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domingo, 20 de março de 2022

Na semente há uma árvore escondida


Ó Deus, que habita a imensidão de mundos que há em mim. Que conhece meus caminhos e não me deixa sozinho.  Preciso de Ti. Preciso de mim. Preciso do outro.

Ó Deus, luz que me faz esperançar no mutirão da justiça.  Que minhas mãos estejam prontas para teu serviço.  Que teu óleo em minha cabeça possa me curar. Ouço o som que emana de Ti e quero voltar a dançar.

Ó Deus, ajuda-me a recomeçar sempre.  Que meus olhos não se afastem da Tua Palavra escrita no corpo de cada humano excluído(a) e marginalizado(a). Que eu possa ler com óculos da compaixão, da justiça e da libertação.

Ó Deus, quero ser voz da resistência criativa.  Quero fazer parte da construção do encantamento nestes dias de caos e desespero.  Quero mais uma vez me envolver na revolução do amor e da afetividade.

Ó Deus, sei que na semente há uma árvore escondida. Sei que é difícil esperar por processos necessários para um amadurecimento.  Sei que o fruto me alimentará e que ainda vou sorrir nessa sombra que me faz agradecer por mais um dia.


 

POR: CLÁUDIO MÁRCIO REBOUÇAS DA SILVA-Reverendo da Igreja Presbiteriana Unida em Muritiba (cidade serrana do Recôncavo baiano).

Sobre corpos e almas de guerra - triste realidade, lindo poema.

 

Foto: Corpo de soldado coberto de neve ao lado de veículo lançador de foguetes russos nos arredores de Kharkiv, na Ucrânia (25/02) — Foto de Vadim Ghirda/AP.

CRÔNICAS POÉTICAS DE KIEV (II) OU SOBRE CORPOS E ALMAS DE GUERRA - Marcio L’o (Cebi BA)

– Para onde vão os corpos de guerra?

– Será que vão ficar expostos na rua cobertos de neve

jogados no campo, devorados por animais

sem tempo para obrigações fúnebres?

– E para onde vão as almas de guerra?

– Vão para o céu, purgatório…?

Inferno, talvez não… pois já experimentaram o inferno aqui na terra

Mas os corpos de guerra não são só corpos

são histórias assassinadas

avós, avôs, país, mães, filhos, sobrinhos, irmãos, netos… pessoas, gente, povo

Um corpo ferido ou morto no chão em uma rua de Kiev ou Kharkiv

um corpo ucraniano ou russo

é o meu corpo, o seu corpo no chão

As almas da guerra, não sei onde estão

não sei para onde vão…

De certo, estão aqui do meu lado comigo agora

me atormentando, gritando, perguntando:

– O que você está fazendo para que essa guerra acabe?

FONTE: Cebi

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

SALMO DA PAZ SONHADA

 

SALMO DA PAZ SONHADA

A esta hora exatamente,

Em que acordos de paz são incapazes de paz

Existe, em algum canto de um casebre distante,

Uma pintura pobre, mas rica, que diz: Lar Feliz!


A esta hora exatamente,

Em que os imperadores insensíveis

Dizem que a guerra é santa,

Existe, em algum lugar do planeta,

um profeta que protesta na praça com o povo.


A esta hora exatamente,

Quando paira no ar um presságio de pavor,

Existe em capela qualquer,

quem se apressa na prece e pede:

Venha o Teu Reino, Senhor!


A esta hora exatamente,

Quando as estrelas atômicas profanam o céu do Senhor

Existe em alguma várzea poluída

Um menino que empina uma pipa,

como a pomba da paz.




A esta hora exatamente,

Em que sobe da terra o sangue das mulheres silenciadas,

Existe em algum quintal,

uma senhora de idade

que planta em seu novo jardim

Uma, duas, três rosas com amor.


A esta hora exatamente,

Em que o berro estridente exalta o holocausto

Existe em algum barraco

uma criança nascendo,

Trazendo e fazendo o futuro...


