Bullying

domingo, 13 de setembro de 2026

Por que é tão difícil mudar?

Por que é tão difícil mudar?

Angélica Banhara
Jornalista e palestrante especializada em saúde, longevidade e estilo de vida saudável
Instagram: @angelicabanhara

A gente sabe que precisa comer melhor, fazer atividade física, dormir bem e controlar o estresse. Informação, portanto, não parece ser o problema. Mesmo assim, entre saber o que fazer e colocar em prática existe um abismo.

Por que pessoas informadas, inteligentes e motivadas começam mudanças importantes, mas tantas vezes não conseguem sustentá-las? A resposta mais comum é: falta disciplina, força de vontade, foco. Quem abandona a academia não se esforçou o suficiente. Quem voltou a comer como antes “não teve determinação”. Mas essa explicação ignora uma parte importante da história: as condições em que aquela pessoa está tentando mudar.

É nesse ponto que Viviane Caneriani Pagani, pesquisadora em mudança de comportamento e gestora de estilo de vida saudável, concentra seu trabalho. Fundadora do Miami Institute of Knowledge (EUA), ela desenvolveu a Teoria do Ponto Cego, uma proposta que busca explicar por que uma mudança pode funcionar em determinada fase da vida e fracassar em outra.

A ideia é: toda mudança exige recursos, e eles não são infinitos nem permanecem iguais. Temos diferentes níveis de energia, disposição, equilíbrio emocional, tempo, organização e apoio. Ao mesmo tempo, cada meta impõe uma demanda.

— Antes de perguntar o que uma pessoa deve fazer, precisamos entender se ela dispõe, naquele contexto, da capacidade necessária para sustentar a mudança — diz Viviane.

Pense em alguém que decide começar a se exercitar indo à academia cinco vezes por semana. A meta pode ser adequada em teoria, mas talvez não seja para aquela pessoa naquele momento. Se ela está dormindo mal, trabalhando demais e sob forte pressão, acrescentar cinco treinos à rotina pode ultrapassar sua capacidade disponível. Isso não significa desistir. Talvez seja preciso começar de outro lugar.

Na Teoria do Ponto Cego, Viviane considera quatro dimensões que interferem nessa capacidade. A primeira é o corpo: energia, sono, dores e recuperação. A segunda é a mente: como lidamos com estresse, emoções e frustrações. A terceira é o propósito: a mudança faz sentido ou é apenas uma obrigação? E a quarta é o ambiente: há tempo, organização, apoio e condições para realizá-la?

É uma forma de escapar do pensamento do tudo ou nada. Em vez de sair de uma rotina sedentária para cinco dias de academia, talvez seja mais sustentável começar com dois. Em vez de mudar toda a alimentação, escolher uma alteração possível. Em vez de exigir mais esforço de alguém exausto, talvez seja necessário recuperar o sono primeiro.

A sustentabilidade da mudança nasce do equilíbrio entre aquilo que a ação exige e aquilo que a pessoa consegue manter — diz.

A proposta tira a culpa, mas não a responsabilidade individual. Troca o julgamento por uma pergunta mais útil: o que está dificultando essa mudança e o que pode ser ajustado?

O ponto cego estaria em planejar a vida a partir daquilo que gostaríamos de conseguir, sem olhar para aquilo que efetivamente conseguimos sustentar. Quando a demanda da mudança fica muito acima da capacidade disponível, cresce o risco de abandono.

A proposta para uma estratégia mais realista é questionar: o que eu consigo sustentar neste momento? Às vezes será preciso fortalecer a capacidade: dormir melhor, reduzir sobrecargas, organizar a rotina. Em outras, diminuir a exigência. Ou fazer as duas coisas ao mesmo tempo, aos poucos.

— A interrupção de um plano não deve ser interpretada como fracasso pessoal; muitas vezes ela reflete um descompasso entre a meta e os recursos do momento — afirma.

Isso vale para a academia, para a alimentação e para qualquer mudança de estilo de vida. Também vale para o envelhecimento. À medida que a vida muda, nosso corpo, nossa rotina e nossas responsabilidades mudam com ela. Uma estratégia sustentável deve acompanhar essas transformações.

Referência bibliográfica — ABNT

BANHARA, Angélica. Por que é tão difícil mudar? O Globo, Rio de Janeiro, 28 jan. 2026. Seção Bem-Estar.

sábado, 12 de setembro de 2026

Os três melhores amigos do coração humano e o Estoicismo!



Para Epicteto, não controlamos a forma como as outras pessoas nos tratam. Não podemos obrigar ninguém a ser leal, verdadeiro ou amigo. Podemos, entretanto, escolher agir com lealdade, falar com sinceridade e cultivar amizades fundamentadas no respeito e no bem comum.

