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domingo, 20 de setembro de 2026

Pais e Filhos: quando o novo confronta o velho

"No presente, a mente, o corpo é diferente. E o passado é uma roupa que não nos serve mais"  Velha Roupa Colorida-Belchior

Pais e Filhos: quando o novo confronta o velho

Concluir a leitura de Pais e Filhos, romance de Ivan Turguêniev, publicado em 1862, é uma experiência humana profundamente impactante e provocadora de reflexões. Durante a leitura — e mesmo depois dela — a gente continua pensando sobre os personagens, seus conflitos, suas escolhas e, principalmente, sobre as transformações que o tempo provoca nas pessoas e na sociedade. É uma daquelas obras que não terminam quando fechamos o livro: ela permanece dentro de nós, despertando sentimentos e levantando perguntas sobre a nossa própria vida. Ao longo da leitura, pensei muito sobre meu relacionamento com minha filha, Antônia Vitória. Quantas experiências vivi, quantas ideias e tradições carrego comigo e quanto gostaria que ela também assumisse como seus alguns dos valores que são importantes para mim, especialmente a minha fé católica. Já tivemos embates por causa dessas diferenças. O livro, porém, fez-me compreender ainda mais que os filhos não são simples continuadores dos pais: eles recebem aquilo que lhes transmitimos, mas precisam encontrar seu próprio caminho, construir suas convicções e viver as questões do seu tempo.

O romance apresenta como tema central o conflito entre gerações. De um lado, encontramos homens ligados aos valores, costumes e ideias de um mundo rural e aristocrático que começa a entrar em decadência. De outro, surge uma juventude disposta a questionar tudo aquilo que recebeu das gerações anteriores. Entretanto, Turguêniev não apresenta essa disputa de maneira simples. Não existem apenas personagens certos de um lado e errados do outro. Todos carregam razões, contradições, afetos e fragilidades.

Nikolai Petróvitch aguarda com entusiasmo o retorno de seu filho Arkádi, que concluiu os estudos e volta para a propriedade da família acompanhado do amigo Bazárov. O reencontro entre pai e filho é marcado pelo afeto, mas também pelo constrangimento provocado pela distância que o tempo e as novas ideias criaram entre eles. Nikolai deseja aproximar-se do filho, compreender seus pensamentos e ser aceito por ele. Arkádi, por sua vez, retorna influenciado por Bazárov e procura demonstrar que já não pertence inteiramente ao universo do pai.

É por meio da chegada desses dois jovens que Turguêniev coloca frente a frente o passado e o novo. Nikolai e seu irmão Pável representam, cada um à sua maneira, um mundo em transformação. Nikolai é mais sensível e aberto ao diálogo, embora ainda esteja ligado à tradição. Pável, elegante, orgulhoso e defensor dos princípios aristocráticos, reage com maior resistência às novas ideias. Já Arkádi e Bazárov representam uma geração que chega fazendo a negação daquele mundo rural tradicionalista.

Bazárov é o personagem mais forte e inquietante da obra. Estudante de medicina, ele se define como niilista. Rejeita crenças, autoridades e princípios que não possam ser fundamentados racionalmente. Para ele, nenhuma ideia deve ser aceita apenas porque foi transmitida pelas gerações anteriores. Só merece confiança aquilo que pode ser observado, experimentado e demonstrado cientificamente. Por isso, questiona a religião, a arte, o romantismo, os costumes sociais e até mesmo os sentimentos.

Em um primeiro momento, sua postura parece firme e coerente. Bazárov fala com segurança, não se impressiona com títulos e não demonstra qualquer reverência diante da aristocracia. Seu comportamento incomoda Pável, que enxerga no jovem uma ameaça a tudo aquilo em que acredita. Os diálogos entre os dois constituem alguns dos momentos mais intensos do romance. Não se trata apenas de uma desavença pessoal: é o confronto entre duas épocas, duas visões de mundo e duas formas de compreender a vida.

