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terça-feira, 5 de maio de 2020

Consciência e ciência sem conflito - O Globo - 5 de Maio de 2020 - A HORA DA CIÊNCIA - Margareth Dalcolmo Cientista e pneumologista da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz

Nesta semana em que se celebram 75 anos da tomada de Berlim pelos soviéticos e da derrota das tropas nazistas pelas forças aliadas na Itália e na Áustria, como publicado nos grandes jornais à época, a noção de tempo nos atropela, e parece estarmos a mencionar um fato histórico bem mais distante. Hoje, com a dimensão do fenômeno que assola todo o planeta, os mesmos órgãos de comunicação anunciam o que poderia ser uma trégua na luta em que nos encontramos, contra o inimigo ubíquo e invisível, um vírus que já dizimou mais vidas do que os 20 anos da Guerra do Vietnã ou a epidemia pelo HIV nos seus primeiros 25 anos. A divulgação do que poderia ser um tratamento possível, pelo menos para as formas graves da Covid-19, em que pesem os desfechos ainda por serem aprimorados, traveste-se de boa nova.

Não se compara a forçados meios de comunicação de outrora com a atualidade, vivendo a primeira epidemia completamente digital. O tamanho do fenômeno midiático é compatível com sua época, ainda que o homem, como ser de consciência, permaneça, felizmente, operando no modo analógico, movido a empatia e compaixão. Se é verdade que o amor ao próximo sofredor inspira o desenvolvimento da ciência, podemos afirmar que, no homem, cientista ou poeta, os métodos criadores são os mesmos. Einstein disse, com seu humor :“Ai maginação é a mais científica das faculdades ”, indicando que nenhuma descoberta nos dá direito a descanso. Um problema ou uma etapa resolvida gera forçosamente uma outra hipótese a ser demonstrada, outra questão a ser respondida. É onde nos encontramos frente ao desafio imposto pela Covid-19 e à espera de uma vacina.

O remdesivir, fármaco aprovado pelo FDA, órgão regulatório norte-americano, para o tratamento de casos graves, é um conhecido antiviral, capaz debloquear a replicação viral, de uso exclusivamente endovenoso, com efeitos in vitro já demonstrados em outros coronavirus, usado nas epidemias da Sars e Mers, e no tratamento do ebola, em África, sem sucesso.

Três estudos para a Covid-19 foram publicados: na China, sem benefício e interrompido por efeitos colaterais; do fabricante, sem grupo controle; e o que gerou a aprovação, incluindo 1.063 pacientes, com mortalidade de 8% contra 11,6% no grupo placebo. Sabe-se assim que os estudos até o momento, mesmo os poucos metodologicamente bem conduzidos, não respondem se este será, isolado ou em associação a outras terapêuticas que atuem em outros alvos do vírus —como anti-inflamatórios biológicos e corticosteroides, anticoagulantes, transferência de plasma de convalescentes —, um tratamento plausível. Ao falar em plausibilidade, há que se considerar variáveis diversas como efetividade de uso no mundo real, segurança, proteção ou quebra de patente, comercialização e, sobretudo, acesso universal. Todas essas respostas deverão se somar ao ganho observado até agora, de redução modesta no número de dias de permanência em terapia intensiva, e eventos adversos controláveis.

No momento agudo em que vivemos, em meio à proliferação de controvérsias, muitas sembas e científica, voltamos a nos indagar se nos enigmas que regem a consciência humana e a ciência não há conflitos, e sim interação, como um amálgama perene. Quero bom senso que os que decidem sobre a vida das pessoas, a fortiori os homens de Estado, mostrem-se sempre firmes, claros, consistentes, justos e, sobretudo, responsáveis. O que nos revelará a nossa história imediata?

Quer o bom senso que os que decidem sobre a vida das pessoas mostrem-se sempre firmes, claros, justos e responsáveis.


  • FONTE: O Globo


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