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quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Manipulação em vídeo é novo desafio eleitoral



Redes tentam reagir a conteúdo falso. Deepfake é novo desafio eleitoral

Gigantes da tecnologia como Google e Facebook se preparam para as eleições de 2020 no Brasil. Um dos principais desafios será conter o uso de vídeos fraudados (deepfake) que simulam declarações de políticos. Robôs serão usados para identificar notícias falsas.

No embate contra disseminação de notícias falsas e robôs na internet nas eleições municipais do ano que vem, as principais redes e plataformas de internet — Facebook, Google, Twitter, WhatsApp e YouTube — investem em mecanismos de checagem de informações, em cartilha e educação para usuários e, recentemente, fecharam acordos e treinamentos com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A Justiça Eleitoral aprovou, na semana passada, punição a partidos ou candidatos que disseminarem conteúdo falso.

Manipulações de vídeos, quando o rosto de um candidato aparece falando algo que não disse, os deepfakes, são o novo alvo de preocupação. Tanto empresas quanto especialistas reconhecem, porém, que o cenário eleitoral pode trazer desafios ainda não previstos, uma aposta também compartilhada por especialistas.

A tecnologia usada nos deepfakes ainda é um entrave. Várias plataformas lançaram desafios públicos para treinar seus sistemas a identificar imagens falsas. Para isso, precisam construir uma base de dados de deepfakes, que ainda não é ampla o suficiente no país para “ensinar” máquinas a reconhecê-los. Quando a máquina identifica uma imagem, cria uma espécie de DNA dela. Toda vez que alguém tenta subir essa imagem, ela é removida.

“Estamos comprometidos em desenvolver as melhores práticas de inteligência artificial para reduzir o potencial de danos e abusos”, diz o YouTube em relação aos vídeos falsos. A plataforma apresentou recentemente dois recursos para evitar a desinformação: avisos que mostram se conteúdos exibidos como resultados de algumas pesquisas são verdadeiros, falsos ou parcialmente verdadeiros, e informações sobre a origem do financiamento de canais. As checagens no YouTube são fornecidas por agências aprovadas pela plataforma.

— Não é simples prever o que se destacará. De 2017 para 2018, todo mundo estava preocupado com o Facebook, que foi a grande questão nas eleições de Donald Trump nos Estados Unidos. Mas, nas eleições do ano passado no Brasil, o grande tema acabou sendo o WhatsApp - lembra Francisco Brito Cruz, diretor do centro de pesquisa em direito e tecnologia InternetLab.

RUMORES VIRAIS

Para ele, 2020 terá uma eleição bem diferente da de 2018, com demandas variadas:

— O número de candidatos está na casa de centenas de milhares. Cidades pequenas, grandes, do Norte, do Sul, terão questões muito distintas. E não há mão de obra para acompanhar de perto 5,5 mil disputas.

As plataformas afirmam que vão aumentar os investimentos em iniciativas como checagem de fatos, treinamentos e cursos de educação digital.

Em outubro, Google, Facebook, WhatsApp e Twitter aderiram ao Programa de Enfrentamento à Desinformação do TSE. Na prática, as plataformas se comprometeram a desenvolver mais ações que combatam a proliferação de informações falsas e a aprimorar as ferramentas de verificação de desinformação para 2020.

Conteúdos que podem enganar eleitores, além de perfis impostores que incentivam determinada posição política, também deram trabalho ao Facebook ano passado e continuam como desafio para 2020. A plataforma não tem política específica para notícias falsas: recebe ordens judiciais para remover conteúdos específicos e as cumpre. Muitas vezes, também, quem compartilha esse tipo de conteúdo viola outras políticas da plataforma, como contas falsas e discursos de ódio, e o conteúdo é removido. O Facebook deve lançar uma função em que posts considerados falsos pela parceria com agências de checagem fiquem com a imagem embaçada.

— Temos feito investimentos para identificar melhor novas ameaças e vulnerabilidades, removendo contas falsas e conteúdos que violam nossas políticas — diz um porta-voz do Facebook. — Temos trabalhado para priorizar o jornalismo profissional na plataforma e para dar mais contexto às pessoas sobre os conteúdos.

Já o WhatsApp afirma que o foco é reduzir os rumores virais, limitando o encaminhamento de mensagens. A plataforma mudou configurações de privacidade para grupos e adicionou um ícone de seta dupla para identificar mensagens encaminhadas frequentemente, como uma corrente de mensagens.

