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quarta-feira, 17 de junho de 2020

PANDEMIA A máscara caiu Por Patricia Rocco - Jornal O Globo


O uso das máscaras nas ruas foi iniciado na pandemia da gripe espanhola em 1918, que se disseminou por todo o mundo, matando cerca de 50 milhões de pessoas (5% da população global de então).
Apesar do nome gripe espanhola, a doença se iniciou no Kansas, nos EUA. Esse nome foi dado porque, durante a 1ª Guerra Mundial, a Espanha foi o único país a se manter neutro em relação à imprensa e às notícias sobre a doença. As informações dos 8 milhões de infectados pela “fiebre de los tres días” eram repassadas à população espanhola. No entanto, os outros países bloqueavam notícias que pudessem desfavorecer as tropas que lutavam na guerra.
Será correto omitir as notícias? Será que a população necessita estar desinformada, ou levada a acreditar que tudo está bem, que sairemos do isolamento social e que todos estaremos protegidos? A máscara caiu e ficou a tristeza por termos acreditado que alguém estivesse nos protegendo.
Nesse momento, a sociedade tem que acreditar na ciência. Sei que é difícil pensar em isolamento social quando se tem fome. Entretanto, é difícil pensar no não isolamento social quando, ao nosso lado, nos deparamos com a morte de um ente querido. São mais de 40 mil mortos no Brasil.
Onde está a mudança de inflexão da curva do número de óbitos para se determinar a abertura, já que essa curva segue crescendo exponencialmente? Será esse o momento? Será que a máscara nos protegerá? A crise é global, todos estamos vulneráveis.
O uso da máscara é recomendado sempre, seja em pacientes que apresentam sintomas respiratórios, profissionais de saúde, bem como em todos os indivíduos que necessitam sair de casa, já que pacientes assintomáticos ou pré-sintomáticos podem ser potenciais contaminantes. É fundamental seguir boas práticas de uso, remoção e descarte da máscara. Não é incomum a máscara estar abaixo do nariz, sem cobrir boca e queixo, ser feita com pano fino, estar rasgada, invertida (a borda rígida deve estar adaptada ao nariz) e utilizada durante semanas sem higienização, aumentando risco de contaminação do indivíduo e dele para outras pessoas.
Assim, tudo parece muito confuso, momento errado para a abertura e uso errado de um importante aliado na proteção pessoal, a máscara.
Realmente, o Brasil é um país de dimensão continental que apresenta áreas onde essa abertura lenta e gradual pode ocorrer, porém, definitivamente, não é o caso de algumas grandes cidades como o Rio de Janeiro.
Fiquem atentos, essa pandemia é a pior de todas. A ciência deve restabelecer sua posição, orientando seus dirigentes, mostrar as descobertas e erros do presente para programar o futuro. Não arrisque sua vida.
Depois de três meses de isolamento social, a ideia de abertura, de poder sair de casa, levar os filhos à escola, ir ao shopping, por vezes suplanta o medo do contágio. Lembre-se, segundo Voltaire, a esperança é um alimento da nossa alma, ao qual se mistura sempre o veneno do medo.

COVID-19 O que dizem os testes de anticorpos? Por Natalia Pasternak


Testes sorológicos para Covid-19 detectam não a presença do vírus no corpo humano, mas a reação do organismo à presença do vírus. Por isso, são inadequados para diagnosticar a doença: a reação vai persistir mesmo depois de o vírus já ter sido eliminado.

Tratar o teste sorológico como diagnóstico é apenas um dos erros de tabelas que têm se disseminado nas redes sociais nas últimas semanas, quase como memes, causando muita confusão. Essas tabelas oferecem explicações equivocadas sobre os tipos de anticorpos (IgM e IgG) detectados nos testes, e as várias combinações deles. Ignore o que essas imagens dizem, caso receba alguma. Para saber qual a leitura correta do exame de anticorpos, siga este artigo.

Quando temos contato com o vírus, mesmo sem apresentar sintomas, o sistema imune reage. Em geral, produz primeiro o IgM, após aproximadamente duas semanas da infecção. Assim, podemos dizer que, se o exame foi positivo para IgM, a infecção foi recente. Muitas tabelas apontam o IgM como sinal de infecção ativa, mas não podemos afirmar isso. Pode ser que a infecção ainda esteja ativa, e pode ser que a pessoa já esteja completamente recuperada. Não dá para saber. A única maneira de medir infecção ativa é detectar a presença do vírus. E isso o teste de anticorpo não faz, ele é apenas um retrato do passado.

Com o tempo, o IgM vai sendo substituído por outro anticorpo, o IgG. Portanto, se aparecer o IgG positivo, isso indica que um bom tempo já passou desde a infecção, provavelmente mais do que três semanas. O IgG pode ser sinal de imunidade permanente contra o novo coronavírus, mas não conhecemos a doença bem o suficiente para afirmar isso com alguma certeza, ainda.

Se a pessoa é negativa para IgM e IgG, isso apenas indica que ela não tem anticorpos. Pode ser porque nunca teve contato com o vírus, ou porque está com o vírus naquele momento, mas ainda não deu tempo de produzir anticorpos (lembre-se de que eles levam semanas para aparecer). Ou seja, um resultado negativo de anticorpos pode acontecer em uma pessoa que está infectada e transmitindo!


Em resumo, um teste positivo de anticorpo não significa presença da doença, porque o vírus já pode ter ido embora. Um resultado negativo não significa ausência da doença, porque o vírus pode estar lá e o anticorpo ainda não ter chegado.