Pável procura defender a tradição, os princípios, a honra e a ordem social. Bazárov pretende demolir tudo aquilo que não resista ao exame da razão. O problema é que negar é mais fácil do que construir. Quando questionado sobre o que deveria ocupar o lugar das estruturas rejeitadas, Bazárov não apresenta uma resposta completa. Sua prioridade é destruir as ilusões e preparar o terreno. Essa posição revela a força de seu pensamento, mas também os seus limites.

Um dos grandes méritos de Turguêniev está em não transformar nenhum dos dois em simples caricatura. Pável defende um mundo que já perdeu parte de sua força, mas não é apenas um homem ultrapassado. Ele possui dignidade, história, sofrimento e sensibilidade. Bazárov, por sua vez, é inteligente, corajoso e crítico, mas também arrogante e incapaz de reconhecer plenamente a complexidade da existência humana. Ambos se mostram contraditórios quando são confrontados com situações que revelam suas fragilidades.

A maior contradição de Bazárov aparece diante de seu sentimento por Anna Serguêievna Odintsova. O jovem que desprezava o romantismo e procurava explicar a vida pela ciência descobre-se apaixonado. De repente, aquilo que não podia ser controlado, observado em um microscópio ou explicado racionalmente invade sua existência. O amor desmonta parte de suas certezas. Bazárov percebe, ainda que contra a própria vontade, que o ser humano não vive apenas da razão. Há sentimentos que nos atravessam e revelam dimensões de nós mesmos que preferiríamos negar.

Essa experiência torna o personagem ainda mais humano. Bazárov deixa de ser apenas o niilista que provoca e desafia os demais. Ele passa a ser um homem dividido entre as ideias que defende e aquilo que sente. Sua paixão por Anna não elimina o seu pensamento, mas expõe as limitações de uma filosofia que pretende reduzir a existência ao que pode ser cientificamente demonstrado.

Também Arkádi atravessa um processo de amadurecimento. Inicialmente fascinado pela personalidade de Bazárov, ele repete suas ideias e procura imitá-lo. Com o desenvolvimento da narrativa, no entanto, começa a perceber que não é igual ao amigo. Arkádi possui uma sensibilidade diferente e mantém laços mais profundos com a família, com a natureza e com a vida afetiva. Sua trajetória mostra que crescer não significa apenas romper com os pais, mas descobrir quem realmente somos.

Apesar do título, Pais e Filhos não se limita ao relacionamento entre pais e filhos dentro de uma família. A obra fala sobre as gerações que se sucedem, sobre aquilo que os mais jovens rejeitam e sobre o que, consciente ou inconscientemente, acabam preservando. Os filhos desejam inaugurar um mundo inteiramente novo, mas carregam dentro de si marcas do passado. Os pais, por sua vez, precisam compreender que o tempo não pode ser interrompido e que seus filhos não viverão exatamente da mesma maneira que eles viveram.

Talvez seja essa uma das razões pelas quais o romance continua tão atual. Em todas as épocas, as novas gerações questionam valores, costumes e instituições. Em todas as épocas, as gerações mais velhas sentem que o mundo está mudando depressa demais. E, muitas vezes, aquilo que parece apenas uma disputa de ideias esconde algo mais profundo: o desejo dos pais de não perderem os filhos e a necessidade dos filhos de construírem a própria identidade.

Turguêniev escreveu uma obra sobre política, ciência e transformações sociais, mas escreveu, sobretudo, sobre seres humanos. Por trás das grandes ideias, encontramos pessoas que amam, sofrem, envelhecem, decepcionam-se e tentam encontrar um lugar no mundo. A razão pode explicar muitas coisas, mas não consegue eliminar completamente o amor, a saudade, o medo, o orgulho e a necessidade de pertencimento.

Pais e Filhos é um clássico porque continua nos ajudando a compreender o nosso próprio tempo. A obra nos convida a pensar sobre o que fazemos com aquilo que herdamos, sobre quais valores desejamos conservar e quais precisam ser transformados. Também nos ensina que nenhuma convicção, por mais sólida que pareça, impede que a vida nos confronte com nossas próprias contradições.

