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sábado, 26 de setembro de 2026

É primavera… e ainda podemos florescer

É primavera… e ainda podemos florescer

Por Deodato Gomes Costa

Escrevi esta reflexão em setembro de 2018, quando a primavera chegava e o Brasil se preparava para votar. Oito anos depois, a estação voltou, outra eleição se aproxima, e me vejo diante da mesma pergunta: como fazer nascer alguma coisa boa em uma terra que tantas vezes parece cansada?

Nesta manhã, voltei a ouvir A Primavera, de Vivaldi. Sempre me impressiona a maneira como a música parece dar movimento à paisagem. Ouço os pássaros, imagino a água correndo, quase sinto a brisa entre as folhas. Há também uma tempestade. Ela passa, e a música continua. Talvez seja por isso que gosto tanto dessa obra: ela me lembra que a beleza da primavera não depende de dias sempre serenos.

No jardim de uma escola, li certa vez uma frase atribuída a Cecília Meireles: “Aprendi com as primaveras a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira.” Guardei essas palavras. Quem cuida de um jardim sabe que a poda pode causar tristeza. Durante algum tempo, o galho cortado parece apenas uma perda. Depois, aos poucos, surgem brotos onde não esperávamos mais nada.

Penso nas podas que a vida nos impõe. Há despedidas que não escolhemos, mudanças que nos assustam e decepções que nos deixam sem vontade de recomeçar. Nem sempre voltamos inteiros no sentido de voltar iguais. Às vezes, voltar inteiro é reconhecer a ferida, receber cuidado e encontrar forças para seguir vivendo com ternura.

Também penso no Brasil. Olho para as famílias que fazem contas antes de ir ao mercado, para os jovens que estudam e procuram uma oportunidade, para os professores que chegam à escola carregando as próprias preocupações e, ainda assim, acolhem as de seus alunos. É por essas pessoas, por suas vidas concretas, que desejo uma primavera para o nosso país. Uma primavera que se perceba no prato de comida, na sala de aula, no atendimento de saúde, na segurança de voltar para casa e na possibilidade de fazer planos.

Em poucos dias, iremos votar novamente. O voto, por si só, não faz florescer um jardim. É preciso acompanhar quem foi eleito, cobrar responsabilidade, cuidar do que é público e participar da vida da nossa comunidade. Mas o voto é um gesto precioso: nele, cada pessoa pode olhar para além do próprio quintal e pensar no chão que todos nós dividimos.

Gostaria que atravessássemos este tempo eleitoral sem perder a capacidade de escutar. Podemos discordar com firmeza e continuar reconhecendo a humanidade uns dos outros. Nenhuma ideia sobre o futuro do Brasil deveria nos tornar indiferentes à dor de quem está ao nosso lado. Se queremos um país mais justo, precisamos cultivar também o respeito nas conversas de casa, no trabalho, na escola e nas ruas.

Quando Vivaldi chega aos últimos acordes, tenho vontade de ouvir tudo outra vez. A primavera faz algo parecido conosco: retorna e nos oferece uma nova ocasião para prestar atenção. Há uma flor pequena no caminho, alguém precisando de companhia, uma criança esperando que a gente acredite nela. Há muito a fazer, e ainda há beleza suficiente para nos dar coragem.

Que esta primavera nos encontre dispostos a cuidar. Que saibamos retirar de nós o que sufoca a vida e preservar o que nos torna humanos. E que, ao escolhermos os caminhos do Brasil, não esqueçamos das pessoas que caminharão por eles conosco.

É primavera… e eu ainda acredito que podemos florescer.

E se a metade vazia do copo não fosse o problema?

O copo meio cheio, o copo meio vazio e a escolha que nos cabe

Por Deodato Gomes Costa

O copo está meio cheio e meio vazio ao mesmo tempo. Podemos olhar para a água que temos e sentir gratidão. Também podemos perceber o espaço vazio e reconhecer que algo nos falta. As duas observações são verdadeiras. Para os estoicos, porém, a pergunta mais importante vem depois: o que está ao nosso alcance fazer diante disso?

Epicteto abre seu Manual com uma distinção que ajuda a responder: “Algumas coisas dependem de nós; outras não.” (EPICTETO, 2023, p. 13).

A metade cheia nos lembra das pessoas que amamos, das oportunidades recebidas e dos passos que já conseguimos dar. A gratidão nos ajuda a reconhecer o valor dessas experiências, mesmo quando a vida não acontece exatamente como desejávamos.

