É primavera… e ainda podemos florescer
Por Deodato Gomes Costa
Escrevi esta reflexão em setembro de 2018, quando a primavera chegava e o Brasil se preparava para votar. Oito anos depois, a estação voltou, outra eleição se aproxima, e me vejo diante da mesma pergunta: como fazer nascer alguma coisa boa em uma terra que tantas vezes parece cansada?
Nesta manhã, voltei a ouvir A Primavera, de Vivaldi. Sempre me impressiona a maneira como a música parece dar movimento à paisagem. Ouço os pássaros, imagino a água correndo, quase sinto a brisa entre as folhas. Há também uma tempestade. Ela passa, e a música continua. Talvez seja por isso que gosto tanto dessa obra: ela me lembra que a beleza da primavera não depende de dias sempre serenos.
No jardim de uma escola, li certa vez uma frase atribuída a Cecília Meireles: “Aprendi com as primaveras a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira.” Guardei essas palavras. Quem cuida de um jardim sabe que a poda pode causar tristeza. Durante algum tempo, o galho cortado parece apenas uma perda. Depois, aos poucos, surgem brotos onde não esperávamos mais nada.
Penso nas podas que a vida nos impõe. Há despedidas que não escolhemos, mudanças que nos assustam e decepções que nos deixam sem vontade de recomeçar. Nem sempre voltamos inteiros no sentido de voltar iguais. Às vezes, voltar inteiro é reconhecer a ferida, receber cuidado e encontrar forças para seguir vivendo com ternura.
Também penso no Brasil. Olho para as famílias que fazem contas antes de ir ao mercado, para os jovens que estudam e procuram uma oportunidade, para os professores que chegam à escola carregando as próprias preocupações e, ainda assim, acolhem as de seus alunos. É por essas pessoas, por suas vidas concretas, que desejo uma primavera para o nosso país. Uma primavera que se perceba no prato de comida, na sala de aula, no atendimento de saúde, na segurança de voltar para casa e na possibilidade de fazer planos.
Em poucos dias, iremos votar novamente. O voto, por si só, não faz florescer um jardim. É preciso acompanhar quem foi eleito, cobrar responsabilidade, cuidar do que é público e participar da vida da nossa comunidade. Mas o voto é um gesto precioso: nele, cada pessoa pode olhar para além do próprio quintal e pensar no chão que todos nós dividimos.
Gostaria que atravessássemos este tempo eleitoral sem perder a capacidade de escutar. Podemos discordar com firmeza e continuar reconhecendo a humanidade uns dos outros. Nenhuma ideia sobre o futuro do Brasil deveria nos tornar indiferentes à dor de quem está ao nosso lado. Se queremos um país mais justo, precisamos cultivar também o respeito nas conversas de casa, no trabalho, na escola e nas ruas.
Quando Vivaldi chega aos últimos acordes, tenho vontade de ouvir tudo outra vez. A primavera faz algo parecido conosco: retorna e nos oferece uma nova ocasião para prestar atenção. Há uma flor pequena no caminho, alguém precisando de companhia, uma criança esperando que a gente acredite nela. Há muito a fazer, e ainda há beleza suficiente para nos dar coragem.
Que esta primavera nos encontre dispostos a cuidar. Que saibamos retirar de nós o que sufoca a vida e preservar o que nos torna humanos. E que, ao escolhermos os caminhos do Brasil, não esqueçamos das pessoas que caminharão por eles conosco.
É primavera… e eu ainda acredito que podemos florescer.