Recomendo muito a leitura deste livro. Mais do que acompanhar um conflito entre duas gerações da Rússia do século XIX, o leitor encontrará perguntas que permanecem vivas dentro de cada família e de cada sociedade. Afinal, todos nós somos filhos de um mundo que já existia antes de nós e, ao mesmo tempo, participantes da construção de um mundo que ainda está por nascer.

Deodato Gomes Costa

@professordeodatogomes

sábado, 19 de setembro de 2026

O mistério da frase em latim na fachada do Cemitério de Carlos Chagas.


Muitos moradores e visitantes de Carlos Chagas passam diante do Cemitério Municipal e ficam intrigados com a frase em latim gravada em sua fachada: “AGER · AB · HOSTE · REDEMPTUS”. Afinal, o que essas palavras que devem ter sido copiadas do breviário dos Padres Franciscanos, significam? 

Em tradução direta, a expressão pode ser compreendida como “campo resgatado do inimigo” ou “terra recuperada do inimigo”. A palavra ager significa campo ou terreno; ab hoste quer dizer do inimigo; e redemptus corresponde a resgatado, redimido ou recuperado.

No contexto cristão do cemitério, o “campo” representa o próprio campo-santo, lugar onde repousam aqueles que partiram. O “inimigo” pode simbolizar a morte, o pecado, o mal ou tudo aquilo que parece negar a continuidade da vida. A ideia de redenção, por sua vez, recorda a esperança cristã de que a morte não possui a palavra final.

Assim, a inscrição transforma o cemitério em um símbolo de fé. Ele permanece como lugar de despedida e saudade, mas também de repouso, esperança e confiança na ressurreição. Em linguagem simples, a mensagem afirma que aquele campo foi resgatado do poder da morte.

Na próxima vez que passar por essa fachada, observe-a com um novo olhar e compartilhe essa história de Carlos Chagas com familiares e amigos.

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Panorama da Escolha do PNLD 2027-2030: 100% das Escolas da Rede Municipal de Carlos Chagas Participam do Processo!

O processo de escolha das obras didáticas do PNLD (Programa Nacional do Livro e do Material Didático) para o quadriênio 2027-2030 marcou um momento importante de planejamento pedagógico na Rede Municipal de Educação de Carlos Chagas. Com grande satisfação, destacamos que 100% das escolas municipais cumpriram a ação, realizando a escolha de seus materiais de forma democrática, participativa e alinhada às necessidades reais de suas comunidades escolares.

Para mapear esse panorama, consolidamos os dados referentes às primeiras opções selecionadas pelas instituições nos principais componentes curriculares dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental. O quadro abaixo detalha as coleções de maior destaque, o volume de adoção por componente e quais escolas optaram por cada obra:

Componente Curricular Obra e Editora em Destaque (1ª Opção) Total de Escolas Quais Escolas Escolheram
Língua Portuguesa A Conquista - Língua Portuguesa (Editora FTD S.A.) 4 • Escola Municipal Nelson Lisboa de Matos
• Escola Municipal Oscar João Kretli
• Escola Municipal São José
• Escola Municipal José Joaquim de Amorim
Língua Portuguesa Ápis Mais Língua Portuguesa (Editora Ática S.A.) 4 • Escola Municipal Aymar Westin Nobre
• Escola Municipal Brazilino Rodrigues de Souza
• Escola Municipal Maria Ribeiro Tavares
• Escola Municipal Presidente Tancredo Neves
Matemática A Conquista - Matemática (Editora FTD S.A.) 4 • Escola Municipal Nelson Lisboa de Matos
• Escola Municipal Oscar João Kretli
• Escola Municipal São José
• Escola Municipal José Joaquim de Amorim
Matemática Ápis Mais Matemática (Editora Ática S.A.) 4 • Escola Municipal Aymar Westin Nobre
• Escola Municipal Brazilino Rodrigues de Souza
• Escola Municipal Maria Ribeiro Tavares
• Escola Municipal Presidente Tancredo Neves
Ciências da Natureza A Conquista - Ciências da Natureza (Editora FTD S.A.) 4 • Escola Municipal Nelson Lisboa de Matos
• Escola Municipal Oscar João Kretli
• Escola Municipal São José
• Escola Municipal José Joaquim de Amorim
Ciências da Natureza Ápis Mais - Ciências da Natureza (Editora Ática S.A.) 3 • Escola Municipal Aymar Westin Nobre
• Escola Municipal Brazilino Rodrigues de Souza
• Escola Municipal Maria Ribeiro Tavares
História e Geografia Coleção A Conquista (Editora FTD S.A.) 4 • Escola Municipal Nelson Lisboa de Matos
• Escola Municipal Oscar João Kretli
• Escola Municipal São José
• Escola Municipal José Joaquim de Amorim
História e Geografia Coleção Ápis Mais (Editora Ática S.A.) 4 • Escola Municipal Aymar Westin Nobre
• Escola Municipal Brazilino Rodrigues de Souza
• Escola Municipal Maria Ribeiro Tavares
• Escola Municipal Presidente Tancredo Neves

