Este poema é de autoria de Jane Esquerdo, professora de Língua Portuguesa já falecida, que deixou uma marca na educação e na vida de seus alunos. Mulher da palavra e da escuta, Jane tinha o olhar atento de quem enxergava poesia no cotidiano escolar e transformava pequenos gestos em imagens carregadas de significado.
Em Das Canárias, a escola surge como espaço vivo, habitado por passarinhos, ninhos e cantos que simbolizam liberdade, cuidado e aprendizagem. O trinar das aves funciona como metáfora da própria educação: silenciosa às vezes, mas sempre presente, capaz de consolar, alegrar e ensinar.
Republicar este poema é um gesto de memória e respeito. É permitir que a voz de Jane continue a ecoar, convidando novos leitores a ouvir, sentir e se deixar tocar por sua delicadeza poética.
Das Canárias
Jane Esquerdo – Professora de Língua Portuguesa
Caibros de canários, pardais,
bem-te-vis.
Cabem também cotovias e cardeais.
Mas, na manhãzinha, eram apenas dois:
estridentes notas no ar,
saltos leves no muro da escola.
Entre um trinar e outro,
aquelas belezinhas.
Um — ternurinha sonora,
pardalzinho miúdo.
O outro — desprendia melodias
por sobre o janelão aberto ao céu.
O padre, conhecedor dessas notas,
amigo antigo dos passarinhos,
olha e não hesita:
— É uma canarinha, deve ter fugido…
Mas conhece bem sua gaiola.
Lá, deve voltar.
O dono sempre a deixa livre,
sabe do voo.
É assim com esses canarinhos:
pardais, bem-te-vis,
sempre vêm por aqui.
Das canárias?
Nas asas do século trinaram voos:
Ilhas Canárias, Madeira, Açores,
até a Itália — domesticados, sim,
mas nunca inteiramente presos.
É assim…
Canarinhos, colibris, pardais, bem-te-vis
sempre voltam.
E quantos outros trinares cochilam
nos ninhos dos arbustos desta escola…
ovinhos escondidos
no alvoroço dos aprendizes.
Trin…
pisss…
trins…
piss… piss… piss…
Tributo, talvez,
a Caruso de Nápoles,
a Pavarotti,
ou a Bocelli — quem sabe?
Canários trinaram e trinam tenores.
É assim…
Enquanto os alunos não chegam aos ninhos.
Os ninhos guardam segredos —
mistérios delicados do mundo.
Canarinhos, pardais, bem-te-vis,
meus amigos.
Quando me veem tristonha,
são solidários:
cantam para mim
e me devolvem a alegria.

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