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domingo, 22 de fevereiro de 2026

As 4 Hipóteses da Psicogênese da Língua Escrita (Emília Ferreiro e Ana Teberosky)


As 4 Hipóteses da Psicogênese da Língua Escrita

(Emília Ferreiro e Ana Teberosky)

A Psicogênese da Língua Escrita, desenvolvida por Emília Ferreiro e Ana Teberosky, revolucionou a compreensão sobre alfabetização ao demonstrar que a criança não aprende a escrever por simples repetição ou memorização. Ela constrói hipóteses sobre o funcionamento do sistema de escrita. Esse processo é ativo, cognitivo e progressivo.

A seguir, explico cada uma das quatro hipóteses.

1. Hipótese Pré-Silábica

Nesta fase, a criança ainda não compreende que a escrita representa os sons da fala.

Ela acredita que escrever é produzir marcas gráficas variadas, mas não estabelece correspondência entre letras e fonemas. Pode usar letras aleatórias, números ou até desenhos.

Exemplo:
“BOI” pode ser escrito como “XFG” ou “RTI”.

Dois aspectos são importantes aqui:

  • Quantidade mínima de letras: a criança acredita que uma palavra precisa ter um número mínimo de caracteres para “valer” como escrita.

  • Variedade gráfica: evita repetir letras, pois entende que palavras diferentes precisam ter formas diferentes.

Trata-se de um momento fundamental de elaboração conceitual, ainda pré-fonética.

2. Hipótese Silábica

Aqui ocorre um avanço decisivo: a criança descobre que a escrita representa a fala.

Ela passa a estabelecer uma correspondência entre a escrita e as partes sonoras da palavra — normalmente considerando uma letra para cada sílaba.

Exemplo:
“CAVALO” pode ser escrito como “AO” (uma letra para cada sílaba)
ou “KVO” (já tentando aproximar-se do som).

Nesta fase, podem ocorrer dois tipos de escrita:

  • Sem valor sonoro: a letra não tem relação direta com o som da sílaba.

  • Com valor sonoro: a letra representa, ao menos parcialmente, o som da sílaba.

Surge também o conflito com palavras monossilábicas, pois uma única letra parece insuficiente diante da exigência de quantidade mínima que a criança ainda mantém.

3. Hipótese Silábico-Alfabética

É a fase de transição mais rica e cognitivamente intensa.

A criança começa a perceber que a sílaba pode ser analisada em unidades menores (fonemas). Assim, passa a misturar estratégias:

  • Em algumas partes da palavra, mantém a lógica silábica.

  • Em outras, já representa fonemas individualmente.

Exemplo:
“CAVALO” pode aparecer como “CVLO” ou “KAVAL”.

Aqui ocorre forte instabilidade. A criança já percebe que o modelo anterior é insuficiente, mas ainda não domina plenamente o princípio alfabético.

É um período breve, mas crucial para a consolidação da alfabetização.

4. Hipótese Alfabética

Nesta etapa, a criança compreende o princípio alfabético: cada fonema corresponde a uma letra ou grupo de letras.

Agora ela representa as unidades sonoras de forma sistemática.

Pode ainda apresentar erros ortográficos, como:

“KAVALO” em vez de “CAVALO”.

Esses erros não indicam retrocesso, mas sim avanço. A criança já compreendeu o funcionamento do sistema; o que está em construção agora é a ortografia convencional.

Aqui se inicia, de fato, o trabalho ortográfico sistematizado.

Considerações Pedagógicas

Compreender essas hipóteses transforma a prática docente. O erro deixa de ser visto como falha e passa a ser entendido como evidência de pensamento.

Avaliar a escrita infantil exige observar:

  • Que hipótese a criança está formulando;

  • Que conflitos cognitivos já superou;

  • Que desafios precisam ser propostos para avançar.

Alfabetizar, portanto, não é treinar cópias, mas criar situações didáticas que provoquem reflexão sobre o sistema de escrita.

A psicogênese nos ensina algo essencial:
a criança não é um recipiente vazio — ela é sujeito que pensa, formula, testa e reconstrói saberes.

E é nesse processo que nasce a verdadeira alfabetização.

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