A Organização Mundial da Saúde, o Center for Disease Control dos EUA, e a Anvisa aqui não recomendam o uso de testes sorológicos para diagnóstico. Já o Ministério da Saúde admite o uso, mas com as seguintes ressalvas: “resultados negativos não excluem a infecção por Sars-Co-V2, e resultados positivos não podem ser usados como evidência absoluta de Sars-CoV2”. É algo como dizer, não confie nos resultados — negativos ou positivos — mas, se quiser, pode usar assim mesmo. Mais ou menos como a decisão do Conselho Federal de Medicina de autorizar, mas não recomendar, o uso de medicamentos sem comprovação. Quem não entender pode perguntar para o ministro da Saúde, assim que tivermos um.

PANDEMIA Números e vidas (são) incompatíveis Por Margareth Dalcolmo 16/06/2020 - Jornal O Globo


Está claro que a redução sustentada nos números de casos e mortes obtida em países europeus não se deveu a uma desconhecida imunidade comunitária ou de rebanho alcançada nesse período — e sim às variadas formas aplicadas de distanciamento social, de testagem massivas ou de medidas de excelência no controle e na assistência hospitalar. Qualquer artifício ou precipitação, mesmo reconhecendo o desgaste de pessoas individualmente ou nas famílias pelos meses passados em isolamento, não justificaria medidas de flexibilização que rigorosamente não obedeçam aos indicadores de taxa de ocupação de leitos, taxa de transmissibilidade ou RT abaixo de 1,0 e um sistema de saúde capaz de testar grandes grupos de comunidades.
No Brasil, após pouco mais de três meses de epidemia, há que se reconhecer o aprendizado tardio com os países que nos antecederam, de par com números, taxas, indicadores, quase à exaustão, e tóxicos, porque nem sempre claros, contraditórios a depender da fonte, porém todos reiteradamente reveladores do inédito e gravíssimo desafio sanitário, social e econômico. Entre o que já se demonstrou nos estudos sorológicos brasileiros, encontra-se uma substantiva proporção de aumento de infectados entre os testados, a permitir conjecturar, além de uma eventual imunidade cruzada com outros coronavírus, dado à redução do número de suscetíveis presumido, se seria realmente necessário, entre nós, uma imunidade comunitária de 60%, como a que deriva da aplicação de vacinas, ou se poderia ser menor.  
Conceitos epidemiológicos e clínicos precisam cada vez mais ser explicitados para a sociedade civil de modo a não deixar dúvidas: nem todas as formas de disseminação do SARS-CoV2 estão esclarecidas ainda, porém se sabe que assintomáticos, ou o conjunto desses com pré-sintomáticos, podem sim transmitir o vírus, de uma pessoa a outra ou mais, o que mantém atual e recomendável o uso de máscaras como barreira mecânica e proteção de contatos, além de cuidados de higiene. Sabemos por outro lado que a incidência de assintomáticos comparada com sintomáticos carece ainda de determinação, o que poderá ser elucidado com os estudos seriados do próprio comportamento do vírus, testes sorológicos e rastreamento de contatos.
No luto que ora vivemos, em total empatia com famílias e profissionais da saúde, lembramos que a compaixão é a chave mestra de toda a consciência. De todas as grandes epidemias, que acompanham a evolução no planeta nos dois últimos milênios, brotou o melhor da criatividade humana, em todos os domínios. Em meio a tantas angústias sobre o nosso lugar no mundo e futuro, uma certeza: mais do que um sentido intuitivo em relação à ciência como algo abstrato, mudanças de qualidade marcam a disseminação do conhecimento e sobretudo as formas de colaboração entre setores público e privado.  
A Arte da Guerra, clássico de Sun Tzu, do grande século IV AC, escrito numa China em plena efervescência cultural e comercial vai muito além de ser um tratado de estratégia, e é uma lição de sabedoria, atemporal, de arte de viver e filosofia da existência, seguindo a concisão dos grandes textos clássicos. Entre outras ensina  que sem inteligência e bondade é impossível recrutar e dirigir bons seguidores. Muitos outros textos ao longo dos séculos consideraram semelhantes máximas como “um príncipe esclarecido utiliza seus exércitos para eliminar os males que afligem o reino e beneficia o povo com paz e confiança”. Que assim fosse.

PREVENÇÃO Matando o vírus diretamente Por Amilcar Tanuri 17/06/2020 - O Globo



O coronavírus se mostrou resistente a diferentes temperaturas ambiente e ainda eficiente para iniciar uma infecção.
Locais úmidos e sem isolamento podem ser ambientes perfeitos para a infecção. Este é o caso de banheiros, escritórios, mesas de restaurantes, entre outros.
Em termos de limpeza de ambiente, temos os desinfectantes comuns, baseados em substâncias químicas que reagem com a partícula viral, inativando-a. Geralmente, esses desinfectantes, como cloro, álcool etílico a 70%, lisofórmio, entre outros, dissolvem a parte lipídica do envelope viral, inativando-o imediatamente. Contudo, esses desinfectantes não têm ação residual.
Uma outra classe de desinfectantes, como a amônia quaternária, tem ação residual de dias, e até semanas, porém é muito mais tóxica para seres humanos e para o meio ambiente.
Mais recentemente, a nanotecnologia nos forneceu moléculas e nanopartículas que podem nos ajudar no combate ao novo coronavírus e a outros vírus respiratórios. São os chamados virucidas.
Uma dessas soluções é a de nanopartículas de prata, que podem ser formadas com diferentes diâmetros na faixa de fração de milionésimo do milímetro, permitindo sua atuação direta nas proteínas do envelope viral.
Em experimentos de laboratório, as nanopartículas de prata podem inativar diferentes vírus, como o da influenza e o Sars-CoV-2, mesmo em concentrações muito baixas.
A vantagem da nanotecnologia é que você precisa menos princípio ativo do virucida para exercer a ação. Além disso, eles têm uma ação residual muito notável.
Numa outra vertente, temos os virucidas biológicos, que são baseados em proteínas que se ligam diretamente aos receptores virais, bloqueando sua entrada na célula.
Esses novos virucidas, por terem uma baixa toxidade para seres humanos e boa ação residual, podem ser utilizados como desinfectantes inteligentes para aplicação em ambientes públicos, como shoppings e escritórios, e até soluções para passar no rosto e nas narinas, para inativar o vírus antes que possa iniciar a infecção.
FONTE: O Globo