Os cães simbolizam essas virtudes porque demonstram afeto e fidelidade por meio de atitudes. Essa ideia aproxima-se do ensinamento de Epicteto de que a filosofia não deve permanecer apenas nas palavras: precisa aparecer em nossa maneira de viver.

A frase “especialmente quando ninguém está olhando” reforça essa perspectiva. Para Epicteto, uma ação virtuosa não deve ser praticada para receber elogios, conquistar reputação ou agradar aos outros. A virtude possui valor por si mesma. O importante não é parecer uma pessoa boa, mas escolher agir corretamente, mesmo sem reconhecimento.

Uma síntese estoica para acompanhar a imagem seria:

Não podemos exigir lealdade, sinceridade e amizade dos outros. Mas podemos fazer dessas virtudes a expressão de nosso próprio caráter. Para Epicteto, é nas escolhas que dependem de nós — sobretudo quando ninguém está olhando — que revelamos quem verdadeiramente somos.

A imagem das cobras representa os vícios que podemos encontrar nos outros e também em nós mesmos. A imagem dos cães, por sua vez, representa as virtudes que podemos deliberadamente cultivar. Epicteto nos aconselharia a não gastar a vida procurando a falsidade alheia, mas a concentrar nossa atenção na formação do nosso próprio caráter.

As três cobras mais perigosas do mundo e o Estoicismo!

A inveja, a traição e a ingratidão podem vir de outras pessoas e, por isso, não estão sob nosso controle. Não podemos assegurar que todos sejam leais, sinceros ou agradecidos, ainda que os tratemos com bondade. O que depende de nós é nossa maneira de interpretar essas atitudes e de responder a elas.

Epicteto não aconselharia viver desconfiando de todos ou tentando descobrir “cobras” escondidas atrás de cada abraço. Isso nos tornaria prisioneiros do medo, da suspeita e da opinião alheia. Ele recomendaria prudência para reconhecer o caráter das pessoas, mas sem permitir que a conduta delas corrompa o nosso próprio caráter.

A imagem também pode ser interpretada por outra perspectiva: as três “cobras” mais perigosas não são apenas aquelas que encontramos nos outros. Elas também podem estar dentro de nós. A inveja nasce quando transformamos a superioridade ou a felicidade alheia em ameaça. A traição acontece quando abandonamos nossos princípios por conveniência. A ingratidão aparece quando esquecemos os benefícios recebidos e julgamos que tudo nos era devido.

Assim, uma leitura verdadeiramente epictetiana seria:

Não podemos controlar a inveja, a traição ou a ingratidão dos outros. Podemos, porém, vigiar nossos julgamentos para que essas paixões não se instalem em nós. A falta de virtude do outro pertence a ele; conservar nosso caráter pertence a nós.

A principal lição não seria “desconfie dos abraços e sorrisos”, mas:

Seja prudente com as pessoas, sem transformar a prudência em amargura. Quando alguém agir mal, não permita que o erro dele determine quem você se tornará.

Epicteto nos lembraria de que sofrer uma traição é um acontecimento externo; tornar-se vingativo, rancoroso ou desleal em resposta a ela é uma escolha moral nossa. O verdadeiro perigo não está somente em encontrar pessoas invejosas, desleais ou ingratas, mas em deixar que suas atitudes produzam em nós os mesmos vícios.

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

 





Devemos dizer "não" para as coisas que não importam

MATEUS SALVADORI
Professor de Filosofia

Uma das coisas mais difíceis de fazer na vida é dizer "não": não para convites, não para pedidos, não para obrigações que parecem urgentes, não para aquilo que todo mundo está fazendo. Mais difícil ainda é dizer "não" para certas emoções que consomem tempo: a raiva que nos faz remoer o passado, a empolgação que nos distrai, a obsessão que nos desgasta, a distração que nos rouba presença.

Nenhum desses impulsos parece grande coisa isoladamente, mas, juntos, se tornam um compromisso, como se você tivesse assinado um contrato invisível de desperdiçar seus dias. Byung-Chul Han, em "Sociedade do Cansaço", explica que hoje o inimigo não está fora, mas dentro de nós. Tentamos nos superar o tempo todo, dizendo "sim" a cada nova meta e desafio, até quebrarmos por dentro. Essa autoexploração leva a doenças como ansiedade, depressão e burnout. O excesso de positividade e produtividade não liberta, apenas nos deixa mais cansados e culpados.