A metade vazia também merece ser vista. Ela pode mostrar uma dificuldade real, uma necessidade ou um sonho ainda não realizado. Ignorá-la não resolve o problema. Podemos, então, perguntar: há alguma atitude justa e possível que eu possa tomar agora? Se a resposta for sim, podemos agir. Se for não, podemos acolher esse limite e escolher como lidar com ele.

Pense, por exemplo, em uma oportunidade que não deu certo. Não podemos mudar a decisão de outra pessoa. Podemos, contudo, avaliar o que aconteceu, preparar-nos melhor e tentar novamente. O resultado escapa ao nosso controle; nossas escolhas e nossos esforços continuam sendo nossa responsabilidade.

É assim que a imagem do copo ganha um sentido estoico. Ser grato pela metade cheia não exige negar a dor da metade vazia. E reconhecer o que falta não precisa apagar tudo o que já existe. Podemos agradecer, enfrentar as dificuldades e trabalhar pelo que é possível transformar, sem exigir de nós o poder de controlar toda a vida.

EPICTETO. Manual de Epicteto: encheirídion de Epicteto. Tradução de Valéria Paixão. 1. ed. Cotia, SP: Pé da Letra, 2023.

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

SE VOCÊ NÃO SE DÁ VALOR, QUEM SE DÁ?


O que diferencia a excelência da mediocridade no trabalho em equipe não é a descrição do cargo no contrato

“A única maneira de fazer um excelente trabalho é amar o que você faz. Se você ainda não encontrou, continue procurando.” (Steve Jobs)

O valor de uma obra nunca é medido apenas pelo tamanho da ferramenta que se segura, mas pela imensidão do propósito que se carrega no peito. No trabalho em equipe, a ilusão de que existem funções maiores ou menores se desfaz no momento em que compreendemos que o resultado final é o somatório de entregas individuais — e o tamanho dessa entrega depende inteiramente do prazer e do sentido que cada um encontra no que faz.

Comecemos por considerar a determinação daquela funcionária da limpeza que, mesmo tendo encerrado seu expediente, decidiu retornar ao hospital para assumir o turno da noite. Não era apenas uma questão de varrer um chão; tratava-se de preparar o solo sagrado onde ocorreria o primeiro transplante de pulmão da América Latina. Ela se recusou a deixar que uma pessoa estranha cuidasse daquele ambiente. Ela podia não ter a noção exata da importância do que fazia, mas quando lhe perguntei por que voltara dispensando a moça da noite, ela foi sucinta: “Porque eu quero ajudar e acho injusto que alguém pretenda ocupar o MEU lugar”.

Essa mesma força esteve presente nos corredores da Nasa nos anos 1960, quando o presidente John F. Kennedy inspecionava as instalações do programa espacial. Ao deparar com um faxineiro segurando uma vassoura no corredor e perguntar o que ele fazia ali, o presidente não ouviu uma resposta sobre poeira ou lixo. O homem olhou nos olhos do líder e respondeu: “Eu estou ajudando a mandar um homem à Lua, meu presidente”. Ele não limpava pisos: ele garantia que a maior conquista humana da época funcionasse sem falhas.

Séculos antes, às margens do Tâmisa, o arquiteto Christopher Wren observava três pedreiros assentando exatamente os mesmos blocos de pedra sob o sol escaldante. Intrigado com atitudes muito distintas, perguntou a cada um deles o que estavam fazendo. O primeiro, exausto e amargurado, reclamou: “Eu tento sobreviver nesse calor horrível do verão de Londres”. O segundo, resignado, respondeu: “Tenho três filhos para sustentar, estou cumprindo o meu dever”. Já o terceiro, que trabalhava cantarolando, com brilho nos olhos, sorriu com orgulho para dizer: “Eu estou erguendo a Catedral de Londres, meu senhor!”.

Três pessoas, três tarefas idênticas, três universos completamente diferentes.

Não existem tarefas secundárias quando há clareza de pertencimento. 

O que diferencia a excelência da mediocridade em uma equipe não é a descrição do cargo no contrato, mas o quanto de si cada integrante decide colocar naquilo que faz. E essa entrega irrestrita só nasce quando a pessoa descobre o prazer de ser parte indispensável de algo muito maior do que ela mesma.

CAMARGO, J. J. Se você não se dá valor, quem dará? GZH, 2 set. 2026. Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/jj-camargo/noticia/2026/09/se-voce-nao-se-da-valor-quem-dara-cmtk1rj7b00yw0165fyh40mpb.html. Acesso em: 24 set. 2026. 

terça-feira, 22 de setembro de 2026

ORAÇÃO DA PRIMAVERA!