Cada Dia é uma Vida: a Urgência de Viver Bem

SÊNECA. Cartas a Lucílio. Carta 101, § 10.

A mensagem de Sêneca — “Apressa-te a viver bem e pensa que cada dia é, por si só, uma vida” — é um convite para não adiarmos uma vida virtuosa e significativa.

“Apressa-te” não significa viver com ansiedade ou fazer tudo às pressas. Significa reconhecer que o tempo é limitado e que não devemos esperar condições perfeitas para começar a viver corretamente. Muitas vezes, pensamos: “quando eu resolver esse problema”, “quando tiver mais tempo” ou “quando alcançar determinado objetivo, começarei a viver melhor”. Para Sêneca, esse adiamento é perigoso, porque o futuro não nos pertence.

“Viver bem” também não significa acumular prazeres, riquezas ou realizações. Para os estoicos, viver bem é agir com sabedoria, justiça, coragem e moderação. É empregar corretamente o tempo que recebemos, cumprir nossos deveres e cuidar da qualidade moral de nossas escolhas.

Ao dizer que “cada dia é, por si só, uma vida”, Sêneca ensina que devemos considerar cada jornada como uma existência completa. Em um único dia, podemos despertar, escolher, trabalhar, amar, enfrentar dificuldades, aprender e, ao anoitecer, concluir simbolicamente um ciclo.

Isso nos leva a duas atitudes:

  • viver o presente com atenção, porque este é o único tempo realmente disponível;

  • terminar cada dia com a consciência tranquila de quem procurou agir da melhor maneira possível.

A máxima não ensina a viver como se não houvesse amanhã de maneira irresponsável. Ela ensina a viver de tal forma que não dependamos do amanhã para dar sentido à nossa existência.

Em síntese:

Não adie a pessoa que deseja ser. Faça do dia de hoje uma vida inteira, orientada pela virtude, pela presença e por escolhas das quais você possa se orgulhar ao anoitecer.

domingo, 13 de setembro de 2026

Por que é tão difícil mudar?

Por que é tão difícil mudar?

Angélica Banhara
Jornalista e palestrante especializada em saúde, longevidade e estilo de vida saudável
Instagram: @angelicabanhara

A gente sabe que precisa comer melhor, fazer atividade física, dormir bem e controlar o estresse. Informação, portanto, não parece ser o problema. Mesmo assim, entre saber o que fazer e colocar em prática existe um abismo.

Por que pessoas informadas, inteligentes e motivadas começam mudanças importantes, mas tantas vezes não conseguem sustentá-las? A resposta mais comum é: falta disciplina, força de vontade, foco. Quem abandona a academia não se esforçou o suficiente. Quem voltou a comer como antes “não teve determinação”. Mas essa explicação ignora uma parte importante da história: as condições em que aquela pessoa está tentando mudar.

É nesse ponto que Viviane Caneriani Pagani, pesquisadora em mudança de comportamento e gestora de estilo de vida saudável, concentra seu trabalho. Fundadora do Miami Institute of Knowledge (EUA), ela desenvolveu a Teoria do Ponto Cego, uma proposta que busca explicar por que uma mudança pode funcionar em determinada fase da vida e fracassar em outra.