Essa sensação de perda não é nova. Há dois mil anos, Sêneca já alertava que muitos só percebem tarde demais o quanto de tempo foi desperdiçado com coisas inúteis. Ele nos provoca a refletir: "Quantas vezes outros roubaram a sua vida enquanto você não percebia o que estava perdendo, quanto foi desperdiçado em uma dor vazia, uma alegria boba, um desejo ávido, uma conversa falsa. Você entenderá que morria de modo prematuro." (Sobre a brevidade da vida, 3.3)

Dizer "não" pode incomodar. Pode decepcionar pessoas, fechar portas, gerar incômodos. Mas quanto mais você diz "não" ao que não importa, mais espaço cria para o que realmente importa.

É como no filme "Sim Senhor", com Jim Carrey: o personagem decide dizer "sim" para tudo e, no início, é divertido, mas logo fica sobrecarregado e sem tempo para si. Só encontra equilíbrio quando percebe que também precisa aprender a dizer "não".

Sêneca provoca de novo: "Você ouvirá muitos que dirão: 'quando eu tiver cinquenta anos, me aposentarei; aos sessenta anos, me retirarei dos cargos'. E quem garante que terá uma vida tão longa? Quem aceitará que as coisas aconteçam de acordo com o que deseja? Não sente vergonha por reservar para si essas sobras de vida e destinar ao exercício da boa mente apenas este tempo que não podia ser usado para mais nada? Quão atrasado é começar a viver quando a vida está para terminar!" (Sobre a brevidade da vida, 3.4).

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

DUAS PINTURAS, DIFERENTES OLHARES SOBRE A INDEPENDÊNCIA !

DUAS PINTURAS, DIFERENTES OLHARES SOBRE A INDEPENDÊNCIA 

Neste 7 de Setembro, em que celebramos os 204 anos da Independência do Brasil, proponho um exercício próprio do ensino de História: observar duas pinturas sobre o mesmo acontecimento e perceber que elas não contam exatamente a mesma história.

Na primeira imagem, Independência ou Morte!, pintada por Pedro Américo em 1888, Dom Pedro aparece em posição de comando, erguendo a espada e sendo acompanhado por uma imponente comitiva militar. A cena é grandiosa, organizada e heroica. O povo comum permanece à margem, representado principalmente pelo homem que conduz o carro de bois e assiste ao acontecimento.

Na segunda, A Proclamação da Independência, produzida por François-René Moreaux em 1844, Dom Pedro também ocupa o centro, mas está cercado por homens, mulheres e crianças que o aclamam. A obra apresenta a Independência como uma celebração popular, marcada pelo entusiasmo e pela participação coletiva.

As pinturas foram produzidas, respectivamente, 66 e 22 anos depois de 1822. Portanto, não são fotografias daquele momento nem reproduções exatas do que aconteceu. São interpretações construídas pelos artistas e também revelam as ideias de suas épocas sobre a formação do Brasil.

É justamente aí que está a riqueza do ensino de História: aprender a olhar para além da imagem, fazer perguntas, comparar versões e compreender que nenhum país nasce do grito de uma única pessoa.

Como disse em meu discurso no momento cívico, aquele grito ganhou força porque havia um povo que desejava liberdade e sonhava com um Brasil capaz de decidir o próprio destino.

A Independência não foi uma cena perfeita, congelada em um quadro.

Foi luta.
Foi coragem.
Foi resistência.
Foi esperança.

E ela continua sendo construída todos os dias, sobretudo dentro das nossas escolas.

Quando uma criança aprende a ler, o Brasil se torna mais livre.

Quando nossos estudantes concluem a Educação Básica dominando a matemática, saem mais preparados para a vida — e o Brasil se torna mais forte.

Quando aprendem a interpretar o mundo, reconhecem o valor da própria voz e respeitam os direitos dos outros, o Brasil se torna mais justo, democrático e verdadeiramente independente.

Que o 7 de Setembro não seja apenas uma lembrança do passado, mas também um compromisso com o presente e uma esperança para o futuro.

Viva a educação pública!
Viva a nossa escola!
Viva Carlos Chagas!
Viva a liberdade!
E viva o Brasil! 🇧🇷

#IndependênciaDoBrasil #7DeSetembro #EnsinoDeHistória #EducaçãoPública #HistóriaDoBrasil #CarlosChagasMG #EducaçãoTransforma

As datas e a identificação das obras foram conferidas nos acervos do Museu do Ipiranga e do Museu Imperial.

domingo, 6 de setembro de 2026

ESTOICISMO: Os Conceitos em Latim Que Vão MUDAR Sua Mente!

