"No presente, a mente, o corpo é diferente. E o passado é uma roupa que não nos serve mais" Velha Roupa Colorida-Belchior
Pais e Filhos: quando o novo confronta o velho
Concluir a leitura de Pais e Filhos, romance de Ivan Turguêniev, publicado em 1862, é uma experiência humana profundamente impactante e provocadora de reflexões. Durante a leitura — e mesmo depois dela — a gente continua pensando sobre os personagens, seus conflitos, suas escolhas e, principalmente, sobre as transformações que o tempo provoca nas pessoas e na sociedade. É uma daquelas obras que não terminam quando fechamos o livro: ela permanece dentro de nós, despertando sentimentos e levantando perguntas sobre a nossa própria vida. Ao longo da leitura, pensei muito sobre meu relacionamento com minha filha, Antônia Vitória. Quantas experiências vivi, quantas ideias e tradições carrego comigo e quanto gostaria que ela também assumisse como seus alguns dos valores que são importantes para mim, especialmente a minha fé católica. Já tivemos embates por causa dessas diferenças. O livro, porém, fez-me compreender ainda mais que os filhos não são simples continuadores dos pais: eles recebem aquilo que lhes transmitimos, mas precisam encontrar seu próprio caminho, construir suas convicções e viver as questões do seu tempo.
O romance apresenta como tema central o conflito entre gerações. De um lado, encontramos homens ligados aos valores, costumes e ideias de um mundo rural e aristocrático que começa a entrar em decadência. De outro, surge uma juventude disposta a questionar tudo aquilo que recebeu das gerações anteriores. Entretanto, Turguêniev não apresenta essa disputa de maneira simples. Não existem apenas personagens certos de um lado e errados do outro. Todos carregam razões, contradições, afetos e fragilidades.
Nikolai Petróvitch aguarda com entusiasmo o retorno de seu filho Arkádi, que concluiu os estudos e volta para a propriedade da família acompanhado do amigo Bazárov. O reencontro entre pai e filho é marcado pelo afeto, mas também pelo constrangimento provocado pela distância que o tempo e as novas ideias criaram entre eles. Nikolai deseja aproximar-se do filho, compreender seus pensamentos e ser aceito por ele. Arkádi, por sua vez, retorna influenciado por Bazárov e procura demonstrar que já não pertence inteiramente ao universo do pai.
É por meio da chegada desses dois jovens que Turguêniev coloca frente a frente o passado e o novo. Nikolai e seu irmão Pável representam, cada um à sua maneira, um mundo em transformação. Nikolai é mais sensível e aberto ao diálogo, embora ainda esteja ligado à tradição. Pável, elegante, orgulhoso e defensor dos princípios aristocráticos, reage com maior resistência às novas ideias. Já Arkádi e Bazárov representam uma geração que chega fazendo a negação daquele mundo rural tradicionalista.
Bazárov é o personagem mais forte e inquietante da obra. Estudante de medicina, ele se define como niilista. Rejeita crenças, autoridades e princípios que não possam ser fundamentados racionalmente. Para ele, nenhuma ideia deve ser aceita apenas porque foi transmitida pelas gerações anteriores. Só merece confiança aquilo que pode ser observado, experimentado e demonstrado cientificamente. Por isso, questiona a religião, a arte, o romantismo, os costumes sociais e até mesmo os sentimentos.
Em um primeiro momento, sua postura parece firme e coerente. Bazárov fala com segurança, não se impressiona com títulos e não demonstra qualquer reverência diante da aristocracia. Seu comportamento incomoda Pável, que enxerga no jovem uma ameaça a tudo aquilo em que acredita. Os diálogos entre os dois constituem alguns dos momentos mais intensos do romance. Não se trata apenas de uma desavença pessoal: é o confronto entre duas épocas, duas visões de mundo e duas formas de compreender a vida.
Pável procura defender a tradição, os princípios, a honra e a ordem social. Bazárov pretende demolir tudo aquilo que não resista ao exame da razão. O problema é que negar é mais fácil do que construir. Quando questionado sobre o que deveria ocupar o lugar das estruturas rejeitadas, Bazárov não apresenta uma resposta completa. Sua prioridade é destruir as ilusões e preparar o terreno. Essa posição revela a força de seu pensamento, mas também os seus limites.