A ideia é: toda mudança exige recursos, e eles não são infinitos nem permanecem iguais. Temos diferentes níveis de energia, disposição, equilíbrio emocional, tempo, organização e apoio. Ao mesmo tempo, cada meta impõe uma demanda.

— Antes de perguntar o que uma pessoa deve fazer, precisamos entender se ela dispõe, naquele contexto, da capacidade necessária para sustentar a mudança — diz Viviane.

Pense em alguém que decide começar a se exercitar indo à academia cinco vezes por semana. A meta pode ser adequada em teoria, mas talvez não seja para aquela pessoa naquele momento. Se ela está dormindo mal, trabalhando demais e sob forte pressão, acrescentar cinco treinos à rotina pode ultrapassar sua capacidade disponível. Isso não significa desistir. Talvez seja preciso começar de outro lugar.

Na Teoria do Ponto Cego, Viviane considera quatro dimensões que interferem nessa capacidade. A primeira é o corpo: energia, sono, dores e recuperação. A segunda é a mente: como lidamos com estresse, emoções e frustrações. A terceira é o propósito: a mudança faz sentido ou é apenas uma obrigação? E a quarta é o ambiente: há tempo, organização, apoio e condições para realizá-la?

É uma forma de escapar do pensamento do tudo ou nada. Em vez de sair de uma rotina sedentária para cinco dias de academia, talvez seja mais sustentável começar com dois. Em vez de mudar toda a alimentação, escolher uma alteração possível. Em vez de exigir mais esforço de alguém exausto, talvez seja necessário recuperar o sono primeiro.

A sustentabilidade da mudança nasce do equilíbrio entre aquilo que a ação exige e aquilo que a pessoa consegue manter — diz.

A proposta tira a culpa, mas não a responsabilidade individual. Troca o julgamento por uma pergunta mais útil: o que está dificultando essa mudança e o que pode ser ajustado?

O ponto cego estaria em planejar a vida a partir daquilo que gostaríamos de conseguir, sem olhar para aquilo que efetivamente conseguimos sustentar. Quando a demanda da mudança fica muito acima da capacidade disponível, cresce o risco de abandono.

A proposta para uma estratégia mais realista é questionar: o que eu consigo sustentar neste momento? Às vezes será preciso fortalecer a capacidade: dormir melhor, reduzir sobrecargas, organizar a rotina. Em outras, diminuir a exigência. Ou fazer as duas coisas ao mesmo tempo, aos poucos.

— A interrupção de um plano não deve ser interpretada como fracasso pessoal; muitas vezes ela reflete um descompasso entre a meta e os recursos do momento — afirma.

Isso vale para a academia, para a alimentação e para qualquer mudança de estilo de vida. Também vale para o envelhecimento. À medida que a vida muda, nosso corpo, nossa rotina e nossas responsabilidades mudam com ela. Uma estratégia sustentável deve acompanhar essas transformações.

Referência bibliográfica — ABNT

BANHARA, Angélica. Por que é tão difícil mudar? O Globo, Rio de Janeiro, 28 jan. 2026. Seção Bem-Estar.

sábado, 12 de setembro de 2026

Os três melhores amigos do coração humano e o Estoicismo!



Para Epicteto, não controlamos a forma como as outras pessoas nos tratam. Não podemos obrigar ninguém a ser leal, verdadeiro ou amigo. Podemos, entretanto, escolher agir com lealdade, falar com sinceridade e cultivar amizades fundamentadas no respeito e no bem comum.

Os cães simbolizam essas virtudes porque demonstram afeto e fidelidade por meio de atitudes. Essa ideia aproxima-se do ensinamento de Epicteto de que a filosofia não deve permanecer apenas nas palavras: precisa aparecer em nossa maneira de viver.

A frase “especialmente quando ninguém está olhando” reforça essa perspectiva. Para Epicteto, uma ação virtuosa não deve ser praticada para receber elogios, conquistar reputação ou agradar aos outros. A virtude possui valor por si mesma. O importante não é parecer uma pessoa boa, mas escolher agir corretamente, mesmo sem reconhecimento.

