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quinta-feira, 30 de abril de 2020

Empatia em tempos de crise O Globo30 Abril de 2020A HORA DA CIÊNCIA - Roberto Lent Neurocientista, professor emérito da UFRJ e pesquisador do Instituto D’Or


Para a ciência, empatia é uma habilidade socioemocional de múltiplas faces. Tem um lado biológico e hereditário, determinado por sequências do genoma humano já identificadas. Os bebês desde muito cedo conseguem discernir o sorriso do pranto, imitando-os para refletir a emoção que observaram.
A expressão da empatia é interpessoal: o sorriso do bebê acompanha o sorriso da mãe. Ambos vivenciam a mesma emoção.
A empatia pode ser modulada pela sociedade, capaz de ensinar as pessoas a calibrar a vivência emocional compartilhada com outros. Para os profissionais de saúde, essa habilidade calibrada —o chamado controle executivo da empatia — é essencial para o bem cuidar. Os pacientes se sentem acolhidos quando percebem o compartilhamento solidário de suas dores por parte dos médicos, enfermeiros e outros cuidadores.
No entanto, raramente os currículos escolares incluem habilidades socioemocionais como essa. E nem sempre as faculdades da área da saúde ensinam aos estudantes as técnicas de modular a empatia no nível necessário para melhor atender os pacientes. Há estudos que mostram melhores níveis de glicemia e colesterol em pacientes diabéticos tratados por médicos empáticos, e aumento da imunidade de pacientes com quadros gripais severos quando percebem o compartilhamento emocional dos profissionais de saúde com as suas dores.
Uma recente revisão dos estudos sobre empatia esclarece os mecanismos neurais subjacentes. Quando um médico interage com um paciente em sofrimento, ambos ativam as vias neurais da dor de modo semelhante — dos neurônios sensoriais que inervam os pulmões, por exemplo, até as regiões perceptuais do córtex cerebral. Mas há um momento em que a percepção dolorosa tem que gerar comportamentos. Os pacientes produzem movimentos de retração motora, vocalizações e choro. Nos profissionais de saúde não pode ser assim: é preciso controlar esses comportamentos e, ao contrário, liberar as ações de compreensão e cuidado terapêutico. Neste momento, as regiões cerebrais ativas em pacientes e médicos se tornam distintas, e estes entram em ação para curar ou mitigar sintomas.
Em momentos de crise como o que vivemos, tudo se subverte. O sofrimento das pessoas é extremo, e a pressão empática sobre os profissionais de saúde pode se tornar insustentável, transformando-se em estresse e burnout.
Os momentos de crise revelam também as pessoas desprovidas de empatia. Forme-se um grupo familiar conduzido sem empatia, ou pior, com frieza e crueldade, e os comportamentos desviantes se tornam prevalentes. Se forem pessoas públicas, como ocorre atualmente no Brasil, o estrago político e social passa a ser enorme.
Esse é outro ensinamento que poderemos levar da crise que nos assola, para melhor conduzir a reconstrução que nos aguarda. Precisamos inserir as habilidades socioemocionais na educação de nossas crianças e jovens, inclusive os profissionais de saúde. E fomentar a pesquisa científica à altura da importância que a empatia tem para nossa vida.
No futuro, devemos inserir habilidades socioemocionais na educação dos jovens e dos profissionais de saúde

Empatia em tempos de crise

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