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Equipe do Einstein cria novo teste para coronavírus. O Globo e 22 de Maio de 2020 - Patricia Rocco, Professora titular da UFRJ, chefe do Laboratório de Investigação Pulmonar, membro titular da ANM e ABC, Rede Vírus-MCTIC

Exame de detecção da Covid-19 com base no sequenciamento genético é vantajoso e poderá ser usado em larga escala.

Afrase de Hamlet, em uma das principais peças de Shakespeare, “ser ou não ser, eis a questão" tem várias conotações, desde a mais existencial até uma pergunta sobre como agir e se posicionar diante de um fato. A Covid-19 é uma doença causada por um coronavírus, denominado Sars-CoV-2 (Severe Acute Respiratory Syndrome, Síndrome Respiratória Aguda Grave, em português). Inicialmente, acreditávamos que esse vírus acarretava, primordialmente, sintomas respiratórios, sendo apneumonia o quadro mais grave.

Nossa experiência coma Sarse Mers( Síndrome Respiratória do Oriente Médio) fez com que pensássemos que a Covid-19 se comportasse de forma similar a essas doenças, apresentando quadro gripal, com febre, tosse e dor de garganta.

Posteriormente, sintomas como perda de olfato e paladar começaram a ser descritos, sugerindo que o vírus se espalhava do epitélio olfativo para o cérebro. O sistema nervoso pode ser afetado:

 1) pelo vírus que entra na célula endotelial; 

2) pelo processo inflamatório local e sistêmico; 

3) pela presença de trombos.

Os pacientes com Covid-19 também podem apresentar diarreia, que vem sendo atribuída à infecção direta da célula intestinal pelo vírus. Alguns estudos sugerem o uso de probióticos para melhora dos sintomas gastrointestinais. O vírus pode invadir as células miocárdicas, ocasionando arritmias e isquemia coronariana/infarto agudo do miocárdio. A disfunção renal também pode ocorrer seja pela inflamação sistêmica, hipotensão arterial e trombose. Nota-se que a trombose é fenômeno que se repete em diversos órgãos. A experiência dos intensivistas e dos patologistas — esses, através de análises de autópsias —, em muito vem nos ajudando no entendimento do comprometimento dos diferentes órgãos pelo coronavírus. Não é incomum os médicos relatarem que o paciente estava evoluindo de forma satisfatória nas unidades de terapia intensiva, quando, subitamente, apresentou falta de ar, hipotensão e parada cardíaca. Depois de certo tempo, observou-se que tais sintomas eram atribuídos a um quadro de embolia pulmonar, e esse era mais frequente do que se esperava. É fundamental a dosagem de bio marcadores para entender quando devemos iniciar ou so de anticoagulantes. Tal terapia, melhorou significativamente o prognóstico dos pacientes com o novo coronavírus. Logo, apesar de, inicialmente, a Covid-19 ter sido descrita como uma pneumonia viral, ela, na realidade, apresenta-se como doença que lesa múltiplos órgãos. Por mais que a questão pareça complexa, na verdade, é muito simples: devemos chamar o coronavírus de Mods-CoV-2 (Multiple Organ Dysfunction Syndrome, que em português é Síndrome de Disfunção Orgânica Múltipla) e não de Sars-CoV-2. É fundamental a realização de estudos que versem acerca dos mecanismos de ação do vírus, aspectos clínicos e o manejo terapêutico dessa enfermidade. A ciência evolui passo a passo para desvendar os enigmas da Covid-19. Devemos chamar o coronavírus de Mods-CoV-2 que, em português, é Síndrome de Disfunção Orgânica Múltipla

sexta-feira, 8 de maio de 2020

O dia D na guerra contra a Covid-19 - O Globo - 8 de Maio de 2020

O dia D é um termo utilizado frequentemente para denotar o dia em que um ataque ou uma operação de combate deve ser iniciado. O dia D ocorreu num momento decisivo da guerra, quando os aliados ocidentais desembarcaram na Normandia, França, dando início ao fim da Segunda Guerra Mundial. Estamos em um momento decisivo da guerra contra a Covid-19: encontram-se os profissionais de saúde enfraquecidos, deprimidos, ante a impossibilidade de salvar pessoas. A população segue sem entender o futuro que a espera. No momento, é necessário organizar a tropa, mostrar que há futuro e que tudo dará certo. Sem vacinas, testes diagnósticos confiáveis e uma terapia efetiva para conter o número exponencial de mortos, temos que nos reorganizar. Quando o dia D ocorrerá? Para tal, com base na ciência, é fundamental:

1. Isolamento social rígido; ficar no meio do caminho só aumenta a letalidade e retarda a volta da economia. De onde vem a ideia de que o Brasil seria diferente da China e Itália? Sei que muitos pensam que “Deus é brasileiro”, no momento, porém, Ele precisa de ajuda. O vírus não pode ser visto a olho nu, no entanto, ele existe e pode matar;