Embora o estoicismo tenha surgido na Grécia e muitos conceitos tenham nomes originalmente gregos, sua tradição romana popularizou várias expressões latinas. As mais conhecidas são:

  1. Amor fati — “Amor ao destino”
    Significa não apenas aceitar o que acontece, mas acolher cada acontecimento como parte necessária da vida e transformá-lo em oportunidade de crescimento.

  2. Memento mori — “Lembre-se de que você morrerá”
    Recorda a finitude humana. Para os estoicos, pensar na morte não é pessimismo, mas um convite para valorizar o presente e viver com propósito.

  3. Premeditatio malorum — “Premeditação dos males”
    Exercício de imaginar, com equilíbrio, possíveis dificuldades futuras. Seu objetivo é preparar a mente, reduzir surpresas e reconhecer que podemos enfrentar as adversidades.

  4. Dichotomia controlis — “Dicotomia do controle”
    Expressão moderna em latim para a distinção entre aquilo que depende de nós e aquilo que não depende. Nossas escolhas e atitudes estão sob nosso domínio; acontecimentos externos, não completamente.

  5. Summum bonum — “O bem supremo”
    Para o estoicismo, o bem supremo é a virtude: viver com sabedoria, justiça, coragem e moderação.

  6. Virtus — “Virtude” ou “excelência moral”
    É a disposição para agir corretamente. No estoicismo, uma vida boa não depende de riqueza ou prestígio, mas da qualidade moral das escolhas.

  7. Secundum naturam vivere — “Viver de acordo com a natureza”
    Significa viver conforme a razão, a natureza humana e nossa condição de seres sociais, procurando contribuir para o bem comum.

  8. Fatum — “Destino”
    Representa a ordem dos acontecimentos que não controlamos. O ser humano não escolhe tudo o que acontece, mas pode escolher como responder.

  9. Providentia — “Providência”
    Refere-se à ideia de que o universo possui uma ordem racional. Para os estoicos antigos, os acontecimentos integravam uma organização maior da natureza.

  10. Ratio — “Razão”
    É a capacidade humana de examinar julgamentos, governar impulsos e agir conscientemente. Está relacionada ao logos, termo grego para a razão que organiza o universo.

  11. Apatheia — termo grego, não latino
    Significa liberdade em relação às paixões desordenadas. Não é ausência de sentimentos, mas a capacidade de não ser dominado por impulsos, medos e desejos irracionais.

  12. Ataraxia — termo grego, não latino
    Significa tranquilidade ou ausência de perturbação. É mais central no epicurismo e no ceticismo, embora também seja frequentemente relacionada à serenidade estoica.

  13. Prohairesis — termo grego, não latino
    É a faculdade de escolha moral: nosso poder de julgar, decidir e orientar nossas ações. É um conceito fundamental em Epicteto.

  14. Sympatheia — termo grego, não latino
    Designa a conexão entre todas as partes do universo. Dessa ideia nasce a compreensão estoica de que os seres humanos pertencem a uma única comunidade.

  15. Cosmopolis — termo de origem grega
    Significa “cidade universal”. Para os estoicos, somos cidadãos do mundo e temos deveres não apenas com nossa comunidade imediata, mas com toda a humanidade.

Uma síntese útil para sua palestra seria:

Memento mori nos recorda que o tempo é limitado; amor fati nos ensina a acolher o que acontece; e virtus nos orienta a responder com sabedoria, justiça, coragem e moderação.

Observação importante: amor fati tornou-se célebre sobretudo com Nietzsche, muitos séculos depois dos estoicos. Entretanto, a expressão resume adequadamente uma atitude já presente no estoicismo antigo, especialmente nas reflexões de Epicteto e Marco Aurélio.

A verdade e a mentira!

A verdade e a mentira

Dom Wilson Tadeu-Dom Wilson Tadeu Jönck-Arcebispo de Florianópolis (SC)

Conta uma parábola de origem judaica que a Mentira e a Verdade, em um dia de sol, saíram a caminhar no campo. E resolveram banhar-se nas águas de um rio que se apresentava muito convidativo. Cada uma tirou a sua roupa e caíram na água. Mas, a um dado momento a Mentira aproveitou-se da distração da Verdade, saiu da água e vestiu as roupas da Verdade. Quando esta saiu da água, negou-se a usar as vestes da Mentira. Saiu nua a perseguir a Mentira. As pessoas que as viam passar acolhiam a Mentira com as vestes da Verdade, mas proferiam impropérios e condenações contra a atitude despudorada da Verdade. Moral: as pessoas estão mais dispostas a aprovar a Mentira com vestes de Verdade do que enfrentar a Verdade nua e crua.