 

Oração da Primavera

Senhor Deus, ao iniciarmos este encontro, elevamos a Ti o pensamento e o coração.

Como na Primavera, de Vivaldi, ajuda-nos a perceber Tua presença no canto dos pássaros, no murmúrio das águas, na brisa e na vida que renasce depois do inverno.

A primavera parece perfeita, mas somente Tu és perfeito. Ela é expressão de excelência e reflexo da beleza com que revestiste a criação. Por sua harmonia, aproxima-nos de Ti e toca nossa sensibilidade.

Como ensina a filosofia estoica, concede-nos sabedoria para distinguir o que depende de nós daquilo que não podemos controlar. Diante das tempestades, dá-nos serenidade, coragem e esperança, pois, na música de Vivaldi, os pássaros sempre voltam a cantar.

Que este encontro seja primavera: tempo de renovação, diálogo e ideias. Afina nossos corações para trabalharmos em harmonia e oferecermos o melhor de nós ao bem comum.

Abençoa nossas decisões e faz florescer os frutos do nosso trabalho. Amém.

 

domingo, 20 de setembro de 2026

Pais e Filhos: quando o novo confronta o velho

"No presente, a mente, o corpo é diferente. E o passado é uma roupa que não nos serve mais"  Velha Roupa Colorida-Belchior

Pais e Filhos: quando o novo confronta o velho

Concluir a leitura de Pais e Filhos, romance de Ivan Turguêniev, publicado em 1862, é uma experiência humana profundamente impactante e provocadora de reflexões. Durante a leitura — e mesmo depois dela — a gente continua pensando sobre os personagens, seus conflitos, suas escolhas e, principalmente, sobre as transformações que o tempo provoca nas pessoas e na sociedade. É uma daquelas obras que não terminam quando fechamos o livro: ela permanece dentro de nós, despertando sentimentos e levantando perguntas sobre a nossa própria vida. Ao longo da leitura, pensei muito sobre meu relacionamento com minha filha, Antônia Vitória. Quantas experiências vivi, quantas ideias e tradições carrego comigo e quanto gostaria que ela também assumisse como seus alguns dos valores que são importantes para mim, especialmente a minha fé católica. Já tivemos embates por causa dessas diferenças. O livro, porém, fez-me compreender ainda mais que os filhos não são simples continuadores dos pais: eles recebem aquilo que lhes transmitimos, mas precisam encontrar seu próprio caminho, construir suas convicções e viver as questões do seu tempo.

O romance apresenta como tema central o conflito entre gerações. De um lado, encontramos homens ligados aos valores, costumes e ideias de um mundo rural e aristocrático que começa a entrar em decadência. De outro, surge uma juventude disposta a questionar tudo aquilo que recebeu das gerações anteriores. Entretanto, Turguêniev não apresenta essa disputa de maneira simples. Não existem apenas personagens certos de um lado e errados do outro. Todos carregam razões, contradições, afetos e fragilidades.

Nikolai Petróvitch aguarda com entusiasmo o retorno de seu filho Arkádi, que concluiu os estudos e volta para a propriedade da família acompanhado do amigo Bazárov. O reencontro entre pai e filho é marcado pelo afeto, mas também pelo constrangimento provocado pela distância que o tempo e as novas ideias criaram entre eles. Nikolai deseja aproximar-se do filho, compreender seus pensamentos e ser aceito por ele. Arkádi, por sua vez, retorna influenciado por Bazárov e procura demonstrar que já não pertence inteiramente ao universo do pai.

É por meio da chegada desses dois jovens que Turguêniev coloca frente a frente o passado e o novo. Nikolai e seu irmão Pável representam, cada um à sua maneira, um mundo em transformação. Nikolai é mais sensível e aberto ao diálogo, embora ainda esteja ligado à tradição. Pável, elegante, orgulhoso e defensor dos princípios aristocráticos, reage com maior resistência às novas ideias. Já Arkádi e Bazárov representam uma geração que chega fazendo a negação daquele mundo rural tradicionalista.

Bazárov é o personagem mais forte e inquietante da obra. Estudante de medicina, ele se define como niilista. Rejeita crenças, autoridades e princípios que não possam ser fundamentados racionalmente. Para ele, nenhuma ideia deve ser aceita apenas porque foi transmitida pelas gerações anteriores. Só merece confiança aquilo que pode ser observado, experimentado e demonstrado cientificamente. Por isso, questiona a religião, a arte, o romantismo, os costumes sociais e até mesmo os sentimentos.

