Clima escolar: quando a palavra constrói ou destrói o chão da escola.
Um clima escolar saudável se expressa quando as pessoas se sentem seguras, respeitadas, pertencentes e valorizadas. Quando há relações interpessoais baseadas no diálogo, normas claras e justas, organização e confiança mútua. E isso não é detalhe: um clima positivo impacta diretamente a aprendizagem, a motivação, o engajamento e o desenvolvimento socioemocional dos estudantes.
É nesse ponto que a reportagem “A ciência da fofoca: por que gostamos tanto de falar da vida alheia?” nos provoca a refletir sobre algo muito presente no cotidiano escolar: a fofoca e os boatos .
A ciência nos mostra que a fofoca é um comportamento humano antigo, universal, ligado à vida em grupo. Evoluímos trocando informações sobre os outros para nos proteger, criar vínculos e regular comportamentos. O problema nunca foi a existência da fofoca em si, mas o uso que fazemos dela.
No ambiente escolar, quando a fofoca se transforma em boato, ela deixa de ser troca de informação e passa a ser ruído, veneno e desagregação. Boatos nascem de informações incompletas, distorcidas ou mal-intencionadas. Ganham corpo nos corredores, nas salas dos professores, nos grupos de mensagens, e rapidamente alteram o clima da escola.
A fofoca mal conduzida gera insegurança emocional, rompe vínculos, cria desconfiança, fragiliza equipes e desloca o foco do que realmente importa: o processo de ensino-aprendizagem. Professores passam a trabalhar na defensiva, gestores gastam energia apagando incêndios, alunos percebem o ambiente tenso — e aprendem, silenciosamente, que a palavra pode ferir mais do que educar.
A reportagem lembra que boatos funcionam como doenças contagiosas: se encontram um ambiente fragilizado, se espalham com rapidez e causam danos profundos. E a escola, que deveria ser espaço de cuidado, diálogo e formação humana, pode se tornar terreno fértil para conflitos desnecessários .
Por outro lado, a mesma ciência aponta um caminho possível e educativo: reorientar a palavra. Não se trata de silenciar as pessoas, mas de qualificar as conversas. De transformar o impulso de falar em responsabilidade de cuidar.
No contexto escolar, isso significa perguntar antes de falar:
Essa informação contribui para o bem coletivo?
Ajuda a proteger alguém ou apenas expõe?
Resolve um problema ou apenas o amplia?
Estou disposto a falar isso diretamente com quem é citado?
Cuidar do clima escolar é, antes de tudo, cuidar da ética da palavra. É compreender que cada comentário, cada cochicho e cada mensagem enviada constrói — ou corrói — o ambiente em que ensinamos e aprendemos.
Se queremos escolas acolhedoras, seguras e comprometidas com a aprendizagem, precisamos assumir que a palavra do educador educa sempre, mesmo fora da sala de aula. Educa quando promove diálogo, empatia e justiça. E também educa — negativamente — quando espalha boatos, alimenta desconfianças e normaliza a desagregação.
Que possamos, como comunidade escolar, transformar a fofoca em escuta responsável, o boato em diálogo franco, e a palavra solta em palavra que cuida. Porque o clima escolar não se constrói com discursos prontos, mas com escolhas diárias sobre como falamos uns dos outros.
Perguntas para abrir e sustentar o debate na reunião pedagógica:
De que forma as conversas que circulam na nossa escola hoje fortalecem ou enfraquecem o clima escolar?
Quando falamos de alguém que não está presente, estamos ajudando a cuidar da escola ou contribuindo para a sua fragilização?
Se os alunos aprendessem a usar a palavra observando nossas atitudes, que tipo de exemplo estaríamos deixando?
Referências
MOURÃO, Manuela. A ciência da fofoca: por que gostamos tanto de falar da vida alheia? Superinteressante, São Paulo, 19 dez. 2025. Disponível em: https://super.abril.com.br. Acesso em: 08 fev. 2026.
CHARLOT, Bernard. A escola como ambiente humano. Porto Alegre: Artmed, 2013.

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