A parábola apresenta uma realidade da comunidade dos seres humanos. Aquilo que mostram nem sempre corresponde à verdade. Mais, as pessoas na sociedade atual consomem tempo e dinheiro para construir vestes vistosas que possam ocultar a realidade da vida. Torna-se uma segunda natureza, artigo que não pode faltar no dia a dia. Há uma indústria de cosméticos, de vestuário, de perfumaria que assumem o nível de primeira necessidade na vida do ser humano. E tantas vezes eles existem para esconder imperfeições ou aspectos menos aceitáveis da própria pessoa.

Outra característica da sociedade hodierna é a exposição da imagem. Os meios de comunicação são especializados em produzir aparências. Aquelas imagens que aparecem na TV são produzidas para provocarem impacto. Quando as pessoas mostram admiração pela imagem apresentada por nós, reagimos como se a imagem fosse o eu verdadeiro. Na sociedade atual somos educados a esconder a verdade que somos nós. Já dizia Fernando Pessoa “o poeta é um fingidor, finge tão completamente que chega a fingir que dor, a dor que deveras sente”.

É da natureza humana o querer apresentar uma imagem de si, melhor do que a realidade. Podemos afirmar de nós mesmos que não somos tão bons, tão justos, tão generosos, tão honestos como fazemos acreditar. Dar-se conta disto é o caminho para se chegar à verdade de si mesmo. Diz o Evangelho: “a verdade liberta”. O mundo da aparência traz consigo o peso da escravidão. Um exemplo: Quando o casamento é realizado sobre aparências que encobrem a verdade, acaba se tornando insustentável. Descobrir a verdade sobre nós mesmos, sobre a realidade que nos cerca, é o caminho de libertação.

Para terminar, uma frase atribuída a Bismark: “Nunca se mente tanto como antes das eleições, durante a guerra, e depois de uma caçada”.

O País no fundo do poço na Matemática


 

Renata Cafardo

E-mail: renata.cafardo@estadao.com; X: @recafardo

O País no fundo do poço na Matemática

O número deveria estar em outdoors, se eles ainda existissem por todo o Brasil. Nas redes sociais, precisaria estar na boca dos influenciadores que gritam para coisas muito menos importantes. A verdade é que pouca gente sabe que só 8,5% dos estudantes que concluem o ensino médio no País, aos 17 ou 18 anos, têm aprendizagem adequada em Matemática. Isso significa menos de um estudante em dez que terminam o ensino médio.

Em 20 anos, mostra levantamento do Todos pela Educação, o avanço foi muito tímido: eram 5,2% em 2005 e chegamos a 8,5% em 2025. O que significa o nível adequado? Só esse grupo consegue resolver problemas utilizando probabilidade, determinar a distância entre dois pontos no plano cartesiano e usar corretamente o Teorema de Pitágoras.

O patamar de 8,5% é a média no Brasil e também no Estado de São Paulo, o mais rico do País. O maior índice é o do Piauí, com 16,7%. Mas por que a Matemática tem resultados tão piores? A neurociência mostra que o cérebro tem plasticidade e que a habilidade matemática não é uma característica fixa, determinada de antemão. Não há crianças simplesmente "sem jeito para Matemática". Existem diferentes trajetórias de aprendizagem, experiências e oportunidades de aprender.

Menos de 10% dos alunos termina a escola sabendo o adequado para a disciplina

O problema está também na forma como a disciplina foi apresentada durante muito tempo nas escolas, com exigência de memorização e rapidez, muitas vezes sem ensinar aos estudantes como compreender o sentido e as aplicações de cálculos, padrões, fórmulas ou formas geométricas.

Muito se fala agora em educação matemática criativa, que foca em processos e descoberta, e não apenas no resultado. Isso não só ajuda a aprender como diminui o medo, a chamada ansiedade matemática – a sensação de que "não sirvo para isso".

Outra razão é que a aprendizagem de Matemática depende muito da escola, explica o diretor do Todos pela Educação, Gabriel Correa. Além disso, a Matemática é uma disciplina muito cumulativa. Se a criança não aprendeu bem a multiplicação, não vai entender a porcentagem. Sem a divisão, fica difícil avançar para a equação.

E a última razão é que a Matemática tem sido menos priorizada nas políticas educacionais do que a alfabetização. Não é preciso que todo jovem saia do ensino médio preparado para resolver problemas matemáticos de alta complexidade. Mas que todos saiam da escola acreditando que são capazes de aprender Matemática.

É REPÓRTER ESPECIAL DO "ESTADO" E FUNDADORA DA ASSOCIAÇÃO DE JORNALISTAS DE EDUCAÇÃO (JEDUCA)