Um dos grandes méritos de Turguêniev está em não transformar nenhum dos dois em simples caricatura. Pável defende um mundo que já perdeu parte de sua força, mas não é apenas um homem ultrapassado. Ele possui dignidade, história, sofrimento e sensibilidade. Bazárov, por sua vez, é inteligente, corajoso e crítico, mas também arrogante e incapaz de reconhecer plenamente a complexidade da existência humana. Ambos se mostram contraditórios quando são confrontados com situações que revelam suas fragilidades.
A maior contradição de Bazárov aparece diante de seu sentimento por Anna Serguêievna Odintsova. O jovem que desprezava o romantismo e procurava explicar a vida pela ciência descobre-se apaixonado. De repente, aquilo que não podia ser controlado, observado em um microscópio ou explicado racionalmente invade sua existência. O amor desmonta parte de suas certezas. Bazárov percebe, ainda que contra a própria vontade, que o ser humano não vive apenas da razão. Há sentimentos que nos atravessam e revelam dimensões de nós mesmos que preferiríamos negar.
Essa experiência torna o personagem ainda mais humano. Bazárov deixa de ser apenas o niilista que provoca e desafia os demais. Ele passa a ser um homem dividido entre as ideias que defende e aquilo que sente. Sua paixão por Anna não elimina o seu pensamento, mas expõe as limitações de uma filosofia que pretende reduzir a existência ao que pode ser cientificamente demonstrado.
Também Arkádi atravessa um processo de amadurecimento. Inicialmente fascinado pela personalidade de Bazárov, ele repete suas ideias e procura imitá-lo. Com o desenvolvimento da narrativa, no entanto, começa a perceber que não é igual ao amigo. Arkádi possui uma sensibilidade diferente e mantém laços mais profundos com a família, com a natureza e com a vida afetiva. Sua trajetória mostra que crescer não significa apenas romper com os pais, mas descobrir quem realmente somos.
Apesar do título, Pais e Filhos não se limita ao relacionamento entre pais e filhos dentro de uma família. A obra fala sobre as gerações que se sucedem, sobre aquilo que os mais jovens rejeitam e sobre o que, consciente ou inconscientemente, acabam preservando. Os filhos desejam inaugurar um mundo inteiramente novo, mas carregam dentro de si marcas do passado. Os pais, por sua vez, precisam compreender que o tempo não pode ser interrompido e que seus filhos não viverão exatamente da mesma maneira que eles viveram.
Talvez seja essa uma das razões pelas quais o romance continua tão atual. Em todas as épocas, as novas gerações questionam valores, costumes e instituições. Em todas as épocas, as gerações mais velhas sentem que o mundo está mudando depressa demais. E, muitas vezes, aquilo que parece apenas uma disputa de ideias esconde algo mais profundo: o desejo dos pais de não perderem os filhos e a necessidade dos filhos de construírem a própria identidade.
Turguêniev escreveu uma obra sobre política, ciência e transformações sociais, mas escreveu, sobretudo, sobre seres humanos. Por trás das grandes ideias, encontramos pessoas que amam, sofrem, envelhecem, decepcionam-se e tentam encontrar um lugar no mundo. A razão pode explicar muitas coisas, mas não consegue eliminar completamente o amor, a saudade, o medo, o orgulho e a necessidade de pertencimento.
Pais e Filhos é um clássico porque continua nos ajudando a compreender o nosso próprio tempo. A obra nos convida a pensar sobre o que fazemos com aquilo que herdamos, sobre quais valores desejamos conservar e quais precisam ser transformados. Também nos ensina que nenhuma convicção, por mais sólida que pareça, impede que a vida nos confronte com nossas próprias contradições.
Recomendo muito a leitura deste livro. Mais do que acompanhar um conflito entre duas gerações da Rússia do século XIX, o leitor encontrará perguntas que permanecem vivas dentro de cada família e de cada sociedade. Afinal, todos nós somos filhos de um mundo que já existia antes de nós e, ao mesmo tempo, participantes da construção de um mundo que ainda está por nascer.
Deodato Gomes Costa
@professordeodatogomes








