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sábado, 18 de abril de 2020

Em quem acreditar - O Globo - 17 DE ABRIL DE 2020 - A HORA DA CIÊNCIA Patricia Rocco Médica, professora titular e chefe do Laboratório de Investigação Pulmonar do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho (UFRJ), membro da ANM e da ABC


A cada dia surge nova terapia para a Covid-19. Novos artigos são publicados, novas moléculas são descobertas, novos estudos clínicos vêm sendo realizados. Frente a um artigo, uma droga passa a ser eleita, frente a opiniões, sem nenhuma confirmação científica, associação de drogas passa a ser utilizada. Entretanto, como dizia Albert Einstein, por mais certos que estejamos acerca de alguma coisa, é nosso dever desconfiar, duvidar e procurar sempre novas maneiras de olhar para as certezas que temos.
A realidade é uma só: ninguém sabe o que é a Covid-19, doença que se apresenta de forma multifacetada. O tratamento deve se basear no bloqueio da replicação viral, na redução da inflamação pulmonar e/ou minimizar os distúrbios de coagulação? Os médicos estão tão desesperados, ao se defrontar com tantos óbitos, que utilizam um coquetel de medicamentos para atuar em todas as frentes, por vezes esquecendo que tais drogas também podem acarretar efeitos colaterais.
A angústia não é o sentimento somente do médico que está à beira do leito, mas também do cientista que trabalha intensamente na descoberta de novas terapias, que, até o momento, não foram capazes de modificar a evolução da doença. Não se entende o porquê de células infectadas com o Sars-CoV-2 (vírus responsável pela Covid-19) responderem tão bem às terapias antivirais e, quando administradas no paciente, seu efeito benéfico não ocorrer como se esperava. O Sars-CoV-2 difere do vírus da influenza, que responde bem ao uso precoce dos medicamentos antivirais. Logo, por que os medicamentos antivirais não melhoram a Covid-19? Será que a resposta do hospedeiro (o paciente), após o vírus infectar a célula, é tão rápida que não há tempo para bloquear essa resposta? Será que estamos olhando para o lado errado? Será que estamos vendo somente a ponta do iceberg, focando somente em um único mecanismo, e perdendo a noção do todo?
Temos que ter cautela com as chamadas “opiniões dos especialistas” ou estudos clínicos malfeitos que, por vezes, assustam a população. Há poucos meses, especialistas recomendaram suspensão imediata do uso de inibidores de enzima conversora da angiotensina ou dos receptores de angiotensina devido ao risco de agravamento da Covid-19. Diversos pacientes solicitaram imediata mudança da medicação, ou mesmo suspenderam de forma abrupta, o que agravou a hipertensão arterial sistêmica. Hoje sabemos que não há nenhuma evidência entre a associação dessa medicação e a piora do prognóstico do paciente com Covid-19.
Ante a tantos estudos, estamos ávidos por respostas que, no momento, se resumem a uma frase: “Não temos nenhuma droga comprovada capaz de modificar a evolução do paciente com Covid-19”. Entretanto, mais de 700 estudos clínicos vêm sendo realizados no Brasil e no mundo e, em breve, teremos uma resposta. Vários países já desenvolveram vacinas que vêm sendo testadas. Certamente, há luz no fim desse túnel. Não iremos desistir. Para mim, “vencer é nunca desistir”. A angústia não é somente do médico à beira do leito, mas do cientista que trabalha na descoberta de novas terapias.

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