Em um primeiro momento, sua postura parece firme e coerente. Bazárov fala com segurança, não se impressiona com títulos e não demonstra qualquer reverência diante da aristocracia. Seu comportamento incomoda Pável, que enxerga no jovem uma ameaça a tudo aquilo em que acredita. Os diálogos entre os dois constituem alguns dos momentos mais intensos do romance. Não se trata apenas de uma desavença pessoal: é o confronto entre duas épocas, duas visões de mundo e duas formas de compreender a vida.

Pável procura defender a tradição, os princípios, a honra e a ordem social. Bazárov pretende demolir tudo aquilo que não resista ao exame da razão. O problema é que negar é mais fácil do que construir. Quando questionado sobre o que deveria ocupar o lugar das estruturas rejeitadas, Bazárov não apresenta uma resposta completa. Sua prioridade é destruir as ilusões e preparar o terreno. Essa posição revela a força de seu pensamento, mas também os seus limites.

Um dos grandes méritos de Turguêniev está em não transformar nenhum dos dois em simples caricatura. Pável defende um mundo que já perdeu parte de sua força, mas não é apenas um homem ultrapassado. Ele possui dignidade, história, sofrimento e sensibilidade. Bazárov, por sua vez, é inteligente, corajoso e crítico, mas também arrogante e incapaz de reconhecer plenamente a complexidade da existência humana. Ambos se mostram contraditórios quando são confrontados com situações que revelam suas fragilidades.

A maior contradição de Bazárov aparece diante de seu sentimento por Anna Serguêievna Odintsova. O jovem que desprezava o romantismo e procurava explicar a vida pela ciência descobre-se apaixonado. De repente, aquilo que não podia ser controlado, observado em um microscópio ou explicado racionalmente invade sua existência. O amor desmonta parte de suas certezas. Bazárov percebe, ainda que contra a própria vontade, que o ser humano não vive apenas da razão. Há sentimentos que nos atravessam e revelam dimensões de nós mesmos que preferiríamos negar.

Essa experiência torna o personagem ainda mais humano. Bazárov deixa de ser apenas o niilista que provoca e desafia os demais. Ele passa a ser um homem dividido entre as ideias que defende e aquilo que sente. Sua paixão por Anna não elimina o seu pensamento, mas expõe as limitações de uma filosofia que pretende reduzir a existência ao que pode ser cientificamente demonstrado.

Também Arkádi atravessa um processo de amadurecimento. Inicialmente fascinado pela personalidade de Bazárov, ele repete suas ideias e procura imitá-lo. Com o desenvolvimento da narrativa, no entanto, começa a perceber que não é igual ao amigo. Arkádi possui uma sensibilidade diferente e mantém laços mais profundos com a família, com a natureza e com a vida afetiva. Sua trajetória mostra que crescer não significa apenas romper com os pais, mas descobrir quem realmente somos.

Apesar do título, Pais e Filhos não se limita ao relacionamento entre pais e filhos dentro de uma família. A obra fala sobre as gerações que se sucedem, sobre aquilo que os mais jovens rejeitam e sobre o que, consciente ou inconscientemente, acabam preservando. Os filhos desejam inaugurar um mundo inteiramente novo, mas carregam dentro de si marcas do passado. Os pais, por sua vez, precisam compreender que o tempo não pode ser interrompido e que seus filhos não viverão exatamente da mesma maneira que eles viveram.

Talvez seja essa uma das razões pelas quais o romance continua tão atual. Em todas as épocas, as novas gerações questionam valores, costumes e instituições. Em todas as épocas, as gerações mais velhas sentem que o mundo está mudando depressa demais. E, muitas vezes, aquilo que parece apenas uma disputa de ideias esconde algo mais profundo: o desejo dos pais de não perderem os filhos e a necessidade dos filhos de construírem a própria identidade.

Turguêniev escreveu uma obra sobre política, ciência e transformações sociais, mas escreveu, sobretudo, sobre seres humanos. Por trás das grandes ideias, encontramos pessoas que amam, sofrem, envelhecem, decepcionam-se e tentam encontrar um lugar no mundo. A razão pode explicar muitas coisas, mas não consegue eliminar completamente o amor, a saudade, o medo, o orgulho e a necessidade de pertencimento.

