Obra do artista francês Cyril Rolando, que faz arte exclusivamente digital, usando o pseudônimo de AquaSixio.
Existir é sempre viver a mistura de dois sentimentos básicos: alegria e dor. Somos marcados pelo compasso desses dois movimentos. Em alguns momentos, eles se entrelaçam; em outros, um prevalece sobre o outro. O maior desejo humano é que todas as nossas vivências fossem feitas apenas de alegria. Mas isso é impossível. Ah, se pudéssemos congelar os momentos mais prazerosos da nossa vida — e também das pessoas que amamos! Como seria bom fixar no topo da existência os instantes de maior felicidade e permanecer eternamente ali!
Alegria e dor nunca chegam isoladas. Nos momentos mais felizes, há sempre algum traço de tristeza. E, nos instantes de plenitude, surgem pensamentos que nos lembram: existe dor na vida. E é justamente nela que encontramos, muitas vezes, as mais profundas iluminações. A dor que sentimos é dor de vida, de amor, de humanidade. Por incrível que pareça, há momentos em que é a dor que nos salva. Todos sabem disso, ainda que não admitam. Há travessias dolorosas que nos tornam mais fortes, mais conscientes, mais humanos.
Sempre há uma emoção nos chamando para enxergar além do imediato. Arthur Schopenhauer já dizia que nossa referência de felicidade está nos momentos em que nos sentimos infelizes. Todos os dias somos atravessados por situações inesperadas. Ansiedades nos consomem, marcadas por essa dualidade: dor e alegria. Enquanto alguns vivem o luto, outros celebram o nascimento da vida. Um velório e uma festa coexistem, revelando a essência da existência: ela é feita de tudo, como dizia minha mãe.
O final de ano chega carregado de acasos, alegrias, viagens, praias e festas. Um carro sai de casa em busca de mais felicidade e pode retornar carregado de dor.
No último dia de 2019, da minha janela, observo o mesmo cenário: árvores verdíssimas, carros de boi passando, seus sons rompendo o silêncio, e um mormaço sufocante completando a paisagem. É a cidade de pecuária, aparentemente vazia, mas apenas aparentemente. Muitos escolhem ficar. Outros partem em busca de uma virada à beira-mar, alimentando uma ilusão infinita. Pessoas caminham pelas ruas fazendo planos para 2020. Quantos planos de 2019 foram abandonados? Quantos sequer começaram?
Nas redes sociais, multiplicam-se fotos de família, legendadas com alegria. Imagens que parecem esconder ou suavizar as dores sociais: desemprego, ódio, preconceito, desentendimentos. A passagem de 2019 para 2020 vem carregada de um pensamento mágico. Mas será que em 2020 aprenderemos a viver a realidade concreta da vida?
A segunda década do século XXI se aproxima — iniciando-se em 2021 — e seguimos sem aprender. Carregamos um pé no século XX e outro no XXI, mas ainda enxergamos a realidade de forma distorcida. Caminhamos para o fundo dessa caverna que é o mundo, e a iluminação parece inalcançável. Ainda assim, olhamos 2019 com gratidão, mesmo com tudo por resolver. As alegrias sociais ainda estão por ser construídas. O tempo vira, mas as desigualdades permanecem. E 2020 chega trazendo novas questões — saúde, educação, meio ambiente — somadas às que nem sequer entraram nos planos governamentais.
Lya Luft já disse que “falta alegria em nossas vidas”. E talvez ela tenha razão. Reclamamos muito — muitas vezes com razão. Os impostos, o custo de vida, o desemprego, a violência, a falsidade inesperada, a fragilidade das autoridades, nossa própria indecisão. Vivemos mudanças rápidas, enquanto alguns insistem em arrastar valores que já deveriam ter sido superados.
Mas de nada adianta constatar se ficarmos parados. É preciso acordar todos os dias a esperança, renovar a fé e buscar novos horizontes. Os sonhos fundamentais da humanidade ainda não encontraram as condições para se concretizar. A existência segue nessa busca contínua. Não há espaço para acomodação.
A virada de 31 de dezembro não muda a história. É apenas o último dia do ano. A mudança não acontece por mágica. Essa ideia é um “fake” sutil, criado para encobrir a realidade. Nada cai do céu. Tudo é fruto de esforço, de direção, de entrega. Projetamos 100% e, muitas vezes, alcançamos apenas 10%.
Outro “fake” da virada é a mega da virada — uma ilusão coletiva. Uma chance mínima alimentando milhões de sonhos improváveis. O maior desafio, porém, está dentro de nós. Será que continuaremos repetindo os mesmos caminhos, carregando os mesmos pesos?
Os propósitos de ano novo se perdem no cotidiano. O que realmente nos fará avançar é o saber, a ciência, a reflexão — mesmo diante da anticiência e do negacionismo. Precisamos compreender nosso tempo e articular sonhos — ainda que pareçam ingênuos. Pensar a realidade é não viver como manada.
Há possibilidades. Há caminhos. Podemos mudar a história. Mas, se não fizermos isso, continuaremos presos à ilusão da virada, aceitando como normais as injustiças. Não é aceitável discriminar alguém por sua cor, sua condição, sua origem, sua história.
Estamos presos a uma cosmovisão retrógrada, enredados por ilusões. A verdadeira virada é outra: é aquela que exige coragem, utopia, ação. Para transformar o mundo, é preciso imaginar, sonhar e agir — com os pés firmes na realidade.
A alegria é o combustível da vida, mesmo com a dor sempre presente. Há beleza no cotidiano, no calor do dia, na cidade em que vivemos. Vinicius de Morais já disse: “A alegria é a melhor coisa que existe, é assim como a luz no coração.”
Celebramos a virada de 2019 para 2020 com a consciência de que o tempo só muda se nós mudarmos. Chega de sonhos falsos, de viradas ilusórias. Queremos a verdade — aquela que liberta. Como está no Evangelho de João 8:32: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.”
Parafraseando Gabriel Chalita, que nossas palavras no ano novo expressem nossa verdade, não nossas ilusões. Que cultivemos compaixão, respeito e abandonemos a perversidade. Que não causemos dor ao outro com preconceitos e humilhações. A dor que cada um carrega já é suficiente.
É no amor que nos tornamos verdadeiros. É nele que construímos a virada que o mundo precisa.
Feliz 2020!
Por Deodato Gomes Costa

Um comentário:
Caro amigo, você tocou num ponto mto importante da nossa vida. Todos os anos carregamos nas costas as nossas angústias, medos, aflições. Somos bombardeados com tantas informações. Exigem se de nós posturas, trabalhos, correrias, cobranças, e em troca um salário que com muito custo conseguimos sobreviver. E aí vem o final de ano trazendo a beleza e a magia do natal dos homens. Nós revestimos de vários tons para recebermos os amigos, parentes, convidados... Logo a seguir vem a virada com promessas, lindos cartões, mensagens que nos fazem por uns instantes sonhar que haverá uma virada. Mas no dia seguinte percebemos que a virada era fake. E daí? Já gastamos muito. E a verdadeira virada não aconteceu. E agora? Esperar por um novo ano que transcorre seguindo as mesmas mazelas. E compreendemos que nada é mágico. Vamos colocar os pés no chão, a mão na massa, porque a virada só acontece se partir de dentro de você.
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