Turmas multisseriadas: uma pedagogia para a diversidade das aprendizagens
Quando bem implementada, a multisseriação pode ser um fator favorável às aprendizagens
Por Tereza Perez e André
Lázaro* | O
fenômeno da urbanização no Brasil foi uma das características mais marcantes do
século 20. Na década de 1960, a população urbana ultrapassou a rural e a ideia
da vida no campo ganhou, injustamente, uma apreciação negativa, virando sinônimo
de atraso e anacronismo nos tempos modernos. Hoje, observamos, entre outras
consequências desse fenômeno, o inchaço das cidades e a substituição das
pequenas propriedades rurais por latifúndios dominados pela monocultura.
Essas aceleradas transformações tiveram impacto direto nas escolas do
campo. Em função da baixa densidade populacional em determinadas localidades,
não havia quantidades de alunos da mesma faixa etária suficientes para compor
séries e surgiu assim a alternativa das turmas multisseriadas. Atualmente são
aproximadamente 1,2 milhão de estudantes, presentes em quase todas as unidades
da federação (Censo, 2019).
As multisseriadas são muitas vezes vistas como uma solução precária à
luz dos desafios que enfrentam para assegurar uma educação de qualidade: grande
rotatividade docente pela precariedade do vínculo, falta de acompanhamento das
secretarias de educação em função das distâncias, condições estruturais
precárias, além da própria complexidade no manejo das aprendizagens de
estudantes de idades e “séries” diferentes.
Um olhar menos contaminado, no entanto, permite perceber a potência de
um modelo que, em período de pós-pandemia e escancaramento das desigualdades de
oportunidades, reconhece a diversidade inerente a toda sala de aula. A
multisseriação, quando bem implementada, pode ser um fator favorável às
aprendizagens.
Dessa forma, a ideia de que as turmas multisseriadas são um modelo a ser
superado que deve avançar para o modelo seriado, vem sendo questionada por
alguns autores (Terigi, 2014). Argumentam que a crise no nosso sistema de
ensino tem origem em uma tentativa de homogeneizar os estudantes por
desconsiderar a diversidade e a heterogeneidade presentes em toda sala de aula.
É essa ideia de precariedade que guia a tendência de nucleação, iniciada
nos anos 70. A nucleação consiste em deslocar estudantes de escolas com salas
multisseriadas para escolas centrais na cidade. Assim, ao invés de se criar as
condições para que essas crianças tenham um bom ensino no lugar onde vivem,
opta-se por levá-las por transporte escolar para unidades muitas vezes
distantes de suas casas, dificultando a participação das famílias na vida
escolar dos filhos. A escola também é parte da vida comunitária no campo,
exerce importante papel na socialização das famílias, é centro de articulação e
convivência e tem impacto na economia local, já que emprega parte da população
e compra alimentos de produtores locais para a merenda escolar.
A literatura acadêmica sobre o tema aponta, ainda, que a valorização da
estrutura seriada – orientadora das políticas educacionais e dos planejamentos
de ensino – faz com que práticas pedagógicas baseadas nesse princípio sejam
reproduzidas em multisseriadas, o que limita a potência de uma sala composta
por estudantes de diferentes idades e frustra a possibilidade de agrupamentos
que ampliam as oportunidades de aprendizagem entre pares.
Dessa forma, é preciso reavaliar a tendência de nucleação que muitas
redes estão seguindo e promover um deslocamento que traga a proposta das
multisseriadas para o centro das políticas públicas educacionais. Este modelo
pode inspirar estratégias pedagógicas capazes de dar maior sentido às
aprendizagens de todas as crianças e adolescentes, o que garante, de fato, o
direito à educação.
*Tereza Perez, diretora-presidente
na Roda Educativa. André Lázaro,
diretor de Políticas Públicas da Fundação Santillana, foi secretário da Secadi
(Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão) do
Ministério da Educação.
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