Pais e Filhos é um clássico porque continua nos ajudando a compreender o nosso próprio tempo. A obra nos convida a pensar sobre o que fazemos com aquilo que herdamos, sobre quais valores desejamos conservar e quais precisam ser transformados. Também nos ensina que nenhuma convicção, por mais sólida que pareça, impede que a vida nos confronte com nossas próprias contradições.

Recomendo muito a leitura deste livro. Mais do que acompanhar um conflito entre duas gerações da Rússia do século XIX, o leitor encontrará perguntas que permanecem vivas dentro de cada família e de cada sociedade. Afinal, todos nós somos filhos de um mundo que já existia antes de nós e, ao mesmo tempo, participantes da construção de um mundo que ainda está por nascer.

Deodato Gomes Costa

@professordeodatogomes

sábado, 19 de setembro de 2026

O mistério da frase em latim na fachada do Cemitério de Carlos Chagas.


Muitos moradores e visitantes de Carlos Chagas passam diante do Cemitério Municipal e ficam intrigados com a frase em latim gravada em sua fachada: “AGER · AB · HOSTE · REDEMPTUS”. Afinal, o que essas palavras que devem ter sido copiadas do breviário dos Padres Franciscanos, significam? 

Em tradução direta, a expressão pode ser compreendida como “campo resgatado do inimigo” ou “terra recuperada do inimigo”. A palavra ager significa campo ou terreno; ab hoste quer dizer do inimigo; e redemptus corresponde a resgatado, redimido ou recuperado.

No contexto cristão do cemitério, o “campo” representa o próprio campo-santo, lugar onde repousam aqueles que partiram. O “inimigo” pode simbolizar a morte, o pecado, o mal ou tudo aquilo que parece negar a continuidade da vida. A ideia de redenção, por sua vez, recorda a esperança cristã de que a morte não possui a palavra final.

Assim, a inscrição transforma o cemitério em um símbolo de fé. Ele permanece como lugar de despedida e saudade, mas também de repouso, esperança e confiança na ressurreição. Em linguagem simples, a mensagem afirma que aquele campo foi resgatado do poder da morte.

Na próxima vez que passar por essa fachada, observe-a com um novo olhar e compartilhe essa história de Carlos Chagas com familiares e amigos.

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Panorama da Escolha do PNLD 2027-2030: 100% das Escolas da Rede Municipal de Carlos Chagas Participam do Processo!

O processo de escolha das obras didáticas do PNLD (Programa Nacional do Livro e do Material Didático) para o quadriênio 2027-2030 marcou um momento importante de planejamento pedagógico na Rede Municipal de Educação de Carlos Chagas. Com grande satisfação, destacamos que 100% das escolas municipais cumpriram a ação, realizando a escolha de seus materiais de forma democrática, participativa e alinhada às necessidades reais de suas comunidades escolares.

Para mapear esse panorama, consolidamos os dados referentes às primeiras opções selecionadas pelas instituições nos principais componentes curriculares dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental. O quadro abaixo detalha as coleções de maior destaque, o volume de adoção por componente e quais escolas optaram por cada obra:

Componente Curricular Obra e Editora em Destaque (1ª Opção) Total de Escolas Quais Escolas Escolheram
Língua Portuguesa A Conquista - Língua Portuguesa (Editora FTD S.A.) 4 • Escola Municipal Nelson Lisboa de Matos
• Escola Municipal Oscar João Kretli
• Escola Municipal São José
• Escola Municipal José Joaquim de Amorim
Língua Portuguesa Ápis Mais Língua Portuguesa (Editora Ática S.A.) 4 • Escola Municipal Aymar Westin Nobre
• Escola Municipal Brazilino Rodrigues de Souza
• Escola Municipal Maria Ribeiro Tavares
• Escola Municipal Presidente Tancredo Neves
Matemática A Conquista - Matemática (Editora FTD S.A.) 4 • Escola Municipal Nelson Lisboa de Matos
• Escola Municipal Oscar João Kretli
• Escola Municipal São José
• Escola Municipal José Joaquim de Amorim
Matemática Ápis Mais Matemática (Editora Ática S.A.) 4 • Escola Municipal Aymar Westin Nobre
• Escola Municipal Brazilino Rodrigues de Souza
• Escola Municipal Maria Ribeiro Tavares
• Escola Municipal Presidente Tancredo Neves
Ciências da Natureza A Conquista - Ciências da Natureza (Editora FTD S.A.) 4 • Escola Municipal Nelson Lisboa de Matos
• Escola Municipal Oscar João Kretli
• Escola Municipal São José
• Escola Municipal José Joaquim de Amorim
Ciências da Natureza Ápis Mais - Ciências da Natureza (Editora Ática S.A.) 3 • Escola Municipal Aymar Westin Nobre
• Escola Municipal Brazilino Rodrigues de Souza
• Escola Municipal Maria Ribeiro Tavares
História e Geografia Coleção A Conquista (Editora FTD S.A.) 4 • Escola Municipal Nelson Lisboa de Matos
• Escola Municipal Oscar João Kretli
• Escola Municipal São José
• Escola Municipal José Joaquim de Amorim
História e Geografia Coleção Ápis Mais (Editora Ática S.A.) 4 • Escola Municipal Aymar Westin Nobre
• Escola Municipal Brazilino Rodrigues de Souza
• Escola Municipal Maria Ribeiro Tavares
• Escola Municipal Presidente Tancredo Neves

