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sábado, 6 de junho de 2020

Ensino de corpo e alma. Artigo de António Fidalgo

Por melhor que seja o ensino à distância, por Zoom, Teams, Meet, Moodle, etc., não deixa de ser um ensaio curto do ensino presencial. A razão é simples. Tão ou mais importante que a aprendizagem formal, de conteúdos programáticos e avaliações, é a aprendizagem informal que acompanha aquela e só possível numa presença de corpo e alma.
A decisão de continuar com o ensino à distância ou a retomada do ensino presencial deve ter também em conta a dimensão do que se perde mantendo docentes e alunos em casa. Mesmo na aprendizagem formal há uma enorme diferença entre os dois tipos de ensino. As matérias podem continuar a ser lecionadas e sumariadas, mas a recepção e assimilação é radicalmente diferente se feita num ambiente caseiro ou se num ambiente feito propositadamente para favorecer a melhor percepção do que se ensina. Desde logo porque a predisposição é diferente. Os tempos e espaços em que dividimos a vida quotidiana precisam de fronteiras claras. Logo em casa diferenciamos os espaços conforme as finalidades; um quarto para dormir, uma sala para estar, uma cozinha para cozinhar, uma casa de banho para lavar-se, etc. A multiplicidade e diversidade da vida impõem essas diferenciações do espaço doméstico. O mesmo vale para as interações sociais; fábricas e escritórios para trabalhar, mercados e lojas para comprar, teatros e cinemas para o lazer, igrejas para rezar, escolas para aprender. Quando nos movimentamos de um para outro lado, fazemo-lo no tempo, com horários que circunscrevem as respectivas ações. Para que possamos dedicar-nos verdadeiramente a algo, precisamos de espaços e tempos dedicados.
Dentro de uma sala de aula, frente a um professor, o aluno encontra-se num ambiente de aprendizagem. Muito diferente do que ocorre em casa, agarrado a um tablet ou frente a um computador, em que a voz e a imagem do professor chegam como muitas outras vozes e imagens, vindas dos mesmos dispositivos eletrônicos. Na sala de aula não são apenas os olhos e os ouvidos do aluno que aprendem, é todo o corpo e alma numa osmose total.
Nunca será de mais realçar o carácter osmótico da aprendizagem escolar. A envolvência imersiva da vivência escolar faz toda a diferença. Estar dentro de uma sala de aula à hora certa para ter uma lição é já meio caminho andado num processo de aprendizagem. Algo semelhante ao que acontece numa sala de cinema, quando as luzes se apagam, se pede silêncio aos espectadores e toda a atenção se concentra no ecrã. O filme, esse pode ser visto em casa, numa televisão, num tablet ou mesmo num smartphone, mas ninguém confundirá a vivência de uma ida ao cinema com o visionamento do mesmo filme num dispositivo doméstico. Quem se desloca a uma sala de cinema e paga o bilhete faz todo um percurso de preparação para o visionamento, e o mesmo se passa com os jovens que saem de casa e vão à escola para aprender. Saem de um ambiente para entrar num novo ambiente, fazem uma mudança de agulhas, assumem uma nova atitude. No ensino presencial temos um ambiente propício à concentração dos alunos (e dos professores!), no ensino à distância temos um ambiente propício à dispersão.
Se no âmbito da aprendizagem formal já há uma perda enorme do ensino presencial para o ensino à distância, então nas aprendizagens informais temos uma perda total. E se são importantes essas aprendizagens informais! Com efeito, não basta o quê, o que se ensina, mas o como, a forma como se ensina. Mais do que as matérias que ensinam são os professores, a sua personalidade própria com características especiais e únicas, que marcam os alunos. São deles que os alunos se lembrarão para o resto das suas vidas, esquecendo a maior parte das vezes o que ensinaram. Mas esta é uma aprendizagem osmótica, obtida inconscientemente, tal como o ar que se respira. E o mesmo se diga da convivência com os colegas. Entrelaçadas com a aprendizagem formal de determinada matéria estão as relações interpessoais dos alunos com o professor e com os colegas. Empatia, simpatia, antipatia, entreajuda, concorrência, atração, amizades, inimizades, conflitos e sua resolução, são elementos constituintes das aprendizagens informais que a escola fornece, e que só podem ser dadas numa convivência presencial.
Ao fim e ao cabo, são as aprendizagens informais que distinguem as escolas umas das outras. O currículo pode ser idêntico, e é-o normalmente, mas é o ambiente de cada escola que a singulariza e a destaca, seja para cima ou para baixo. A apreensão do currículo, dos conteúdos lectivos, pelos alunos é determinada, em grande medida, pelo ambiente que se respira em cada escola. Numa boa escola os alunos movem-se como peixes num aquário feito à medida. Numa má escola, movem-se num aquário, é certo, mas a oxigenação da água é má. Fora da escola, são como peixes fora do aquário, sem água para respirar.
O ensino online é, sem dúvida, um complemento importante à escola nos tempos que correm, tal como o acesso a bibliotecas, mesmo que itinerantes, era um excelente complemento há quarenta ou cinquenta anos. Complementos da formação escolar houve-os sempre e a sua importância não é de escamotear. Mas crer que possam alguma vez substituir um professor de carne e osso no ensino é simplesmente tomar a nuvem por Juno.
António Fidalgo, reitor da Universidade da Beira Interior, Portugal, e destacado pesquisador na área das Ciências da Comunicação, em artigo publicado por Observador, 14-05-2020.

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