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quarta-feira, 17 de junho de 2020

PANDEMIA Números e vidas (são) incompatíveis Por Margareth Dalcolmo 16/06/2020 - Jornal O Globo


Está claro que a redução sustentada nos números de casos e mortes obtida em países europeus não se deveu a uma desconhecida imunidade comunitária ou de rebanho alcançada nesse período — e sim às variadas formas aplicadas de distanciamento social, de testagem massivas ou de medidas de excelência no controle e na assistência hospitalar. Qualquer artifício ou precipitação, mesmo reconhecendo o desgaste de pessoas individualmente ou nas famílias pelos meses passados em isolamento, não justificaria medidas de flexibilização que rigorosamente não obedeçam aos indicadores de taxa de ocupação de leitos, taxa de transmissibilidade ou RT abaixo de 1,0 e um sistema de saúde capaz de testar grandes grupos de comunidades.
No Brasil, após pouco mais de três meses de epidemia, há que se reconhecer o aprendizado tardio com os países que nos antecederam, de par com números, taxas, indicadores, quase à exaustão, e tóxicos, porque nem sempre claros, contraditórios a depender da fonte, porém todos reiteradamente reveladores do inédito e gravíssimo desafio sanitário, social e econômico. Entre o que já se demonstrou nos estudos sorológicos brasileiros, encontra-se uma substantiva proporção de aumento de infectados entre os testados, a permitir conjecturar, além de uma eventual imunidade cruzada com outros coronavírus, dado à redução do número de suscetíveis presumido, se seria realmente necessário, entre nós, uma imunidade comunitária de 60%, como a que deriva da aplicação de vacinas, ou se poderia ser menor.  
Conceitos epidemiológicos e clínicos precisam cada vez mais ser explicitados para a sociedade civil de modo a não deixar dúvidas: nem todas as formas de disseminação do SARS-CoV2 estão esclarecidas ainda, porém se sabe que assintomáticos, ou o conjunto desses com pré-sintomáticos, podem sim transmitir o vírus, de uma pessoa a outra ou mais, o que mantém atual e recomendável o uso de máscaras como barreira mecânica e proteção de contatos, além de cuidados de higiene. Sabemos por outro lado que a incidência de assintomáticos comparada com sintomáticos carece ainda de determinação, o que poderá ser elucidado com os estudos seriados do próprio comportamento do vírus, testes sorológicos e rastreamento de contatos.
No luto que ora vivemos, em total empatia com famílias e profissionais da saúde, lembramos que a compaixão é a chave mestra de toda a consciência. De todas as grandes epidemias, que acompanham a evolução no planeta nos dois últimos milênios, brotou o melhor da criatividade humana, em todos os domínios. Em meio a tantas angústias sobre o nosso lugar no mundo e futuro, uma certeza: mais do que um sentido intuitivo em relação à ciência como algo abstrato, mudanças de qualidade marcam a disseminação do conhecimento e sobretudo as formas de colaboração entre setores público e privado.  
A Arte da Guerra, clássico de Sun Tzu, do grande século IV AC, escrito numa China em plena efervescência cultural e comercial vai muito além de ser um tratado de estratégia, e é uma lição de sabedoria, atemporal, de arte de viver e filosofia da existência, seguindo a concisão dos grandes textos clássicos. Entre outras ensina  que sem inteligência e bondade é impossível recrutar e dirigir bons seguidores. Muitos outros textos ao longo dos séculos consideraram semelhantes máximas como “um príncipe esclarecido utiliza seus exércitos para eliminar os males que afligem o reino e beneficia o povo com paz e confiança”. Que assim fosse.

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