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segunda-feira, 20 de abril de 2020

Pesquisa sem rigor só confunde. O Globo20 abril 2020 - A HORA DA CIÊNCIA Natalia Pasternak Microbiologista, presidente do Instituto Questão de Ciência, pesquisadora do ICB-USP e autora do livro "Ciência no Cotidiano"


Como sabemos que medicamentos funcionam? Usamos testes clínicos. Mas o que são esses testes?
Em meados do século XVIII, um médico da Marinha britânica chamado James Lind conduziu o que pode ser considerado o primeiro deles.
Naquela época, o escorbuto  - que hoje sabemos ser causado por falta de vitamina C — matava mais marinheiros do que as batalhas navais.  Decidido a encontrar a cura, Lind pesquisou diários de bordo antigos e percebeu que navios que transportavam frutas cítricas tinham menos doentes.
Lind conduziu, então, um experimento com 12 marinheiros bem doentes. Eles foram divididos aleatoriamente (“randomizados”) em seis duplas, e cada par teve a mesma dieta, ficou alojado no mesmo local e recebeu os mesmos cuidados. A única diferença era o “remédio”diário: por exemplo, uma dupla recebeu um copo de cidra, outra frutas cítricas e assim por diante.
Em dois dias, os marinheiros que receberam frutas já estavam curados. O que Lind fez foi um esboço de teste clínico randomizado. É possível, na perspectiva atual, apontar várias falhas, incluindo o tamanho muito pequeno da amostra e a ausência de cegamento (tanto pacientes quanto médico sabiam o que cada um estava tomando). Mas o efeito — recuperação plena em dois dias —foi tão forte que ficou óbvio que os cítricos curavam escorbuto.
Voltando aos dias de hoje: em meio à emergência global, muitos perguntam se não podemos apressar as coisas. A questão é se vale a pena. Em ciência, fazer mal feito é trabalho em dobro —estudos ruins confundem, têm de ser detectados e corrigidos.
É fato que um efeito muito visível aparece mesmo em estudos imperfeitos, como o do escorbuto. Mas se o benefício for discreto, só vamos gerar confusão. Com trabalhos bem feitos e confiáveis em mãos, podemos aí julgar se esses efeitos pequenos são úteis. Para afirmar efeitos discretos, precisamos de mais rigor, não menos.
Estudos como o do grupo Prevent Senior, que saiu na imprensa na semana passada, é um em que a perda de rigor destrói a credibilidade do efeito. Há mais erros metodológicos ali do que no trabalho do século XVIII. Lind, ao menos, certificou-se de que todos os marinheiros estavam doentes. A Prevent Senior fez um estudo com pessoas que nem tinham sido testadas para Covid-19. Seria como se Lind tivesse incluído, na amostra, marinheiros apenas fatigados, sem verificar demais sintomas de escorbuto. Nesse caso, talvez a cidra tivesse ajudado mais.
Um importante periódico médico, o British Medical Journal, costuma publicar artigos satíricos no Natal. Em 2018, soltaram um “provando” que não faz diferença usar paraquedas ao pular de um avião. Numa comparação com quem saltou com mochilas vazias nas costas, o resultado foi 0% de ferimentos em ambos os grupos. A análise estatística foi impecável. O detalhe é que o avião estava parado no chão.
Então, antes de acreditar em estudos que provam que tem 0% de morte com o uso de um medicamento, vale conferir, no mínimo, se os pacientes estavam realmente doentes.

Em meio à emergência global, muitos perguntam se não podemos apressar as coisas. Em ciência, fazer mal feito é trabalho em dobro

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