“No mês passado, enviamos ao TSE uma proposta que inclui a proibição expressa de mensagens em massa e outras práticas proibidas pelo WhatsApp e outras empresas de tecnologia em seus termos de serviço”, afirmou a companhia, em nota. Em 2018, 400 mil contas foram banidas no combate à desinformação.

Em 2018, no Twitter, contas automatizadas, os robôs, foram apontadas como propagadoras de notícias falsas. A plataforma diz que vai reforçar o trabalho de verificação de contas. E destacou, para 2020, o apoio ao trabalho do TSE e dos TREs, com treinamentos para juízes e assessores de comunicação, além de um e-mail específico de contato coma Justiça Eleitoral.

A verificação também ganhou espaço no Instagram. Segundo o aplicativo, os usuários receberão um aviso de que determinada publicação é falsa. As postagens terão distribuição limitada, não aparecerão na busca ou pesquisa por hashtag. No lugar, a plataforma vai oferecer links de artigos que desmentem o conteúdo.

O Google afirmou que pretende aprimorar os algoritmos para privilegiar conteúdos de fontes confiáveis e de qualidade na busca e no YouTube. A plataforma fez parcerias para combater notícias enganosas e investe em programas de educação midiática. “Criadores de desinformação nunca param de tentar encontrar novas maneiras de enganar os usuários”, diz o Google, em nota. “Nosso objetivo é formar parcerias e tomar ações que possibilitem lidar com a desinformação de maneira responsiva e adequada”, acrescenta o texto.

“O número de candidatos está na casa de centenas de milhares. E não há mão de obra para acompanhar de perto 5,5 mil disputas” Francisco Brito Cruz, diretor do InternetLab “Enviamos ao TSE uma proposta que inclui a proibição expressa de mensagens em massa” WhatsApp, em nota oficial.

O Globo 25 Dezembro 2019 ELISA MARTINS elisa.martins@oglobo.com.br SÃO PAULO PRESIDENTE DO TRE-RJ BUSCA PLANOS CONTRA FAKE NEWS, NA PÁGINA 6

TSE dará direito de resposta a candidato alvo de fake news - Tribunal também fará campanhas de informação e parcerias com empresas.

Criticado por não conseguir impedir a propagação de fake news em 2018, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) vem adotando medidas como uma resolução que garante direito de resposta contra candidatos e partidos que espalham notícias falsas produzidas por outras pessoas; campanhas de conscientização; e parcerias com empresas de tecnologia.

O trabalho, desta vez, estará mais concentrado nos juízes eleitorais de primeira instância que atuam nos municípios e nos Tribunais Regionais Eleitorais (TREs).

A resolução aprovada pelo TSE em 18 de dezembro, no entanto, tem alcance limitado. O texto prevê que, caso seja verificada a divulgação de informações falsas, o candidato ofendido poderá ter direito de resposta. Segundo o texto, é obrigação dos candidatos, partidos e coligações checarem a veracidade de quaisquer informações veiculadas em suas campanhas, mesmo aquelas produzidas por terceiros. Normalmente, partidos e coligações se defendem afirmando que não foram responsáveis pela produção da informação inverídica.

O ministro Luís Roberto Barroso, que integra o TSE e o Supremo Tribunal Federal (STF), foi o relator da resolução. Na sessão, ele disse que a norma é a “contribuição possível” da Corte.

— Se alguém achar que fake news vai ser enfrentada com decisões dos tribunais, não é assim que vai funcionar. Precisamos da consciência das pessoas e das plataformas —disse.

O ministro Luis Felipe Salomão, que integra o TSE e o Superior Tribunal de Justiça (STJ), afirmou esperar uma “linha mais colaborativa” das empresas em 2020. Mas chamou atenção para o desafio de não ferir a liberdade de expressão.

—Nossa grande preocupação é não impedir o debate, porque qualquer medida a mais pode implicar cerceamento de liberdade de expressão —disse Salomão.

O ministro Og Fernandes, que também integra o TSE e o STJ, diz estar otimista. Para ele, a Justiça Eleitoral está mais preparada em 2020 do que em 2018 para enfrentar a desinformação, e estará mais ainda em 2022:

— Eu vejo que elas (as empresas) podem não censurar, mas atuar assertivamente no sentido de perceber onde há o abuso. Aliás, isso já aconteceu.

Além das fake news, a Justiça Eleitoral poderá ter outras preocupações na eleição, como as candidaturas laranjas, em especial de mulheres.

— A prestação de contas é sempre um problema, a questão de tentar evitar as candidaturas laranjas. Acho que esses são alguns dos temas relevantes —avaliou Salomão.

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