Cada Dia é uma Vida: a Urgência de Viver Bem

SÊNECA. Cartas a Lucílio. Carta 101, § 10.

A mensagem de Sêneca — “Apressa-te a viver bem e pensa que cada dia é, por si só, uma vida” — é um convite para não adiarmos uma vida virtuosa e significativa.

“Apressa-te” não significa viver com ansiedade ou fazer tudo às pressas. Significa reconhecer que o tempo é limitado e que não devemos esperar condições perfeitas para começar a viver corretamente. Muitas vezes, pensamos: “quando eu resolver esse problema”, “quando tiver mais tempo” ou “quando alcançar determinado objetivo, começarei a viver melhor”. Para Sêneca, esse adiamento é perigoso, porque o futuro não nos pertence.

“Viver bem” também não significa acumular prazeres, riquezas ou realizações. Para os estoicos, viver bem é agir com sabedoria, justiça, coragem e moderação. É empregar corretamente o tempo que recebemos, cumprir nossos deveres e cuidar da qualidade moral de nossas escolhas.

Ao dizer que “cada dia é, por si só, uma vida”, Sêneca ensina que devemos considerar cada jornada como uma existência completa. Em um único dia, podemos despertar, escolher, trabalhar, amar, enfrentar dificuldades, aprender e, ao anoitecer, concluir simbolicamente um ciclo.

Isso nos leva a duas atitudes:

  • viver o presente com atenção, porque este é o único tempo realmente disponível;

  • terminar cada dia com a consciência tranquila de quem procurou agir da melhor maneira possível.

A máxima não ensina a viver como se não houvesse amanhã de maneira irresponsável. Ela ensina a viver de tal forma que não dependamos do amanhã para dar sentido à nossa existência.

Em síntese:

Não adie a pessoa que deseja ser. Faça do dia de hoje uma vida inteira, orientada pela virtude, pela presença e por escolhas das quais você possa se orgulhar ao anoitecer.

domingo, 13 de setembro de 2026

Por que é tão difícil mudar?

Por que é tão difícil mudar?

Angélica Banhara
Jornalista e palestrante especializada em saúde, longevidade e estilo de vida saudável
Instagram: @angelicabanhara

A gente sabe que precisa comer melhor, fazer atividade física, dormir bem e controlar o estresse. Informação, portanto, não parece ser o problema. Mesmo assim, entre saber o que fazer e colocar em prática existe um abismo.

Por que pessoas informadas, inteligentes e motivadas começam mudanças importantes, mas tantas vezes não conseguem sustentá-las? A resposta mais comum é: falta disciplina, força de vontade, foco. Quem abandona a academia não se esforçou o suficiente. Quem voltou a comer como antes “não teve determinação”. Mas essa explicação ignora uma parte importante da história: as condições em que aquela pessoa está tentando mudar.

É nesse ponto que Viviane Caneriani Pagani, pesquisadora em mudança de comportamento e gestora de estilo de vida saudável, concentra seu trabalho. Fundadora do Miami Institute of Knowledge (EUA), ela desenvolveu a Teoria do Ponto Cego, uma proposta que busca explicar por que uma mudança pode funcionar em determinada fase da vida e fracassar em outra.

A ideia é: toda mudança exige recursos, e eles não são infinitos nem permanecem iguais. Temos diferentes níveis de energia, disposição, equilíbrio emocional, tempo, organização e apoio. Ao mesmo tempo, cada meta impõe uma demanda.

— Antes de perguntar o que uma pessoa deve fazer, precisamos entender se ela dispõe, naquele contexto, da capacidade necessária para sustentar a mudança — diz Viviane.