Senhor, que os teus pequenos sinais de vida

enfraqueçam as grandes pretensões da morte

E que possamos cantar sob mil bandeiras brancas

A paz que traz o bem que um dia vem...


sábado, 9 de maio de 2020

MUNDO PÓS-PANDEMIA(DUBLADO) - A Grande Realização por Tom Foolery | The Great Realisation by...Poeta britânico vislumbra final feliz para Humanidade depois que a cura for descoberta: 'Às vezes precisamos ficar doentes para melhorar'



Vídeo com poema que descreve mundo pós-pandemia; assista

Poeta britânico vislumbra final feliz para Humanidade depois que a cura for descoberta: 'Às vezes precisamos ficar doentes para melhorar'
Um poema de um homem contando para duas crianças, antes de dormir, as transformações após a pandemia do novo coronavírus no planeta e na Humanidade viralizou nas redes sociais. Postado pelo poeta britânico Tomos Roberts, conhecido como Tom Foolery, o vídeo já alcançou 4 milhões de visualizações apenas no YouTube.
Filmado em casa com os irmãos mais novos, o vídeo de Foolery já passou de 36 milhões de visualizações contando com YouTube, Facebook e Instagram. Com duração de cerca de 4 minutos, "The Great Realisation" (A Grande Descoberta, em tradução livre) mostra o poeta abrindo um livro e descrevendo o mundo antes de a Covid-19 se espalhar.
"Era um mundo de desperdício e admiração. De pobreza e abundância", afirma, em um dos trechos. "As famílias haviam parado de se falar. Isso para não dizer que elas nunca tenham se falado. O equilíbrio entre a vida profissional e o trabalho se quebrou."
Na Europa:Após 48 dias confinados para frear pandemia, espanhóis podem novamente sair para passear e praticar esportes
Em seguida, ele afirma que o novo coronavírus fez com que os instintos dos seres humanos voltassem à tona.
"As pessoas se lembraram de como sorrir. Elas começaram a bater palmas para dizer obrigado. E voltaram a ligar para suas mães."
Vai demorar:Vacina contra coronavírus não deverá estar disponível no próximo ano
No fim, ao ser perguntado por que foi necessário que um vírus surgisse para que as pessoas voltassem a se reunir, ele responde:
"Às vezes você precisa ficar doente antes de começar a se sentir melhor."
A repercussão surpreendeu o poeta e cineasta de 26 anos.
Confira aqui a tradução da fala do poema, na íntegra:
"Vivíamos em um mundo de desperdício e admiração.
De pobreza e abundância.
Antes de entendermos o retrospecto até 2020, veja,
as pessoas criaram empresas para negociar em todos os países.
Mas elas cresceram e ficaram muito maiores do que poderíamos ter planejado.
Sempre tivemos nossos desejos, mas agora tudo ficou tão rápido.
Você pode ter tudo com o que sonhou em um dia e com apenas um clique.
 Percebemos que as famílias haviam parado de se falar.
Isso para não dizer que elas nunca tenham se falado.
O equilíbrio entre a vida profissional e o trabalho se rompeu.
E os olhos das crianças ficaram mais quadrados, cada uma tinha um telefone.
Eles filtravam as imperfeições, mas, no meio daquilo, as pessoas se sentiam sozinhas.
E todos os dias o céu ficava mais espesso, até que você não conseguia ver as estrelas.
Então, nós voávamos em aviões para encontrá-las, enquanto que, embaixo, dirigíamos nossos carros.
Dirigíamos o dia inteiro em círculos e esquecemos como correr.
Trocamos a grama por medicamentos, encolhemos os parques até que não houvesse mais.
Enchemos o mar de plástico porque nossos resíduos nunca foram tratados.
Até que, todos os dias, quando você ia pescar, você pegava os peixes já embrulhados.
E, enquanto bebíamos, fumavamos e jogávamos, nossos líderes nos ensinaram porque é melhor não perturbar os lobbies, porque é mais conveniente morrer.
Mas, então, em 2020, um novo vírus apareceu.
Os governos reagiram e nos disseram para nos escondermos.
Mas, enquanto todos nós estávamos escondidos, em meio ao medo o tempo todo, as pessoas tiravam o pó de seus instintos.
Elas se lembraram de como sorrir. Elas começaram a bater palmas para dizer obrigado.
E voltaram a ligar para suas mães.
E, enquanto as chaves do carro acumulavam poeira, as pessoas esperavam ansiosamente por suas corridas a pé.
E, com o céu menos cheio de viajantes, a terra começou a respirar.
E as praias traziam novos animais selvagens que mergulhavam nos mares.
Algumas pessoas começaram a dançar, algumas estavam cantando, outras estavam cozinhando.
Estávamos tão acostumados com as más notícias, mas algumas boas estavam aparecendo.
E, assim, quando encontramos a cura e fomos autorizados a sair, todos nós preferimos o mundo que encontramos em vez daquele que havíamos deixado para trás.
Antigos hábitos se extinguiram e abriram caminho para os novos.
E todo simples ato de bondade passou a ser devidamente feito".

