O corpo como ponto de partida para a transformação: uma releitura de A Semente da Vitória
Há livros que lemos e guardamos na estante. Outros permanecem guardados também em nossa memória afetiva. A Semente da Vitória, de Nuno Cobra, pertence a essa segunda categoria.
Ganhei este livro de presente no dia 24 de janeiro de 2005, das mãos do professor de Educação Física Dailton, a quem considero um amigo, apesar de pouco nos encontrarmos. Na primeira página, ele deixou uma dedicatória que, mais de vinte anos depois, adquiriu um significado ainda mais especial:
“Deodato, espero que esse livro venha lhe trazer aperfeiçoamento na sua profissão e consequentemente em sua vida, pois quando transcendemos os nossos conhecimentos passamos a cada dia conciliarmos em uma nova esfera da vida...”
Dailton encerrou com as palavras “Um abraço! Feliz 2005!”, seguidas de sua assinatura e da data: 24-01-2005.
Voltar a esse livro é também reencontrar aquele momento da minha vida e perceber o que mudou em mim desde então. Agora concluo a releitura do Capítulo III, intitulado “Trabalhando o físico, o mental, o espiritual e o emocional”. Embora mais de duas décadas tenham se passado desde que recebi essa verdadeira pérola, as ideias de Nuno Cobra continuam provocadoras e atuais.
O aspecto que mais transformou minha concepção foi a inversão proposta pelo autor. Durante muito tempo, ouvi falar sobre o poder da mente: pensar positivamente, acreditar, desenvolver a força mental e controlar os próprios pensamentos. Nuno Cobra, sem desprezar a mente, apresenta outro caminho. Ele mostra o extraordinário poder que o corpo possui para interferir na mente, fortalecer as emoções e mudar a vida.
Essa é, para mim, a ideia central do capítulo: a transformação humana pode e deve começar pelo corpo.
O ser humano como uma unidade
Nuno Cobra compreende o ser humano a partir de quatro dimensões inseparáveis: corpo, mente, emoção e espírito. Uma dimensão interfere continuamente nas outras. Quando o corpo está enfraquecido, faltam disposição, energia e vitalidade. Essa fragilidade repercute no pensamento, desorganiza as emoções e dificulta o desenvolvimento espiritual.
Por isso, o autor não trata a atividade física apenas como instrumento para emagrecer, melhorar a aparência ou prevenir doenças. O movimento corporal torna-se um caminho de reconstrução da pessoa.
Ao movimentar o corpo, enfrentamos a preguiça, o cansaço, a falta de vontade e as desculpas que criamos. Precisamos estabelecer horários, respeitar limites, manter a continuidade e cumprir o que foi planejado. Cada uma dessas atitudes representa um exercício emocional.
Há momentos em que precisamos começar mesmo sem vontade. Em outros, precisamos parar quando gostaríamos de continuar. Nos dois casos, aprendemos disciplina e autocontrole. O corpo, portanto, transforma-se em uma verdadeira escola para as emoções.
Pensar positivo não é suficiente
Uma das contribuições mais importantes do capítulo é mostrar que o pensamento positivo, sozinho, não produz transformação. Dizer “eu vou vencer” não é suficiente quando essa afirmação não se converte em ação.
A verdadeira mudança exige esforço, disciplina, continuidade e enfrentamento das próprias resistências. O vencedor não nasce pronto nem se constitui apenas pelo desejo. Ele é construído por meio das ações que realiza todos os dias.
Nesse sentido, uma conquista corporal possui grande força educativa. Quando uma pessoa consegue caminhar uma distância maior, melhorar sua respiração, controlar sua frequência cardíaca, emagrecer, aumentar sua força ou superar uma limitação, ela produz uma prova concreta de sua capacidade.
Essa experiência ensina ao cérebro que a transformação é possível. Uma conquista real e mensurável com o próprio corpo pode ter mais força do que milhares de palavras motivacionais. O corpo apresenta evidências de que somos capazes de mudar.
O “cérebro burro” e a alimentação mental
Nuno Cobra emprega a provocativa expressão “cérebro burro” para explicar que o cérebro processa as informações recebidas pelos sentidos e qualificadas pelas emoções. Ele tende a aceitar como verdadeira a interpretação que fazemos dos acontecimentos.
Duas pessoas podem viver a mesma situação e reagir de maneiras completamente diferentes. Uma poderá enxergar possibilidades, enquanto a outra verá apenas obstáculos. Aquilo que alimentamos continuamente com emoção pode orientar nosso comportamento a favor ou contra nós mesmos.
Por isso, o autor chama a atenção para a “alimentação mental”. Assim como precisamos cuidar daquilo que oferecemos ao corpo, devemos vigiar o que oferecemos à mente: pensamentos, palavras, amizades, ambientes, notícias e interpretações.