Pense em alguém que decide começar a se exercitar indo à academia cinco vezes por semana. A meta pode ser adequada em teoria, mas talvez não seja para aquela pessoa naquele momento. Se ela está dormindo mal, trabalhando demais e sob forte pressão, acrescentar cinco treinos à rotina pode ultrapassar sua capacidade disponível. Isso não significa desistir. Talvez seja preciso começar de outro lugar.

Na Teoria do Ponto Cego, Viviane considera quatro dimensões que interferem nessa capacidade. A primeira é o corpo: energia, sono, dores e recuperação. A segunda é a mente: como lidamos com estresse, emoções e frustrações. A terceira é o propósito: a mudança faz sentido ou é apenas uma obrigação? E a quarta é o ambiente: há tempo, organização, apoio e condições para realizá-la?

É uma forma de escapar do pensamento do tudo ou nada. Em vez de sair de uma rotina sedentária para cinco dias de academia, talvez seja mais sustentável começar com dois. Em vez de mudar toda a alimentação, escolher uma alteração possível. Em vez de exigir mais esforço de alguém exausto, talvez seja necessário recuperar o sono primeiro.

— A sustentabilidade da mudança nasce do equilíbrio entre aquilo que a ação exige e aquilo que a pessoa consegue manter — diz.

A proposta tira a culpa, mas não a responsabilidade individual. Troca o julgamento por uma pergunta mais útil: o que está dificultando essa mudança e o que pode ser ajustado?

O ponto cego estaria em planejar a vida a partir daquilo que gostaríamos de conseguir, sem olhar para aquilo que efetivamente conseguimos sustentar. Quando a demanda da mudança fica muito acima da capacidade disponível, cresce o risco de abandono.

A proposta para uma estratégia mais realista é questionar: o que eu consigo sustentar neste momento? Às vezes será preciso fortalecer a capacidade: dormir melhor, reduzir sobrecargas, organizar a rotina. Em outras, diminuir a exigência. Ou fazer as duas coisas ao mesmo tempo, aos poucos.

— A interrupção de um plano não deve ser interpretada como fracasso pessoal; muitas vezes ela reflete um descompasso entre a meta e os recursos do momento — afirma.

Isso vale para a academia, para a alimentação e para qualquer mudança de estilo de vida. Também vale para o envelhecimento. À medida que a vida muda, nosso corpo, nossa rotina e nossas responsabilidades mudam com ela. Uma estratégia sustentável deve acompanhar essas transformações.

Referência bibliográfica — ABNT

BANHARA, Angélica. Por que é tão difícil mudar? O Globo, Rio de Janeiro, 28 jan. 2026. Seção Bem-Estar.

sábado, 12 de setembro de 2026

Os três melhores amigos do coração humano e o Estoicismo!



Para Epicteto, não controlamos a forma como as outras pessoas nos tratam. Não podemos obrigar ninguém a ser leal, verdadeiro ou amigo. Podemos, entretanto, escolher agir com lealdade, falar com sinceridade e cultivar amizades fundamentadas no respeito e no bem comum.

Os cães simbolizam essas virtudes porque demonstram afeto e fidelidade por meio de atitudes. Essa ideia aproxima-se do ensinamento de Epicteto de que a filosofia não deve permanecer apenas nas palavras: precisa aparecer em nossa maneira de viver.

A frase “especialmente quando ninguém está olhando” reforça essa perspectiva. Para Epicteto, uma ação virtuosa não deve ser praticada para receber elogios, conquistar reputação ou agradar aos outros. A virtude possui valor por si mesma. O importante não é parecer uma pessoa boa, mas escolher agir corretamente, mesmo sem reconhecimento.

Uma síntese estoica para acompanhar a imagem seria:

Não podemos exigir lealdade, sinceridade e amizade dos outros. Mas podemos fazer dessas virtudes a expressão de nosso próprio caráter. Para Epicteto, é nas escolhas que dependem de nós — sobretudo quando ninguém está olhando — que revelamos quem verdadeiramente somos.

A imagem das cobras representa os vícios que podemos encontrar nos outros e também em nós mesmos. A imagem dos cães, por sua vez, representa as virtudes que podemos deliberadamente cultivar. Epicteto nos aconselharia a não gastar a vida procurando a falsidade alheia, mas a concentrar nossa atenção na formação do nosso próprio caráter.

As três cobras mais perigosas do mundo e o Estoicismo!