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Histórias e poemas pelo telefone ajudam milhares a driblar a solidão


Histórias e poemas pelo telefone ajudam milhares a driblar a solidão

Projeto da Secretaria estadual de Cultura atraiu 1.062 voluntários e cerca de 2.600 pessoas já se inscreveram para receber ligações


Um número desconhecido liga. Quem atende logo pensa “ou é marketing ou é cobrança”, mas se engana: do outro lado da linha está um contador de histórias. Para quebrar a dureza dos dias de isolamento social, uma turma de cariocas telefona para pessoas de todas as idades e oferece, através da voz, delicadeza e companhia em forma de contos e poemas.
Aos 31 anos, a funcionária pública Tamires Halak saiu de uma UTI diretamente para o isolamento social. Internada por causa de uma miocardite, ela passou uma semana num hospital e voltou para casa justamente no primeiro dia de quarentena. Proibida de fazer qualquer esforço físico por recomendações médicas, a servidora diz que viu na oportunidade de contar histórias por telefone uma forma de se distrair e amenizar a solidão.
—Ainda estou me recuperando do coração e meu marido é diabético, ou seja, do grupo de risco para a Covid-19. É um contexto muito estressante. Poder fazer essas ligações tem sido uma experiência riquíssima. Tento ler coisas mais positivas, que passem uma mensagem de ânimo —conta Tamires, que mora em Inhaúma e faz, em média, quatro ligações diárias.
Tamires está entre os 1.062 voluntários do projeto “Histórias por telefone”, criado pela Secretaria estadual de Cultura e Economia Criativa. A iniciativa já alcançou cerca de 2.600 ouvintes desde que foi lançada, há um mês. A ideia era atender a população idosa, mas o sucesso do programa foi além: a ouvinte e a voluntária mais jovens têm, respectivamente, apenas 3 e 11 anos de idade. As divisas do Rio tampouco foram suficientes: moradores de 16 estados e de quatro outros países já se inscreveram para participar.
Escritora desde a adolescência, com dois livros publicados, Cristina Ávila, de 45 anos, é uma das voluntárias que recitam poesias para ouvintes. Moradora do Anil, ela apresentou versos de sua autoria e de amigos nas quase 20 ligações que fez até ontem.
—Um dia, conversei com um rapaz da Itália que se cadastrou no projeto. Lá, todo mundo está recluso, com medo. É uma troca: quando você liga, parece que a pessoa está pertinho de você. É bom para as duas partes, ainda mais para quem mora só, como eu. Certa vez, eu estava me sentindo muito sozinha, e a pessoa que ouviu minha poesia foi tão simpática que me senti abraçada — conta Cristina.
Do outro lado, quem ouve as prosas e versos também não esconde a emoção. Apesar de não ter o hábito de ler poesia, Luisa Batista, de 51 anos, se inscreveu para receber telefonemas, mas acabou se esquecendo do projeto. O susto inicial ao receber a primeira ligação deu lugar às lágrimas diante da força de um texto de Marina Colasanti.
—Num mundo em que tudo é pago, eu até pensei “será que essa menina vai cobrar alguma coisa?”. Ela leu um poema que diz assim: “A gente se acostuma para poupar a vida que, aos poucos, se gasta.” Isso me remeteu muito à situação que o mundo está vivendo agora. De repente, a gente teve que parar tudo, dar mais importância às coisas. Foi uma experiência muito diferente para mim —afirma Luisa, moradora de Duque de Caxias.
Fã de Cora Coralina, a pedagoga Daniele Favacho, de 41 anos, viveu uma feliz coincidência: em uma das ligações que recebeu, ouviu um poema da autora.
—Sempre gostei de poesia, mas, depois que tive meu filho, o tempo ficou reduzido. Foi muito gratificante ouvir a Cora —diz Daniele, moradora de Anchieta.
‘UM AFAGO, UM CARINHO’
Íntima dos telefonemas, a operadora de call center Jeane Mendes, de São Gonçalo, também foi picada pelo bichinho da contação de histórias. Ela aprendeu a arte numa oficina que fez há cinco anos, e a retomou na quarentena. Agora, tem um grupo no WhatsApp no qual compartilha e seleciona textos para dividir com mais pessoas.
—Tem gente triste e deprimida em casa precisando de um afago, de um carinho. É o mínimo que eu, como ser humano, posso fazer —afirma Jeane.
Idealizador do “Histórias por telefone” o superintendente de leitura da secretaria estadual de Cultura, Pedro Gerolimich, também se voluntariou para o projeto. Quase sempre, lê o mesmo texto de Sarah Westphal, impresso em um quadro na parede de sua sala:
—Tem um trecho que diz “não deixe que a saudade o sufoque, que a rotina acomode, que o medo te impeça de tentar.” São palavras que vêm a calhar neste momento —diz Gerolimich.
Para se inscrever no projeto como voluntário basta acessar o site do programa pelo link bit.ly/2VtlVU5; e o cadastro para ouvintes está em bit.ly/3eKLrvF.