2. Estabelecer terapia com base no exame clínico, laboratorial e de imagem, bem como em artigos científicos. Por que inventar a roda, se países que estão à nossa frente em relação a essa pandemia já relataram quais condutas não dão certo? Por que repetir o erro? Neste momento, tudo é novo. Não há a famosa frase “na minha experiência”. Essa doença se manifesta de múltiplas formas. A Covid-19 não é doença que acomete somente o pulmão, agride, também, outros órgãos. Por isso, torna-se imperioso que diversas especialidades médicas trabalhem em conjunto: pneumologistas, intensivistas, cardiologistas, neurologistas e nefrologistas, dentre outros, com o suporte da enfermagem. A fisioterapia é fundamental, não somente para auxiliar na retirada do paciente do ventilador mecânico, como também melhorar o tônus muscular, já que foi constatada a presença do vírus em diversos músculos esqueléticos, inclusive os músculos respiratórios, contribuindo para a fadiga muscular frequente nos pacientes com Covid-19. Sejamos humildes! Retornemos ao tempo em que ouvir e examinar o paciente se tornavam tarefas obrigatórias. Hipócrates já dizia: “Há verdadeiramente duas coisas diferentes: saber e crer que se sabe. A ciência consiste em saber, em crer que se sabe reside a ignorância”;

3. Acreditar nos estudos clínicos que vêm sendo realizados no Brasil e no mundo. A ciência brasileira, quando solicitada a atuar, é excelente e sempre solidária. Ficou durante anos sucateada e desacreditada, mas jamais desiste. Quando solicitada, trabalha, incessantemente, para resolver o problema. Assim foi na zika e assim está sendo na Covid-19. Confie nos cientistas brasileiros. Eles jamais abandonam a população.

A ciência brasileira é excelente e sempre solidária. Ficou por anos sucateada e desacreditada, mas jamais desiste

O dia D na guerra contra a Covid-19

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Projeto Ciência do Cotidiano inicia nova fase com lançamento de podcasts - Em grupo do WhatsApp, ouvintes terão acesso a conteúdos de Biologia, Física, Matemática e Química

Projeto Ciência do Cotidiano inicia nova fase com lançamento de podcasts.

Em grupo do WhatsApp, ouvintes terão acesso a conteúdos de Biologia, Física, Matemática e Química

O projeto de extensão “Ciência do Cotidiano: conhecimento científico pelas ondas do rádio” começa uma nova fase e lança um grupo de WhatsApp em que os interessados receberão, semanalmente, um podcast do programa radiofônico que era veiculado na Rádio Universitária 99,7 FM. A proposta é que, durante esse período excepcional de pandemia, os participantes do grupo - em especial a comunidade acadêmica da UFVJM, além de professores e estudantes da educação básica - tenham um novo canal para aprender sobre as Ciências Naturais e Exatas.

Cada podcast apresenta um diálogo em que, a partir de situações rotineiras de uma sala de aula, o professor explica e discute com seus estudantes vários conceitos de Biologia, Física, Matemática e Química. “A iniciativa tem como objetivos divulgar e popularizar a ciência, despertar o interesse pelas áreas das Ciências Naturais e Exatas e ser um novo canal de aprendizado, sobretudo, neste tempo de pandemia”, afirma o idealizador do programa, professor Everton Luiz de Paula.

Como participar?

Ao entrar no grupo, em que somente os administradores poderão enviar mensagens, o participante receberá um link por semana, com diferentes assuntos. Os arquivos ficarão armazenados em um sistema de disponibilização de faixas de áudio e o ouvinte poderá acessá-los no momento em que recebe o link ou quando quiser. “Como não serão enviados arquivos, apenas links, a memória dos celulares dos participantes não ficará sobrecarregada”, explica o coordenador de Tecnologia da Informação da Diretoria de Educação Aberta e a Distância (DEAD), Ricardo Brasil.

O conteúdo disponibilizado na nova plataforma foi desenvolvido em parceria com a equipe da Rádio Universitária / Diretoria de Comunicação da UFVJM.

O interessado deverá ingressar no grupo por meio deste link: http://encurtador.com.br/equRX

Sobre o projeto

O projeto de extensão "Ciência do Cotidiano: conhecimento científico pelas ondas do rádio" é coordenado pelo professor Everton Luiz de Paula, da Diretoria de Educação Aberta e a Distância (DEAD), que conta com os servidores Ricardo de Oliveira Brasil Costa, analista de Tecnologia da Informação da DEAD, e Flávia Cesar, jornalista da Diretoria de Comunicação Social (Dicom) da UFVJM, para a sua execução.

Durante os quatro anos em que foi veiculado pela Rádio Universitária 99,7 FM, de 2015 a 2019, o programa apresentou diferentes temas do cotidiano. Atualmente, aliando tecnologia e ciência, quer se consolidar como um meio de divulgação científica e de produção de conteúdos de temas científicos que poderão ser utilizados no ensino das Ciências Naturais, muitas vezes restritos à comunidade acadêmica, ampliando o seu alcance.

FONTE: Portal da UFVJM

terça-feira, 5 de maio de 2020

Consciência e ciência sem conflito - O Globo - 5 de Maio de 2020 - A HORA DA CIÊNCIA - Margareth Dalcolmo Cientista e pneumologista da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz

Nesta semana em que se celebram 75 anos da tomada de Berlim pelos soviéticos e da derrota das tropas nazistas pelas forças aliadas na Itália e na Áustria, como publicado nos grandes jornais à época, a noção de tempo nos atropela, e parece estarmos a mencionar um fato histórico bem mais distante. Hoje, com a dimensão do fenômeno que assola todo o planeta, os mesmos órgãos de comunicação anunciam o que poderia ser uma trégua na luta em que nos encontramos, contra o inimigo ubíquo e invisível, um vírus que já dizimou mais vidas do que os 20 anos da Guerra do Vietnã ou a epidemia pelo HIV nos seus primeiros 25 anos. A divulgação do que poderia ser um tratamento possível, pelo menos para as formas graves da Covid-19, em que pesem os desfechos ainda por serem aprimorados, traveste-se de boa nova.