Uma síntese estoica para acompanhar a imagem seria:

Não podemos exigir lealdade, sinceridade e amizade dos outros. Mas podemos fazer dessas virtudes a expressão de nosso próprio caráter. Para Epicteto, é nas escolhas que dependem de nós — sobretudo quando ninguém está olhando — que revelamos quem verdadeiramente somos.

A imagem das cobras representa os vícios que podemos encontrar nos outros e também em nós mesmos. A imagem dos cães, por sua vez, representa as virtudes que podemos deliberadamente cultivar. Epicteto nos aconselharia a não gastar a vida procurando a falsidade alheia, mas a concentrar nossa atenção na formação do nosso próprio caráter.

As três cobras mais perigosas do mundo e o Estoicismo!

A inveja, a traição e a ingratidão podem vir de outras pessoas e, por isso, não estão sob nosso controle. Não podemos assegurar que todos sejam leais, sinceros ou agradecidos, ainda que os tratemos com bondade. O que depende de nós é nossa maneira de interpretar essas atitudes e de responder a elas.

Epicteto não aconselharia viver desconfiando de todos ou tentando descobrir “cobras” escondidas atrás de cada abraço. Isso nos tornaria prisioneiros do medo, da suspeita e da opinião alheia. Ele recomendaria prudência para reconhecer o caráter das pessoas, mas sem permitir que a conduta delas corrompa o nosso próprio caráter.

A imagem também pode ser interpretada por outra perspectiva: as três “cobras” mais perigosas não são apenas aquelas que encontramos nos outros. Elas também podem estar dentro de nós. A inveja nasce quando transformamos a superioridade ou a felicidade alheia em ameaça. A traição acontece quando abandonamos nossos princípios por conveniência. A ingratidão aparece quando esquecemos os benefícios recebidos e julgamos que tudo nos era devido.

Assim, uma leitura verdadeiramente epictetiana seria:

Não podemos controlar a inveja, a traição ou a ingratidão dos outros. Podemos, porém, vigiar nossos julgamentos para que essas paixões não se instalem em nós. A falta de virtude do outro pertence a ele; conservar nosso caráter pertence a nós.

A principal lição não seria “desconfie dos abraços e sorrisos”, mas:

Seja prudente com as pessoas, sem transformar a prudência em amargura. Quando alguém agir mal, não permita que o erro dele determine quem você se tornará.

Epicteto nos lembraria de que sofrer uma traição é um acontecimento externo; tornar-se vingativo, rancoroso ou desleal em resposta a ela é uma escolha moral nossa. O verdadeiro perigo não está somente em encontrar pessoas invejosas, desleais ou ingratas, mas em deixar que suas atitudes produzam em nós os mesmos vícios.

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

 





Devemos dizer "não" para as coisas que não importam

MATEUS SALVADORI
Professor de Filosofia

Uma das coisas mais difíceis de fazer na vida é dizer "não": não para convites, não para pedidos, não para obrigações que parecem urgentes, não para aquilo que todo mundo está fazendo. Mais difícil ainda é dizer "não" para certas emoções que consomem tempo: a raiva que nos faz remoer o passado, a empolgação que nos distrai, a obsessão que nos desgasta, a distração que nos rouba presença.

Nenhum desses impulsos parece grande coisa isoladamente, mas, juntos, se tornam um compromisso, como se você tivesse assinado um contrato invisível de desperdiçar seus dias. Byung-Chul Han, em "Sociedade do Cansaço", explica que hoje o inimigo não está fora, mas dentro de nós. Tentamos nos superar o tempo todo, dizendo "sim" a cada nova meta e desafio, até quebrarmos por dentro. Essa autoexploração leva a doenças como ansiedade, depressão e burnout. O excesso de positividade e produtividade não liberta, apenas nos deixa mais cansados e culpados.

