa que nesse Crucificado se mostrou, em antecipação do homem novo, e qual é o futuro da vida: a total realização das possibilidades latentes dentro de cada um, de forma que ele pode ser considerado “o novo ser humano na plenitude de sua humanidade”. Esse ser novo assume a forma de existência do próprio Deus: omnipresença, libertação das amarras do espaço-tempo, com um tipo de vida imortal e eterna, jamais ameaçado pela morte. É pura vida em sua suprema expressão à semelhança do Deus vivo.

Moisés morreu, Isaías morreu, Sócrates morreu, Buda morreu, Zaratustra morreu, Confúcio morreu, Lao-Tsé morreu, Chuang-Tzu morreu. Jesus ressuscitou e vive entre nós, como o Cristo cósmico, presente em todos os espaços no céu e na Terra. De Moisés, se seguem os dez mandamentos; de Buda, as cinco virtudes básicas; de Confúcio, as virtudes do bom funcionário e assim de outros. Pensa-se menos nas pessoas e mais nas doutrinas que deixaram e que humanizam os seguidores.

De Jesus, se pensa na pessoa que ressuscitou e vive entre nós. Mais importante do que os textos do Novo Testamento, recolhidos após 30-40 anos de sua crucificação e de sua  ressurreição (compõem o livro do Novo Testamento) é a pessoa de Jesus que conta e com a qual entramos em comunhão como com um ser vivo e presente. Comungamos a totalidade de Jesus (em hebraico, corpo e sangue) pela Eucaristia. E internalizamos sua presença cósmica em todas as coisas.

Essa é a verdade fundamental do cristianismo: a ressurreição do Crucificado. Muitos na história foram crucificados. Mas com Jesus ocorreu algo inaudito que Teilhard de Chardin, paleontólogo que  soube articular a evolução com a fé, chamou de um fenômeno  cósmico “tremendous”. Outros dizem que a ressurreição é uma revolução dentro da   evolução: a emergência  antecipada, aventurada e ditosa do fim bom do ser humano e do universo do qual ele é parte.

Ninguém melhor do que o apóstolo Paulo testemunha a ressurreição dizendo: ”Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação e vã a nossa fé. Seríamos também mentirosos… Mas, na verdade, Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos quem morrem… Em Cristo todos reviverão” (1 Coríntios 15, 13-15; 20;22).

Lugares sagrados

Por fim, permito-me um testemunho pessoal. Quando estive nos lugares santos na Palestina, em 1976, ocorreu um fato curioso. Sabemos que estes locais sagrados estão sempre apinhados de gente do mundo inteiro, que vêm visitá-los. Nunca alguém está só. Estive no santo sepulcro, lugar da ressurreição, sozinho, por 18 minutos contados. Para mim, foi um prêmio por ter escrito cerca de mil páginas sobre Jesus e todo um livro sobre A Ressurreição de Cristo e Nossa na Morte (Vozes). Nos meus escritos, sempre volto ao tema da ressurreição. É o que o cristianismo tem a oferecer, mais que os belos ensinamentos do Mestre.

Por mais dramática que se apresente a atual situação da humanidade, que criou para si os instrumentos de autodestruição, não podemos viver tristes. Depois que Cristo ressuscitou e mostrou qual é o nosso futuro bom e bem-aventurado, podemos ainda sorrir, brincar e dançar, como as criancinhas da Faixa de Gaza que escaparam do genocídio.

A Páscoa da ressurreição deste ano nos permite uma discreta alegria e confiança. A última página de nossa história não será escrita pela morte, mas pela ressurreição da vida até aquele momento em que nosso irmão Jesus ressuscitado também nos transformará à semelhança dele.








BOFF, Leonardo. A ressurreição no meio dE uma sexta-feira santa prolongada. Revista Liberta, 4 abr. 2026. Disponível em: <https://revistaliberta.com.br/digital/a-ressurreicao-no-meio-da-uma-sexta-feira-santa-prolongada/>. Acesso em: 4 abr. 2026.