Não se compara a forçados meios de comunicação de outrora com a atualidade, vivendo a primeira epidemia completamente digital. O tamanho do fenômeno midiático é compatível com sua época, ainda que o homem, como ser de consciência, permaneça, felizmente, operando no modo analógico, movido a empatia e compaixão. Se é verdade que o amor ao próximo sofredor inspira o desenvolvimento da ciência, podemos afirmar que, no homem, cientista ou poeta, os métodos criadores são os mesmos. Einstein disse, com seu humor :“Ai maginação é a mais científica das faculdades ”, indicando que nenhuma descoberta nos dá direito a descanso. Um problema ou uma etapa resolvida gera forçosamente uma outra hipótese a ser demonstrada, outra questão a ser respondida. É onde nos encontramos frente ao desafio imposto pela Covid-19 e à espera de uma vacina.

O remdesivir, fármaco aprovado pelo FDA, órgão regulatório norte-americano, para o tratamento de casos graves, é um conhecido antiviral, capaz debloquear a replicação viral, de uso exclusivamente endovenoso, com efeitos in vitro já demonstrados em outros coronavirus, usado nas epidemias da Sars e Mers, e no tratamento do ebola, em África, sem sucesso.

Três estudos para a Covid-19 foram publicados: na China, sem benefício e interrompido por efeitos colaterais; do fabricante, sem grupo controle; e o que gerou a aprovação, incluindo 1.063 pacientes, com mortalidade de 8% contra 11,6% no grupo placebo. Sabe-se assim que os estudos até o momento, mesmo os poucos metodologicamente bem conduzidos, não respondem se este será, isolado ou em associação a outras terapêuticas que atuem em outros alvos do vírus —como anti-inflamatórios biológicos e corticosteroides, anticoagulantes, transferência de plasma de convalescentes —, um tratamento plausível. Ao falar em plausibilidade, há que se considerar variáveis diversas como efetividade de uso no mundo real, segurança, proteção ou quebra de patente, comercialização e, sobretudo, acesso universal. Todas essas respostas deverão se somar ao ganho observado até agora, de redução modesta no número de dias de permanência em terapia intensiva, e eventos adversos controláveis.

No momento agudo em que vivemos, em meio à proliferação de controvérsias, muitas sembas e científica, voltamos a nos indagar se nos enigmas que regem a consciência humana e a ciência não há conflitos, e sim interação, como um amálgama perene. Quero bom senso que os que decidem sobre a vida das pessoas, a fortiori os homens de Estado, mostrem-se sempre firmes, claros, consistentes, justos e, sobretudo, responsáveis. O que nos revelará a nossa história imediata?

Quer o bom senso que os que decidem sobre a vida das pessoas mostrem-se sempre firmes, claros, justos e responsáveis.


  • FONTE: O Globo


  • segunda-feira, 4 de maio de 2020

    Anticorpos não são sinônimo de imunidade para Covid-19 - O Globo - 4 de Maio de 2020/NATALIA PASTERNAK

    A maioria das pessoas que não trabalha com biologia tem uma visão bastante simplificadade como funciona a resposta imune do corpo humano, da qual os anticorpos fazem parte. No cenário atual, essa compreensão parcial pode gerar tanto preocupação excessiva quanto esperança falsa. Então, vamos olhar a questão mais de perto. Quando o corpo é invadido por um vírus, temos três tipos de resposta: inata, adaptativa celular e adaptativa de anticorpos.

    A resposta inata é a primeira. São células mais genéricas, que vão tentar eliminar o corpo estranho, meio que de qualquer jeito. A resposta adaptativa é mais específica, e pode ser celular ou de anticorpos. Os anticorpos, quando tudo corre bem, neutralizam o vírus, além de soar um alerta. Mas, quando o vírus já está dentro da célula, os anticorpos não o percebem. Dentro da célula, os vírus fabricam cópias de si mesmos.

    Com a resposta imune celular, a célula contaminada avisa o resto do organismo do problema: denuncia a si mesma, e é eliminada.

    Anticorpos são moléculas que se ligam a proteínas que o vírus exibe em seu invólucro. Chamamos de neutralizantes aqueles que, ao fazer isso, dificultam ou impedem a reprodução viral. Mas nem todos são assim: pode haver anticorpos não neutralizantes, que se encaixam no vírus, mas não conseguem detê-lo (e, às vezes, até o ajudam).

    No caso do Sars-CoV-2, ainda não temos uma ideia clara da ação dos anticorpos. Recentemente, um estudo na revista “Nature Medicine” indicou que 100% dos pacientes avaliados produziram anticorpos contra a Covid-19. Muita gente comemorou o resultado, e interpretou isso como sinal de imunidade. É até bastante provável —e desejável —que seja isso mesmo. Mas o fato é que ainda não sabemos se todos esses anticorpos serão úteis, e quanto tempo duram.

    Levando em conta que o Sars-CoV-2 é bem parecido com o vírus da Sars de 2002, podemos esperar que, contra ele, também produziremos um anticorpo neutralizante que impede que o vírus entre na célula. O anticorpo também chama células do sistema imune que vão ajudar no combate.

