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segunda-feira, 3 de junho de 2019

Porque os adolescentes se automutilam?


Essa parece ser uma das perguntas mais frequentes da atualidade, especialmente nos contextos familiar e escolar. Pais de adolescentes tem manifestado muita preocupação com o fato de estar aumentando consideravelmente a frequência de autolesões em jovens. Essa temática também é uma constante no contexto escolar, emergindo como uma das maiores preocupações dos educadores.
Frequentemente os temas da automutilação, das tentativas de suicídio e do suicídio são tratados e discutidos por profissionais da saúde mental, mas esses fenômenos não devem ser exclusivamente pensados nesse contexto. Isso porque são fenômenos que ocorrem e são motivados por múltiplas causas, humanas, existenciais e pela interação de fatores individuais e sociais. Na medida em que o individual é coletivo, já que construímos nossas identidades e nos integramos psiquicamente enquanto sujeitos, na relação com o outro, com o coletivo é preciso situar a ocorrência de atos individuais no contexto social no qual ocorrem. Nada que seja da esfera do humano, nem mesmo os transtornos mentais, podem ser pensados exclusivamente pelo viés de um único saber, uma vez que se adoecemos, mesmo que psiquicamente, adoecemos num contexto específico, numa realidade histórica determinada.

Nesse sentido, antes de perguntarmos por que os adolescentes têm se ferido propositalmente, precisamos perguntar antes: quem são os adolescentes em nossa sociedade? Como os tratamos? O que esperamos deles? Estamos à disposição desses jovens em suas angústias? Em nossa sociedade, há espaço para sofrimento, dor e tristeza (falamos um pouco disso aqui)

Para a psicanálise (especificamente a do psicanalista inglês Donald W. Winnicott), ao menos desde os anos 1950 a sociedade ocidental tem cerrado o espaço de manifestação de angústia dos jovens. E, ao menos desde essa época, cada vez mais a tendência no âmbito social (de forma genérica) é tratar a adolescência como um problema, como algo a ser curado. Winnicott lembra que não há cura para a adolescência, já que essa fase do desenvolvimento humano e de preparação para a vida adulta não constitui uma patologia, nem um aborrecimento, mas uma fase de preparação pela qual todos nós, incluindo aqueles que tratam adolescentes como aborrecentes, já passamos. O psicanalista nos lembra, além disso, que o adolescente carrega toda a dinâmica psíquica previamente construída na infância: ou seja, o adolescente exterioriza sua maior ou menor preparação psíquica para a vida, para a construção da identidade e do Ser (próprias da adolescência), mas essa prévia integração psíquica depende de como foi a infância, entre outros aspectos. Aqui, podemos colocar outra questão: de que modo estamos, atualmente, investindo no cuidado e formação psíquica das crianças?
A adolescência é uma fase peculiarmente complexa pois combina diversos fatores que podem ser estressores: fatores hormonais, sociais e os psíquicos. E além desses fatores psíquicos que citamos, cabe salientar que o adolescente busca modos de se fazer sentir real em seu próprio corpo, e, na constituição de sua identidade pessoal, irá se isolar dos pais algumas vezes, buscar entender seu próprio espaço no mundo e no próprio corpo. Esses processos são esperados e nada tem de incomum. A questão é quando isso ocorre com problemas carregados da infância, de frágil constituição psíquica, de cobranças desde a infância para uma existência bem sucedida. É na infância que o potencial espontâneo e criativo se efetua e sem isso, ou com falhas nesse processo, o sujeito pode não conseguir se sentir real, pode se sentir em uma existência de vazio e isso pode emergir na adolescência. Winnicott enfatiza a importância do brincar na infância, mas atualmente as crianças parecem estar cada vez mais tendo seus currículos profissionais construídos. Há justificativas e méritos em investir na formação intelectual desde cedo, mas há também que se pensar nos excessos e nas poucas brechas que muitas vezes as crianças têm para brincar e serem crianças. Há ainda, certamente, que se pensar no caso a caso.
É preciso citar ainda outras variáveis: nossa sociedade é caracterizada por uma racionalidade competitiva, em termos de mercado de trabalho e de marketing pessoal em todos os sentidos. A ideia instituída como imperativo de que: “somos empresários de nós mesmos” nem sempre é declarada, mas estamos sob essa dinâmica e isso é fácil de verificar nos perfis das redes sociais. Só é declarado o melhor de si, o alegre, sorridente e realizador. E é claro que nossa existência não se reduz a isso; essa é uma fantasia perigosa para adultos, para adolescentes pode ser devastadora.

E qual é, então, a relação, a articulação de tudo isso com a automutilação? A automutilação em muitos casos é uma tentativa de transpor ao corpo, ao somático, uma dor que é psíquica e que portanto, é sem medida, é inominável. Pode parecer paradoxal, mas a autolesão pode ser uma tentativa de regulação emocional, de dar visibilidade a uma dor intangível na esfera emocional. É como uma tentativa de fazer a dor do corpo dar realidade ao próprio corpo, ao próprio eu, e silenciar, ao mesmo tempo, a dor psíquica. Se nossos adolescentes estão cada vez mais recorrendo a isso para aliviarem suas angústias precisamos, em resumo, levar em consideração todos os fatores que podem estar contribuindo para o crescimento desmedido de suas angústias psíquicas.  Se o adolescente não encontra espaço para relatar que nem sempre consegue corresponder às expectativas da escola, dos pais e da sociedade sobre ele, pode interiorizar o sofrimento e posteriormente, por não aguentar, exteriorizar essa mesma angústia em seu corpo. O comportamento auto-lesivo pode ser a alegoria de um pedido de ajuda que por diversas razões não conseguiu ser oralmente comunicado. Precisamos, portanto, abrir espaços genuínos para que os adolescentes exponham suas angústias sem serem julgados, deslegitimados ou desrespeitados. E é preciso que eles estejam certos e seguros da estabilidade desses espaços de diálogo e apoio, constantemente.

Por fim, sem dúvidas é preciso que todos estejamos atentos e que haja ações de intervenção no sentido da promoção da saúde mental e do tratamento adequado dessas ocorrências. Mas essas ações necessitam estar interligadas, articuladas a outras discussões mais amplas, em torno da promoção de equidade de direitos a todos, promoção de qualidade de vida e da reflexão ampla sobre a dignidade de vida, incluindo dos modos de vida, de constituição e de educação de nossas crianças e adolescentes. A discussão, passa e ultrapassa o contexto da saúde mental. É de todos.
Flávia Andrade Almeida é Psicóloga Clínica e Hospitalar, Especialista em Psicologia da Saúde, Psico-Oncologia e Prevenção do Suicídio. Atualmente Mestranda em Filosofia pesquisando o tema do suicídio à luz dos escritos de Michel Foucault. Autora do blog e página do Facebook “Psicologia e Prevenção do Suicídio

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