domingo, 29 de dezembro de 2019

Três poemas de Ingeborg Bachmann

        lustração - Marcos Garuti


O tempo adiado 

Vêm aí dias piores.
O tempo adiado até nova ordem
surge no horizonte.
Em breve deves amarrar os sapatos
e espantar os cães para os charcos.
Pois as vísceras dos peixes
esfriaram no vento.
A luz da anileira arde pobremente.
Teu olhar pressente a penumbra:
o tempo adiado até nova ordem
desponta no horizonte.

Do outro lado afunda tua amada na areia,
ele sobe-lhe pelo cabelo esvoaçante,
ele corta-lhe a palavra,
ele ordena-lhe silêncio,
ele encontra-a mortal
e pronta para a despedida
depois de cada abraço.

Não olha para trás.
Amarra teus sapatos.
Espanta os cães.
Joga os peixes ao mar.
Anula a anileira!

Vêm aí dias piores.

Todos os dias

A guerra não é mais declarada,
mas mantida. O inaudito
tornou-se ordinário. O herói
fica longe das lutas. O fraco
é deslocado para as zonas de combate.
O uniforme do dia é a paciência,
a condecoração, a pobre estrela
da esperança sobre o coração.

Ela é entregue,
quando nada mais acontece,
quando o fogo cerrado emudece,
quando o inimigo se tornou invisível
e a sombra do eterno armamento
cobre o céu.

Ela é entregue
pela fuga diante das bandeiras
pela valentia diante do amigo,
pela traição de segredos indignos
e a não obediência
de toda ordem.

Enigma

Para Hans Werner Henze
da época dos Ariosi

Nada mais vai chegar.

A primavera não virá mais.
Assim nos antecipam calendários milenares.

Mas também o verão —e tudo o que tem nomes tão bons
quanto “veraneio”—
nada mais vai chegar.

E não hás de chorar por isso,
diz a música.

Nada
mais
foi

dito.

Fonte: Ilustríssima - Folha de São Paulo 29-12-2019

Ingeborg Bachmann, escritora austríaca (1926-73), alcançou fama como poeta já na estreia, com "Die Gestundete Zeit" ("O Tempo Adiado"), de 1953; foi também prosadora, dramaturga e roteirista.
Tradução de Claudia Cavalcanti, germanista formada em Leipzig, editora e tradutora, organizou e traduziu edições de poemas de Georg Trakl e Paul Celan (ambos pela Iluminuras).  
Ilustração de Marcos Garuti, artista visual e ilustrador.