    Em geral, exames de sangue medem dois tipos de anticorpo, IgM e IgG. Estudos em Sars relacionaram produção precoce de anticorpos à severidade da doença. Ter anticorpos não basta. Precisamos saber se são protetores, e quanto tempo duram. Também precisamos descobrir a relação entre tipos e quantidades, e como se relacionam à gravidade da doença: é possível que anticorpos em excesso, ou na hora errada, piorem o quadro. Tendo essa compreensão, poderemos desenvolver anticorpos monoclonais, que serão neutralizantes e clones, ou seja, todos iguais. Há grupos trabalhando nessa estratégia.

    Também sempre testamos se os anticorpos gerados na vacinação são neutralizantes. Às vezes, não são. Uma vacina para Sars falhou em produzir anticorpos neutralizantes em animais idosos.

    O sistema imune humano é feito de erros e acidentes selecionados pela natureza. No geral, anticorpos salvam vidas, mas nem sempre: não são “projetados” para isso ou aquilo. A cada nova doença, precisamos da ciência para entender o que, exatamente, andam aprontando.

    O sistema imune humano é feito de erros e acidentes selecionados pela natureza. No geral, anticorpos salvam vidas, mas nem sempre.

    Marcha Nacional pela Ciência será realizada em formato virtual. Acompanhe pelas redes sociais.



    No dia 7 de maio de 2020 será realizada no Brasil a Marcha Digital pela Ciência 2020. As entidades de ciência e tecnologia de Minas Gerais se unem a este movimento internacional para mostrar à sociedade a importância do conhecimento científico no nosso dia-a-dia e como é necessário que a ciência prospere, para que toda a nação se desenvolva de forma sustentável e crescente.
    Divulgue, curta e participe!
    A Marcha Virtual pela Ciência poderá ser acompanhada nas redes sociais da SPBC: Instagram, Youtube, Facebook e Twitter. Outras informações estão disponíveis na página do evento no Facebook.

    Programação · Quinta, 7 de maio de 2020

    08:00 - 08:10
    Abertura: o que é a Marcha?
    08:10 - 09:00
    Mesa: Divulgação científica em tempos de pandemia
    09:00
    Instituições no enfrentamento da pandemia
    10:30
    Mesa: Ciência e Corona (programação nacional)
    12:00
    Twittaço e cartazes (programação nacional)
    12:30
    programação da ANPG
    13:30
    O que as instituições estão pesquisando?
    15:00
    Mesa: Financiamento da ciência no Brasil (programação nacional)
    16:30
    Direitos humanos na pandemia
    17:00
    Ciência no parlamento: debate com reitores e parlamentares
    18:00
    Twittaço e cartazes (programação nacional)
    18:30
    Show de encerramento: Eduardo Mortimer (programação nacional)

    sábado, 2 de maio de 2020

    Tudo na vida é provisório - O Globo - 1 de Maio de 2020 - Patricia Rocco


    A Covid-19 é uma pandemia que afeta não somente a saúde física e mental, como também a vida social e econômica da população. Estamos voltados a aumentar o número de leitos, comprar ventiladores mecânicos, contratar e treinar novos profissionais de saúde para conter essa pandemia. Entretanto, os pacientes com doenças respiratórias e renais crônicas, oncológicos e cardiopatas continuam a existir e, por vezes, necessitam de internação hospitalar em unidades fechadas de cuidados intensivos.
    O bacilo de Koch, que causa a tuberculose, não deixou de infectar a população, as hemodiálises precisam ser realizadas, e os pacientes com câncer, tratados, seja com radioterapia, quimioterapia e/ou cirurgia. Consultas e exames laboratoriais e de imagem necessitam ser periódicos. No entanto, é preocupante que o medo de contágio dos indivíduos ao ingressar em clínicas e hospitais faça com que muitos venham a morrer em casa, infelizmente não pela Covid-19.
    Pacientes com doença pulmonar obstrutiva crônica, diabetes e hipertensão arterial sistêmica podem apresentar a Covid-19 com características clínicas mais graves. Recentemente, foi reportado que a incidência de infarto agudo do miocárdio aumentou significativamente durante esses últimos 3 meses em diferentes países.
    No Brasil, são várias as hipóteses: 1) falta de medicamento, seja nas clínicas ou farmácias populares, e/ou o medo de sair de casa para comprar medicação (“pessoas idosas não devem sair por risco de contágio”); 2) depressão em função do isolamento social, associado ao uso de “calmantes”, álcool em maior quantidade, tabagismo intenso, dieta desregrada e sono de pior qualidade; 3) ausência de profissionais de saúde, já que muitos deles estão infectados com o Sars-CoV-2; e 4) o medo de ir aos hospitais pelo risco de serem acometidos pela Covid-19.
    A realidade é uma só: estamos enfrentando diversos monstros ao mesmo tempo. Não podemos esquecer que a motivação é a melhor forma de superar esses monstros. Temos que continuar a nos cuidar, com alimentação saudável e exercícios, assim como não deixar de utilizar os medicamentos de forma regular.
    A cada dia sabemos muito mais sobre a patogênese e a resposta às diferentes terapias da Covid-19. Nesse contexto, vacinas vêm sendo testadas, bem como entendemos os prós e contras de diversas terapias farmacológicas. Recentes estudos reportaram que o número reduzido de linfócitos (células de defesa do organismo no sangue), níveis elevados de desidrogenase lática (marcador de inflamação) e o acometimento de múltiplos órgãos pela Covid-19 estão associados a um pior prognóstico e aumento da letalidade.
    Saibam que os cientistas estão trabalhando incessantemente. Tudo na vida é provisório, assim como essa pandemia.

    A realidade é uma só: estamos enfrentando diversos monstros ao mesmo tempo. A motivação é a melhor forma de superá-los.