A inveja, a traição e a ingratidão podem vir de outras pessoas e, por isso, não estão sob nosso controle. Não podemos assegurar que todos sejam leais, sinceros ou agradecidos, ainda que os tratemos com bondade. O que depende de nós é nossa maneira de interpretar essas atitudes e de responder a elas.

Epicteto não aconselharia viver desconfiando de todos ou tentando descobrir “cobras” escondidas atrás de cada abraço. Isso nos tornaria prisioneiros do medo, da suspeita e da opinião alheia. Ele recomendaria prudência para reconhecer o caráter das pessoas, mas sem permitir que a conduta delas corrompa o nosso próprio caráter.

A imagem também pode ser interpretada por outra perspectiva: as três “cobras” mais perigosas não são apenas aquelas que encontramos nos outros. Elas também podem estar dentro de nós. A inveja nasce quando transformamos a superioridade ou a felicidade alheia em ameaça. A traição acontece quando abandonamos nossos princípios por conveniência. A ingratidão aparece quando esquecemos os benefícios recebidos e julgamos que tudo nos era devido.

Assim, uma leitura verdadeiramente epictetiana seria:

Não podemos controlar a inveja, a traição ou a ingratidão dos outros. Podemos, porém, vigiar nossos julgamentos para que essas paixões não se instalem em nós. A falta de virtude do outro pertence a ele; conservar nosso caráter pertence a nós.

A principal lição não seria “desconfie dos abraços e sorrisos”, mas:

Seja prudente com as pessoas, sem transformar a prudência em amargura. Quando alguém agir mal, não permita que o erro dele determine quem você se tornará.

Epicteto nos lembraria de que sofrer uma traição é um acontecimento externo; tornar-se vingativo, rancoroso ou desleal em resposta a ela é uma escolha moral nossa. O verdadeiro perigo não está somente em encontrar pessoas invejosas, desleais ou ingratas, mas em deixar que suas atitudes produzam em nós os mesmos vícios.

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

 





Devemos dizer "não" para as coisas que não importam

MATEUS SALVADORI
Professor de Filosofia

Uma das coisas mais difíceis de fazer na vida é dizer "não": não para convites, não para pedidos, não para obrigações que parecem urgentes, não para aquilo que todo mundo está fazendo. Mais difícil ainda é dizer "não" para certas emoções que consomem tempo: a raiva que nos faz remoer o passado, a empolgação que nos distrai, a obsessão que nos desgasta, a distração que nos rouba presença.

Nenhum desses impulsos parece grande coisa isoladamente, mas, juntos, se tornam um compromisso, como se você tivesse assinado um contrato invisível de desperdiçar seus dias. Byung-Chul Han, em "Sociedade do Cansaço", explica que hoje o inimigo não está fora, mas dentro de nós. Tentamos nos superar o tempo todo, dizendo "sim" a cada nova meta e desafio, até quebrarmos por dentro. Essa autoexploração leva a doenças como ansiedade, depressão e burnout. O excesso de positividade e produtividade não liberta, apenas nos deixa mais cansados e culpados.

Essa sensação de perda não é nova. Há dois mil anos, Sêneca já alertava que muitos só percebem tarde demais o quanto de tempo foi desperdiçado com coisas inúteis. Ele nos provoca a refletir: "Quantas vezes outros roubaram a sua vida enquanto você não percebia o que estava perdendo, quanto foi desperdiçado em uma dor vazia, uma alegria boba, um desejo ávido, uma conversa falsa. Você entenderá que morria de modo prematuro." (Sobre a brevidade da vida, 3.3)

Dizer "não" pode incomodar. Pode decepcionar pessoas, fechar portas, gerar incômodos. Mas quanto mais você diz "não" ao que não importa, mais espaço cria para o que realmente importa.

É como no filme "Sim Senhor", com Jim Carrey: o personagem decide dizer "sim" para tudo e, no início, é divertido, mas logo fica sobrecarregado e sem tempo para si. Só encontra equilíbrio quando percebe que também precisa aprender a dizer "não".

Sêneca provoca de novo: "Você ouvirá muitos que dirão: 'quando eu tiver cinquenta anos, me aposentarei; aos sessenta anos, me retirarei dos cargos'. E quem garante que terá uma vida tão longa? Quem aceitará que as coisas aconteçam de acordo com o que deseja? Não sente vergonha por reservar para si essas sobras de vida e destinar ao exercício da boa mente apenas este tempo que não podia ser usado para mais nada? Quão atrasado é começar a viver quando a vida está para terminar!" (Sobre a brevidade da vida, 3.4).