Essa sensação de perda não é nova. Há dois mil anos, Sêneca já alertava que muitos só percebem tarde demais o quanto de tempo foi desperdiçado com coisas inúteis. Ele nos provoca a refletir: "Quantas vezes outros roubaram a sua vida enquanto você não percebia o que estava perdendo, quanto foi desperdiçado em uma dor vazia, uma alegria boba, um desejo ávido, uma conversa falsa. Você entenderá que morria de modo prematuro." (Sobre a brevidade da vida, 3.3)

Dizer "não" pode incomodar. Pode decepcionar pessoas, fechar portas, gerar incômodos. Mas quanto mais você diz "não" ao que não importa, mais espaço cria para o que realmente importa.

É como no filme "Sim Senhor", com Jim Carrey: o personagem decide dizer "sim" para tudo e, no início, é divertido, mas logo fica sobrecarregado e sem tempo para si. Só encontra equilíbrio quando percebe que também precisa aprender a dizer "não".

Sêneca provoca de novo: "Você ouvirá muitos que dirão: 'quando eu tiver cinquenta anos, me aposentarei; aos sessenta anos, me retirarei dos cargos'. E quem garante que terá uma vida tão longa? Quem aceitará que as coisas aconteçam de acordo com o que deseja? Não sente vergonha por reservar para si essas sobras de vida e destinar ao exercício da boa mente apenas este tempo que não podia ser usado para mais nada? Quão atrasado é começar a viver quando a vida está para terminar!" (Sobre a brevidade da vida, 3.4).

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

DUAS PINTURAS, DIFERENTES OLHARES SOBRE A INDEPENDÊNCIA !

DUAS PINTURAS, DIFERENTES OLHARES SOBRE A INDEPENDÊNCIA 

Neste 7 de Setembro, em que celebramos os 204 anos da Independência do Brasil, proponho um exercício próprio do ensino de História: observar duas pinturas sobre o mesmo acontecimento e perceber que elas não contam exatamente a mesma história.

Na primeira imagem, Independência ou Morte!, pintada por Pedro Américo em 1888, Dom Pedro aparece em posição de comando, erguendo a espada e sendo acompanhado por uma imponente comitiva militar. A cena é grandiosa, organizada e heroica. O povo comum permanece à margem, representado principalmente pelo homem que conduz o carro de bois e assiste ao acontecimento.

Na segunda, A Proclamação da Independência, produzida por François-René Moreaux em 1844, Dom Pedro também ocupa o centro, mas está cercado por homens, mulheres e crianças que o aclamam. A obra apresenta a Independência como uma celebração popular, marcada pelo entusiasmo e pela participação coletiva.

As pinturas foram produzidas, respectivamente, 66 e 22 anos depois de 1822. Portanto, não são fotografias daquele momento nem reproduções exatas do que aconteceu. São interpretações construídas pelos artistas e também revelam as ideias de suas épocas sobre a formação do Brasil.

É justamente aí que está a riqueza do ensino de História: aprender a olhar para além da imagem, fazer perguntas, comparar versões e compreender que nenhum país nasce do grito de uma única pessoa.

Como disse em meu discurso no momento cívico, aquele grito ganhou força porque havia um povo que desejava liberdade e sonhava com um Brasil capaz de decidir o próprio destino.

A Independência não foi uma cena perfeita, congelada em um quadro.

Foi luta.
Foi coragem.
Foi resistência.
Foi esperança.

E ela continua sendo construída todos os dias, sobretudo dentro das nossas escolas.

Quando uma criança aprende a ler, o Brasil se torna mais livre.

Quando nossos estudantes concluem a Educação Básica dominando a matemática, saem mais preparados para a vida — e o Brasil se torna mais forte.

Quando aprendem a interpretar o mundo, reconhecem o valor da própria voz e respeitam os direitos dos outros, o Brasil se torna mais justo, democrático e verdadeiramente independente.

Que o 7 de Setembro não seja apenas uma lembrança do passado, mas também um compromisso com o presente e uma esperança para o futuro.