    Tudo na vida é provisório

    sexta-feira, 1 de maio de 2020

    A probabilidade não é um monstro - Gabriela Cybis é bióloga, professora de Estatística na UFRGS, atua em modelagem estatística para genética.


    A probabilidade não é um monstro

    Ciência Fundamental -Por Gabriela Cybis
    Nossa intuição é notoriamente falha em avaliações que envolvem incertezas. Por quê?
    O apresentador de programa de auditório lhe mostra três portas fechadas. Atrás de uma delas está o carro esportivo de seus sonhos. Atrás de cada uma das outras duas, um monstro. Você escolhe uma. “Tem certeza?”, pergunta o apresentador. Ele vai dar uma dica. Abre uma das duas portas que você não escolheu e surge um monstro. “Agora restam só duas portas”, ele diz. “Você fica com sua escolha ou quer trocar?” E agora, o que fazer? Faz diferença em termos de probabilidades?
    Essa charada, conhecida como problema de Monty Hall em honra ao apresentador americano homônimo, foi publicada num jornal dominical americano em 1990, gerando comoção. Mais de 10 mil leitores escreveram para a revista questionando a solução apresentada, um número impressionante considerando o (des)interesse do grande público por problemas matemáticos. Até o famoso matemático Paul Erdös não se convenceu da resposta, mesmo diante da clara demonstração que a prova. A charada ilustra como nossa intuição pode nos levar a convicções falsas, sobretudo em questões relacionadas a probabilidades.
    Seres humanos são notoriamente falhos em avaliações que envolvem incertezas. Por exemplo: quem são mais perigosos, mosquitos ou tubarões? Picadas de mosquitos são responsáveis pela transmissão de doenças a milhões de pessoas, das quais morrem mundialmente cerca de 700 mil por ano. Em contrapartida, no mesmo espaço de tempo os tubarões são responsáveis por em torno de dez mortes. Logo, mosquitos são mais perigosos que tubarões, mas seguimos temendo muito mais esses predadores.
    Isso faz sentido do ponto de vista evolutivo: quando há risco de tubarões na água, é saudável ter medo. Enquanto essa forte resposta intuitiva nos serviu muito bem em um passado mais selvagem, hoje as condições de vida são mais complexas. Num mundo em que adoecemos lentamente por exposição a carcinógenos ou consumo excessivo de gordura, entre outros, esses simples instintos nem sempre nos servem de guia confiável. Muitas vezes carecemos de noções mais refinadas de risco.
    Chamamos de viés cognitivo essas situações em que as pessoas sistematicamente cometem erros de julgamento. Há uma série deles ligados à probabilidade, com nomes como “falácia do jogador” e “viés da negligência da probabilidade”. São conhecidos há décadas pela comunidade científica, que realiza experimentos com grupos de voluntários que se expõem a pegadinhas construídas para evidenciar tais viéses.
    Esse conhecimento pode ser utilizado na comunicação mais efetiva de dados envolvendo incertezas, melhorando a qualidade das decisões de profissionais da área da saúde ou no mundo dos negócios. E também pode ser explorado para induzir pessoas a tomar decisões em benefício do interesse de terceiros. Isso não significa, porém, que estamos fadados a cometer repetidamente os mesmos equívocos. Conhecer os erros mais comuns e ter familiaridade com raciocínio lógico e matemático são fortes aliados para evitá-los, embora não os eliminem por completo.
    E a solução do problema de Monty Hall, você já sabe qual é? Grande parte das pessoas afirma que não faz diferença trocar ou não de porta após a intervenção do apresentador. Afinal, todas as portas têm a mesma probabilidade de trazer o carro, certo? Errado. O ato de revelar o conteúdo de uma das portas após sua escolha inicial altera as probabilidades da segunda etapa do problema. Assim, trocar de porta após a intervenção do apresentador é a melhor estratégia para conquistar o carro de seus sonhos. Por quê?
    Para verificar isso, podemos dividir o problema em dois casos.
    Caso 1: Digamos que na primeira etapa você escolhe a porta certa (isso ocorre com probabilidade 1/3); nesse caso, quando na segunda etapa você trocar de porta, acabará sempre com uma porta errada.
    Caso 2: Digamos que inicialmente você escolhe uma das portas erradas (o que ocorre com probabilidade 2/3); nesse caso, quando o apresentador remover uma porta com monstro, restará apenas a porta correta.
    Portanto, concluímos que a estratégia de trocar de porta na segunda etapa lhe dá as maiores chances de voltar para casa com seu carrão, probabilidade 2/3, para ser precisa.
    FONTE: Blog Ciência Fundamental da Folha de São Paulo Acesso 30-04-2020

    quinta-feira, 30 de abril de 2020

    Empatia em tempos de crise O Globo30 Abril de 2020A HORA DA CIÊNCIA - Roberto Lent Neurocientista, professor emérito da UFRJ e pesquisador do Instituto D’Or


