As 4 Hipóteses da Psicogênese da Língua Escrita
(Emília Ferreiro e Ana Teberosky)
A Psicogênese da Língua Escrita, desenvolvida por Emília Ferreiro e Ana Teberosky, revolucionou a compreensão sobre alfabetização ao demonstrar que a criança não aprende a escrever por simples repetição ou memorização. Ela constrói hipóteses sobre o funcionamento do sistema de escrita. Esse processo é ativo, cognitivo e progressivo.
A seguir, explico cada uma das quatro hipóteses.
1. Hipótese Pré-Silábica
Nesta fase, a criança ainda não compreende que a escrita representa os sons da fala.
Ela acredita que escrever é produzir marcas gráficas variadas, mas não estabelece correspondência entre letras e fonemas. Pode usar letras aleatórias, números ou até desenhos.
Dois aspectos são importantes aqui:
Quantidade mínima de letras: a criança acredita que uma palavra precisa ter um número mínimo de caracteres para “valer” como escrita.
Variedade gráfica: evita repetir letras, pois entende que palavras diferentes precisam ter formas diferentes.
Trata-se de um momento fundamental de elaboração conceitual, ainda pré-fonética.
2. Hipótese Silábica
Aqui ocorre um avanço decisivo: a criança descobre que a escrita representa a fala.
Ela passa a estabelecer uma correspondência entre a escrita e as partes sonoras da palavra — normalmente considerando uma letra para cada sílaba.
Nesta fase, podem ocorrer dois tipos de escrita:
Sem valor sonoro: a letra não tem relação direta com o som da sílaba.
Com valor sonoro: a letra representa, ao menos parcialmente, o som da sílaba.
Surge também o conflito com palavras monossilábicas, pois uma única letra parece insuficiente diante da exigência de quantidade mínima que a criança ainda mantém.
3. Hipótese Silábico-Alfabética
É a fase de transição mais rica e cognitivamente intensa.
A criança começa a perceber que a sílaba pode ser analisada em unidades menores (fonemas). Assim, passa a misturar estratégias:
Em algumas partes da palavra, mantém a lógica silábica.
Em outras, já representa fonemas individualmente.
Aqui ocorre forte instabilidade. A criança já percebe que o modelo anterior é insuficiente, mas ainda não domina plenamente o princípio alfabético.
É um período breve, mas crucial para a consolidação da alfabetização.
4. Hipótese Alfabética
Nesta etapa, a criança compreende o princípio alfabético: cada fonema corresponde a uma letra ou grupo de letras.
Agora ela representa as unidades sonoras de forma sistemática.
Pode ainda apresentar erros ortográficos, como:
“KAVALO” em vez de “CAVALO”.
Esses erros não indicam retrocesso, mas sim avanço. A criança já compreendeu o funcionamento do sistema; o que está em construção agora é a ortografia convencional.
Aqui se inicia, de fato, o trabalho ortográfico sistematizado.
Considerações Pedagógicas
Compreender essas hipóteses transforma a prática docente. O erro deixa de ser visto como falha e passa a ser entendido como evidência de pensamento.
Avaliar a escrita infantil exige observar:
Que hipótese a criança está formulando;
Que conflitos cognitivos já superou;
Que desafios precisam ser propostos para avançar.
Alfabetizar, portanto, não é treinar cópias, mas criar situações didáticas que provoquem reflexão sobre o sistema de escrita.
E é nesse processo que nasce a verdadeira alfabetização.
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