Viva a educação pública!
Viva a nossa escola!
Viva Carlos Chagas!
Viva a liberdade!
E viva o Brasil! 🇧🇷

#IndependênciaDoBrasil #7DeSetembro #EnsinoDeHistória #EducaçãoPública #HistóriaDoBrasil #CarlosChagasMG #EducaçãoTransforma

As datas e a identificação das obras foram conferidas nos acervos do Museu do Ipiranga e do Museu Imperial.

domingo, 6 de setembro de 2026

ESTOICISMO: Os Conceitos em Latim Que Vão MUDAR Sua Mente!

Embora o estoicismo tenha surgido na Grécia e muitos conceitos tenham nomes originalmente gregos, sua tradição romana popularizou várias expressões latinas. As mais conhecidas são:

  1. Amor fati — “Amor ao destino”
    Significa não apenas aceitar o que acontece, mas acolher cada acontecimento como parte necessária da vida e transformá-lo em oportunidade de crescimento.

  2. Memento mori — “Lembre-se de que você morrerá”
    Recorda a finitude humana. Para os estoicos, pensar na morte não é pessimismo, mas um convite para valorizar o presente e viver com propósito.

  3. Premeditatio malorum — “Premeditação dos males”
    Exercício de imaginar, com equilíbrio, possíveis dificuldades futuras. Seu objetivo é preparar a mente, reduzir surpresas e reconhecer que podemos enfrentar as adversidades.

  4. Dichotomia controlis — “Dicotomia do controle”
    Expressão moderna em latim para a distinção entre aquilo que depende de nós e aquilo que não depende. Nossas escolhas e atitudes estão sob nosso domínio; acontecimentos externos, não completamente.

  5. Summum bonum — “O bem supremo”
    Para o estoicismo, o bem supremo é a virtude: viver com sabedoria, justiça, coragem e moderação.

  6. Virtus — “Virtude” ou “excelência moral”
    É a disposição para agir corretamente. No estoicismo, uma vida boa não depende de riqueza ou prestígio, mas da qualidade moral das escolhas.

  7. Secundum naturam vivere — “Viver de acordo com a natureza”
    Significa viver conforme a razão, a natureza humana e nossa condição de seres sociais, procurando contribuir para o bem comum.

  8. Fatum — “Destino”
    Representa a ordem dos acontecimentos que não controlamos. O ser humano não escolhe tudo o que acontece, mas pode escolher como responder.

  9. Providentia — “Providência”
    Refere-se à ideia de que o universo possui uma ordem racional. Para os estoicos antigos, os acontecimentos integravam uma organização maior da natureza.

  10. Ratio — “Razão”
    É a capacidade humana de examinar julgamentos, governar impulsos e agir conscientemente. Está relacionada ao logos, termo grego para a razão que organiza o universo.

  11. Apatheia — termo grego, não latino
    Significa liberdade em relação às paixões desordenadas. Não é ausência de sentimentos, mas a capacidade de não ser dominado por impulsos, medos e desejos irracionais.

  12. Ataraxia — termo grego, não latino
    Significa tranquilidade ou ausência de perturbação. É mais central no epicurismo e no ceticismo, embora também seja frequentemente relacionada à serenidade estoica.

  13. Prohairesis — termo grego, não latino
    É a faculdade de escolha moral: nosso poder de julgar, decidir e orientar nossas ações. É um conceito fundamental em Epicteto.

  14. Sympatheia — termo grego, não latino
    Designa a conexão entre todas as partes do universo. Dessa ideia nasce a compreensão estoica de que os seres humanos pertencem a uma única comunidade.

  15. Cosmopolis — termo de origem grega
    Significa “cidade universal”. Para os estoicos, somos cidadãos do mundo e temos deveres não apenas com nossa comunidade imediata, mas com toda a humanidade.

Uma síntese útil para sua palestra seria:

Memento mori nos recorda que o tempo é limitado; amor fati nos ensina a acolher o que acontece; e virtus nos orienta a responder com sabedoria, justiça, coragem e moderação.

Observação importante: amor fati tornou-se célebre sobretudo com Nietzsche, muitos séculos depois dos estoicos. Entretanto, a expressão resume adequadamente uma atitude já presente no estoicismo antigo, especialmente nas reflexões de Epicteto e Marco Aurélio.