Ao entrar na Quaresma, nesta Quarta-feira de Cinzas, nós podemos nos sentir como uma fênix — mas não aquela majestosa e segura de si. Sentir-nos como um pássaro cansado, que carrega nas asas o peso das próprias contradições.
A fênix morre em chamas e renasce das cinzas. O cristão também. Mas, diferente do mito, nós não renasçemos da nossa força própria. E talvez aí esteja a verdade que mais dói: não somos capazes de nos salvar sozinho.
Quantas vezes entramos na Quaresma com certa altivez silenciosa… Orgulhosos por “ser cristão”, por conhecer a fé, por cumprir ritos, por defender valores. Como se as penas coloridas da nossa religiosidade nos garantissemos altitude espiritual. E então, quase sem perceber, o amor que deveria ser gratidão transforma-se em orgulho. Um orgulho sutil, disfarçado de zelo.
De repente, a queda. A fumaça. A constatação de que a nossa fé, quando se apoia apenas na gente mesmo, queima.
Há uma rachadura na gente. Uma fragilidade que não se cura com discursos, nem com aparência de virtude. A combustão acontece quando nós reduzimos a graça ao nosso esforço, quando pensamos que podemos negociar com Deus, quando transformamos fé em cultura, e não em entrega.
As cinzas na testa nos lembram: sou pó. Mas também nos lembram que o pó pode ser tocado pela misericórdia.
A fênix renasce como se nada tivesse acontecido. A gente não. Nós renasçemos marcado pela memória do nosso limite. E isso é libertador. Porque descubrimos que o perdão não nasce da nossa força, mas do amor que nos precede.
Não damos a vida a nós mesmo. Nós a recebemos.
Não produzimos o perdão. Nós o acolhemos.
Quando escutamos a absolvição pronunciada por uma voz humana, sentimos o peso da culpa se desfazer. Ali, compreendemos que o que era cinza pode se tornar início. Não por mérito, mas por graça.
Talvez a verdadeira Quaresma seja essa travessia: deixar queimar o orgulho, mas proteger as asas da esperança. Cair, sim — mas cair nos braços de Cristo.
Hoje, ao tocar as cinzas, quero não ver apenas o fim. Quero ver a possibilidade de um recomeço humilde.
Não como uma fênix autossuficiente, mas como um cristão perdoado que aprende, todos os dias, a ressuscitar com o Senhor.

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