O Teorema do Guarda-Chuva e a Bússola Quebrada.
Diz o ditado que quem tem boca vai a Roma, mas em Belo Horizonte, quem tem boca — e uma dose cavalar de cara de pau — chega até ao Shopping Cidade sob tempestade.
Nossa expedição pedagógica desembarcou na capital mineira com a nobre missão de discutir a Educação Municipal no Café com Prosa da UNDIME. Éramos 17 almas: 11 diretores de escola, acostumados a domar o caos do recreio, e 6 técnicos da Secretaria, habituados a decifrar planilhas. Mas, diante do labirinto de ruas de BH, viramos todos alunos do prézinho perdidos na hora da saída.
Para nós, cada esquina da capital parecia um déjà vu. "Aquele prédio não é o mesmo de três quadras atrás?", alguém perguntava. A ansiedade batia forte, e o senso de direção era o primeiro a pedir exoneração. No entanto, uma de nossas diretoras — que chamaremos carinhosamente de Dona Audácia para preservar sua ficha funcional — decidiu que o GPS é para os fracos e que a aventura é o melhor plano de aula.
A Estratégia do "Uber Humano"
Tudo começou com a tecnologia. Dona Audácia baixou o aplicativo de transporte, mas a interface parecia mais complexa que o fechamento do ano letivo. Sem paciência para ícones giratórios, ela simplesmente abordou um senhor que passava, um desconhecido que provavelmente só queria comprar um pão de queijo em paz.
"Meu senhor, faz um favor? Chama esse tal de Uber pra mim que eu não estou sabendo domar esse bicho", disparou ela, entregando o celular na mão do estranho com a confiança de quem entrega uma prova para o aluno corrigir.
O homem, dividido entre o medo e a perplexidade, operou o milagre digital. E lá se foi ela, vitoriosa, deixando o pobre senhor parado na calçada tentando entender se tinha acabado de ser contratado como assistente pessoal não remunerado.
Cantando (e Invadindo) na Chuva
A caminho do Shopping Cidade, o céu de BH resolveu testar os limites da hospitalidade mineira. Desabou o mundo. Qualquer pessoa normal procuraria uma marquise, mas Dona Audácia tinha um penteado a zelar.
Ao avistar um jovem que caminhava tranquilamente sob seu guarda-chuva, ela não hesitou. Encostou no rapaz, entrou debaixo do abrigo e sentenciou:
— "Moço, não posso molhar o cabelo. Vou seguir com você, tudo bem?"
O rapaz olhou para o lado, viu aquela entidade pedagógica compartilhando seu espaço vital e, num misto de pânico e educação mineira, apenas assentiu. Caminharam como velhos amigos, ou melhor, como um satélite e seu planeta, até o destino seco. O jovem certamente terá histórias para contar na terapia; Dona Audácia só ganhou um cabelo impecável.
A Odisseia do Quinto Andar
Já dentro do Shopping Cidade, a missão era o cinema. Subimos e descemos os cinco pisos tantas vezes que poderíamos ter sido homologados como atletas de step. O cinema era uma lenda urbana, um oásis que recuava a cada escada rolante.
Foi então que ela, em um novo surto de iluminação prática, resolveu perguntar. A resposta veio como um enigma de esfinge:
— "Tem que pegar o elevador direto para o piso 5."
No elevador, o ápice do drama. Na hora de sair, a hesitação. As portas começaram a fechar e Dona Audácia, num reflexo de mestre de esgrima, sacou o fiel guarda-chuva e o enfiou entre as portas para detê-las. O sensor, moderno e exigente, ignorou o objeto inanimado e continuou o fechamento.
— "Uai, mas não para?!", exclamava ela, enquanto tentávamos explicar que o elevador tinha padrões éticos e só respondia ao toque humano, não a acessórios de nylon.
No fim das contas, entre risos e quarteirões idênticos, aprendemos que a Educação Municipal vai bem, mas a nossa capacidade de navegação urbana precisaria de uma recuperação intensiva. BH continua linda, os prédios continuam iguais e Dona Audácia... bem, ela provavelmente já está planejando como pegar carona em um helicóptero usando apenas um sorriso e um crachá da UNDIME.

Nenhum comentário:
Postar um comentário