As expressões “cérebro burro” e “hormônios de boa ou má qualidade” devem ser compreendidas como metáforas empregadas pelo autor, e não como conceitos científicos literais. O sentido principal, entretanto, permanece válido: aquilo que pensamos, sentimos e repetimos interfere em nossa disposição e em nossas ações.
O corpo contra o boicote interior
O capítulo também aborda o mecanismo do boicote. Ao longo da vida, acumulamos mensagens negativas que nos fazem duvidar de nossas capacidades. Quando estamos próximos de uma conquista, podem surgir a hesitação, o adiamento, o medo e a vontade de desistir.
É o conhecido “faço ou não faço”, acompanhado de perguntas como: “E se eu não conseguir?”, “E se eu fracassar?” ou “E se eu não estiver bem naquele momento?”.
O trabalho corporal ajuda a enfrentar esse boicote porque exige uma decisão prática. Levantar, calçar o tênis, sair para caminhar e cumprir aquilo que foi planejado são maneiras concretas de contrariar as programações internas que nos conduzem à desistência.
Cada pequena vitória fortalece o poder de acreditar. Não se trata de uma confiança vazia, mas de uma crença construída pela experiência. A pessoa acredita em si porque começa a reunir provas de que consegue avançar.
A família, a escola e o “tripé da anulação”
Nuno Cobra apresenta uma crítica contundente à família, à escola e à religião quando essas instituições se organizam exclusivamente em torno da repressão, da culpa, do medo e da obediência. Ele chama essa estrutura de “tripé da anulação”.
Desde cedo, a criança recebe muitos “nãos”, críticas e punições, enquanto seus acertos frequentemente são considerados apenas uma obrigação. Aos poucos, ela pode aprender que seus erros são mais importantes do que suas qualidades e que não possui capacidade para vencer.
Como educador, considero especialmente importante a reflexão do autor sobre a escola. Uma educação baseada na humilhação e na obediência cega pode destruir a autoestima do estudante. O verdadeiro professor corrige sem anular, estabelece limites sem desrespeitar e reconhece as potencialidades de cada aluno.
Uma das frases mais significativas do capítulo afirma que “o verdadeiro mestre é aquele que exalta o discípulo, e não aquele que o reprime”. Isso não significa ignorar os erros, mas impedir que o erro seja transformado na identidade do estudante.
Os dois sacos e a importância do elogio
O autor utiliza a imagem de dois sacos simbólicos. Em um deles, guardamos nossos acertos, qualidades, elogios, conquistas e vitórias. No outro, acumulamos erros, defeitos, críticas, fracassos e repreensões.
Na educação familiar e escolar, o saco das negatividades costuma ficar cheio, enquanto o das positividades permanece quase vazio. O problema não está em corrigir os erros, mas em atribuir a eles uma importância muito maior do que aquela concedida aos acertos.
Nuno Cobra propõe, então, o difícil exercício do elogio. O elogio sincero fortalece a autoestima, reconhece o esforço e estimula a continuidade das boas ações. Elogiar exige generosidade e segurança, porque significa colaborar para que outra pessoa cresça — talvez até mais do que nós mesmos.
Essa reflexão é fundamental para pais, professores e gestores. Precisamos aprender a enxergar e nomear as conquistas das pessoas. Quem somente aponta erros pode produzir medo e insegurança; quem reconhece os avanços ajuda a construir confiança e autonomia.
Quem muda o corpo, muda a vida
Ao terminar este capítulo, compreendo com mais clareza por que este livro mudou tanto minha concepção. A mente não atua separadamente do organismo. O corpo não é apenas o lugar onde a vida acontece; ele participa ativamente da construção de quem somos.
Mudar o corpo, no sentido apresentado por Nuno Cobra, não é submeter-se a padrões estéticos nem buscar uma aparência idealizada. É recuperar energia, movimento, disciplina, disposição e capacidade de agir. É deixar de ser mero coadjuvante para assumir o protagonismo da própria existência.
O movimento produz pequenas vitórias. As pequenas vitórias fortalecem a confiança. A confiança reorganiza as emoções. E emoções fortalecidas ampliam nossa capacidade de pensar, agir, relacionar-nos e encontrar sentido na vida.
Mais de vinte anos depois de receber este livro, percebo a profundidade da dedicatória escrita pelo amigo Dailton. O conhecimento realmente pode nos conduzir a outras esferas da vida, especialmente quando não permanece apenas no pensamento e se transforma em experiência.
A semente da vitória germina quando o pensamento encontra a ação. Ela cria raízes quando fortalecemos o corpo, cresce quando educamos as emoções e floresce quando assumimos a responsabilidade pela condução da nossa vida.
Talvez essa seja a principal mensagem que levo desta releitura: não devemos esperar que a mente transforme sozinha o nosso corpo e a nossa existência. Muitas vezes, é justamente quando colocamos o corpo em movimento que começamos a movimentar tudo aquilo que existe dentro de nós.
Deodato Gomes Costa
@professordeodatogomes





