Escrevo como pai. E escrever como pai é sempre escrever com o coração um pouco fora do lugar.
Pai e filha se desentendem. Não por falta de amor, mas por excesso dele. Ela chega de férias — estudante de medicina, corpo cansado, mente exausta, alma querendo respirar. Ele, o pai, não queria muito. Queria apenas que ela soubesse. Sou-bes-se. Que férias não são só dormir até tarde, ir à praia ou sair à noite com a prima. Que também cabem duas páginas de leitura por dia. Que a academia foi paga porque o corpo precisa ser cuidado. Que há um conforto silencioso na Missa de domingo. Que um violão pode ser tocado, uma letra baixada, um tempo habitado.
Mas o coração de um pai dói quando escuta: “Eu cresci. Quero curtir. Emagreci. Fiquei presa em mim todo esse tempo. Não vou a lugares onde não me sinto bem”. Dói porque ali não há rebeldia, há afirmação de identidade. E isso exige do pai algo que ninguém ensina: desapego.
Pensei, então: meu Deus, como preciso me tratar. Estou emocionalmente preso à minha filha. Peço coisas que não estão no radar emocional dela. E desapegar dói. Dói porque ela é a própria vida do pai. Chorei. E disse: “Filha, preciso me desconectar emocionalmente de você”.
Em meio ao trabalho, uma chamada de vídeo. Abro o coração. Falo do meu medo, do meu amor, do meu limite. E então vem o pedido que cura: “Perdão, papai. Você está certo. Obrigada. Farei sim”. Cura interior acontece assim: quando dois corações se encontram sem defesa.
Lembrei de Gonzaguinha. “A atitude de recomeçar é todo dia, toda hora”. E também: “Esta menina hoje é uma mulher, e esta mulher hoje é uma menina”.
Talvez seja isso. O pai querendo que a filha soubesse. A filha querendo que o pai soubesse. E, no meio, o amor reaprendendo a caminhar.
Deodato Gomes Costa
@professordeodatogomes

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