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segunda-feira, 4 de maio de 2020

Anticorpos não são sinônimo de imunidade para Covid-19 - O Globo - 4 de Maio de 2020/NATALIA PASTERNAK

A maioria das pessoas que não trabalha com biologia tem uma visão bastante simplificadade como funciona a resposta imune do corpo humano, da qual os anticorpos fazem parte. No cenário atual, essa compreensão parcial pode gerar tanto preocupação excessiva quanto esperança falsa. Então, vamos olhar a questão mais de perto. Quando o corpo é invadido por um vírus, temos três tipos de resposta: inata, adaptativa celular e adaptativa de anticorpos.

A resposta inata é a primeira. São células mais genéricas, que vão tentar eliminar o corpo estranho, meio que de qualquer jeito. A resposta adaptativa é mais específica, e pode ser celular ou de anticorpos. Os anticorpos, quando tudo corre bem, neutralizam o vírus, além de soar um alerta. Mas, quando o vírus já está dentro da célula, os anticorpos não o percebem. Dentro da célula, os vírus fabricam cópias de si mesmos.

Com a resposta imune celular, a célula contaminada avisa o resto do organismo do problema: denuncia a si mesma, e é eliminada.

Anticorpos são moléculas que se ligam a proteínas que o vírus exibe em seu invólucro. Chamamos de neutralizantes aqueles que, ao fazer isso, dificultam ou impedem a reprodução viral. Mas nem todos são assim: pode haver anticorpos não neutralizantes, que se encaixam no vírus, mas não conseguem detê-lo (e, às vezes, até o ajudam).

No caso do Sars-CoV-2, ainda não temos uma ideia clara da ação dos anticorpos. Recentemente, um estudo na revista “Nature Medicine” indicou que 100% dos pacientes avaliados produziram anticorpos contra a Covid-19. Muita gente comemorou o resultado, e interpretou isso como sinal de imunidade. É até bastante provável —e desejável —que seja isso mesmo. Mas o fato é que ainda não sabemos se todos esses anticorpos serão úteis, e quanto tempo duram.

Levando em conta que o Sars-CoV-2 é bem parecido com o vírus da Sars de 2002, podemos esperar que, contra ele, também produziremos um anticorpo neutralizante que impede que o vírus entre na célula. O anticorpo também chama células do sistema imune que vão ajudar no combate.

Em geral, exames de sangue medem dois tipos de anticorpo, IgM e IgG. Estudos em Sars relacionaram produção precoce de anticorpos à severidade da doença. Ter anticorpos não basta. Precisamos saber se são protetores, e quanto tempo duram. Também precisamos descobrir a relação entre tipos e quantidades, e como se relacionam à gravidade da doença: é possível que anticorpos em excesso, ou na hora errada, piorem o quadro. Tendo essa compreensão, poderemos desenvolver anticorpos monoclonais, que serão neutralizantes e clones, ou seja, todos iguais. Há grupos trabalhando nessa estratégia.

Também sempre testamos se os anticorpos gerados na vacinação são neutralizantes. Às vezes, não são. Uma vacina para Sars falhou em produzir anticorpos neutralizantes em animais idosos.

O sistema imune humano é feito de erros e acidentes selecionados pela natureza. No geral, anticorpos salvam vidas, mas nem sempre: não são “projetados” para isso ou aquilo. A cada nova doença, precisamos da ciência para entender o que, exatamente, andam aprontando.

O sistema imune humano é feito de erros e acidentes selecionados pela natureza. No geral, anticorpos salvam vidas, mas nem sempre.

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