    Para a ciência, empatia é uma habilidade socioemocional de múltiplas faces. Tem um lado biológico e hereditário, determinado por sequências do genoma humano já identificadas. Os bebês desde muito cedo conseguem discernir o sorriso do pranto, imitando-os para refletir a emoção que observaram.
    A expressão da empatia é interpessoal: o sorriso do bebê acompanha o sorriso da mãe. Ambos vivenciam a mesma emoção.
    A empatia pode ser modulada pela sociedade, capaz de ensinar as pessoas a calibrar a vivência emocional compartilhada com outros. Para os profissionais de saúde, essa habilidade calibrada —o chamado controle executivo da empatia — é essencial para o bem cuidar. Os pacientes se sentem acolhidos quando percebem o compartilhamento solidário de suas dores por parte dos médicos, enfermeiros e outros cuidadores.
    No entanto, raramente os currículos escolares incluem habilidades socioemocionais como essa. E nem sempre as faculdades da área da saúde ensinam aos estudantes as técnicas de modular a empatia no nível necessário para melhor atender os pacientes. Há estudos que mostram melhores níveis de glicemia e colesterol em pacientes diabéticos tratados por médicos empáticos, e aumento da imunidade de pacientes com quadros gripais severos quando percebem o compartilhamento emocional dos profissionais de saúde com as suas dores.
    Uma recente revisão dos estudos sobre empatia esclarece os mecanismos neurais subjacentes. Quando um médico interage com um paciente em sofrimento, ambos ativam as vias neurais da dor de modo semelhante — dos neurônios sensoriais que inervam os pulmões, por exemplo, até as regiões perceptuais do córtex cerebral. Mas há um momento em que a percepção dolorosa tem que gerar comportamentos. Os pacientes produzem movimentos de retração motora, vocalizações e choro. Nos profissionais de saúde não pode ser assim: é preciso controlar esses comportamentos e, ao contrário, liberar as ações de compreensão e cuidado terapêutico. Neste momento, as regiões cerebrais ativas em pacientes e médicos se tornam distintas, e estes entram em ação para curar ou mitigar sintomas.
    Em momentos de crise como o que vivemos, tudo se subverte. O sofrimento das pessoas é extremo, e a pressão empática sobre os profissionais de saúde pode se tornar insustentável, transformando-se em estresse e burnout.
    Os momentos de crise revelam também as pessoas desprovidas de empatia. Forme-se um grupo familiar conduzido sem empatia, ou pior, com frieza e crueldade, e os comportamentos desviantes se tornam prevalentes. Se forem pessoas públicas, como ocorre atualmente no Brasil, o estrago político e social passa a ser enorme.
    Esse é outro ensinamento que poderemos levar da crise que nos assola, para melhor conduzir a reconstrução que nos aguarda. Precisamos inserir as habilidades socioemocionais na educação de nossas crianças e jovens, inclusive os profissionais de saúde. E fomentar a pesquisa científica à altura da importância que a empatia tem para nossa vida.
    No futuro, devemos inserir habilidades socioemocionais na educação dos jovens e dos profissionais de saúde

    Empatia em tempos de crise

    terça-feira, 28 de abril de 2020

    Sem passaporte para o futuro - O Globo - 28 Abril de 2020 - Margareth Dalcolmo Cientista e pneumologista da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz



    Nesse outono de recuo histórico sob o qual olhamos o longínquo dezembro de 2019, há semanas falamos sobre o aprendizado de uma doença inteiramente nova e a avalanche de informação científica e leiga produzida em período tão curto. O mar então recuava, prenunciando as ondas em tsunami. Inapelavelmente.

    Hoje, ainda inundados pela primeira onda e prevendo a segunda — que poderia ser até mais letal, como ocorreu na gripe espanhola no início do século passado —, nos vemos, o Brasil, correndo atrás do tempo e observando o cenário trágico da nossa obscena desigualdade social que a epidemia desnudou.

    No enfrentamento diário da epidemia pela Covid-19, muitas publicações científicas, aprovadas sem o necessário rigor metodológico, viram verdades efêmeras, a não resistir a um olhar técnico experiente, provando que o desespero pode justificar ações heroicas, mas não definitivas. Nesse cadinho de notícia sem profusão sobre a sua magnitude, além de exercícios os mais variados de futurologia sobre o porvir, para nós médicos é um enorme alento cada alta dada a um paciente curado, se intensificando em nossos olhares de alívio as maiores interrogações contemporâneas, em direção ao futuro.

    A cada dia, incorporamos um novo conhecimento sobre a doença e seu curso. O polimorfismo clínico é de uma doença infecciosa, altamente transmissível, marcada por reações inflamatórias e imunológicas, originalmente respiratória e que, na verdade, é sistêmica. Fazem parte desse arsenal de informação a comprovada alta frequência de infecção bacteriana secundária, além de complicações neurológicas tardias, cardiovasculares e hematológicas. Intrigantes, e sem resposta ainda, as evoluções abruptas da enfermidade, verificadas após a primeira semana de sintomas, e o número de mortes domiciliares, cuja gravidade não pode ser detectada a tempo, nem pela pessoa nem pelo serviço de saúde.

    Estudos epidemiológicos de testagem sorológica em amostras de população têm por objetivo determinar o percentual de pessoas que estariam imunizadas no momento, para a cepa viral circulante. Sabe-se, entretanto, que para atingir essa imunidade comunitária ideal precisaríamos ter 60% da população produzindo anticorpos para o vírus, e os testes disponíveis até o momento não trazem essa efetividade. Com isso, nem o passaporte imunológico para o futuro imediato, como um valor de liberdade ou um indicador canônico de capital humano, pode ser expedido.

    À guisa de nos reconciliar com um depois necessariamente novo, lembro Teilhard de Chardin, o grande jesuíta e filósofo. Após seus anos servindo no front francês, na Primeira Guerra Mundial, ele escreveu, em janeiro de 1918, curiosamente pouco antes da primeira onda da gripe espanhola:

    “Será necessário que a humanidade, sob pena de perecer à deriva, se eleve à ideia de um esforço humano específico e integral. Após se deixar apenas viver por tão longo tempo, compreenderá que é chegada a hora de se revelar ela mesma, e fazer o seu caminho”. Nada mais atual.


    Hoje, nos vemos correndo atrás do tempo e observando o cenário trágico que a epidemia desnudou, da nossa obscena desigualdade social.

    Sem passaporte para o futuro