IA na educação não
substitui professores, amplia o valor das competências humanas
Com novas
discussões no país, IA tende a assumir tarefas operacionais e reforçar o papel
do professor como mediador e construtor de vínculos na aprendizagem
Por Karen Cristine Teixeira* | O debate sobre o
uso da inteligência artificial (IA) na educação brasileira começa
a ganhar contornos institucionais. O Conselho Nacional de Educação (CNE) está
elaborando as primeiras diretrizes nacionais para orientar o uso pedagógico da
IA em escolas e universidades, um marco regulatório inédito no país. A proposta
busca estabelecer princípios para o uso responsável da tecnologia, incluindo
formação docente, ética no uso de dados e preservação do papel central do
professor no processo educativo.
Mudanças
no papel docente são uma constante.
É importante contextualizar que a docência e a educação estão em
constante transformação. As concepções da pedagogia tradicional (ênfase
conteudista expositiva na qual o professor estava no centro do processo de
ensino-aprendizagem) foram sendo repensadas e deram espaço ao paradigma contemporâneo,
cuja evidência de êxito não é mais apenas a cobertura do conteúdo, mas uma
aprendizagem significativa que põe o estudante no centro e vê o professor como
curador, orientador e mediador. Esse papel vai sendo revisto para responder aos
objetivos da educação num dado tempo, numa dada sociedade e num determinado
contexto.
Competências docentes tradicionalmente valorizadas, como o domínio do
conteúdo, clareza expositiva, organização e controle da turma continuam sendo
importantes, mas não dão conta de instrumentalizar e apoiar o professor para o
exercício dessa profissão tão complexa e multifacetada. Com a mudança de
paradigma e a valorização do socioemocional, ganham destaque competências como
comunicação dialógica, colaboração, empatia, resiliência emocional,
flexibilidade, pensamento crítico, entre outras.
O que muda com a chegada da IA?
A IA vem para apoiar o professor em diferentes tarefas, dado seu
potencial para a automação sobre tarefas repetitivas e a ampliação das
competências docentes. Com esses dois movimentos cresce ainda mais o valor das
competências “humanas” e o professor ocupa menos um lugar de executor e mais um
papel gestor, decisor e mediador do processo de ensino-aprendizagem.
Onde a IA pode apoiar mais e o que permanece
essencialmente humano?
Em tarefas administrativas, como organização de registros e
planejamento, sistematização de informações e geração de materiais-base. Assim,
o tempo que o professor levaria para realizar tarefas repetitivas e
burocráticas (ou aquelas nas quais a IA tem um potencial expandido de
contribuição) pode ser investido em gerir o processo de ensino-aprendizagem,
com observação, estratégia, acolhimento, diálogo, acompanhamento e reflexão.
Já ocorre uma atuação concreta da IA na personalização da aprendizagem.
Adaptar níveis de dificuldade de acordo com a proficiência do estudante,
produzir e ajustar conteúdos e atividades diversas, criar formas alternativas
de trabalhar o mesmo tema. A IA consegue identificar padrões de erro e propor
exercícios específicos para determinadas lacunas. No entanto, é importante
dizer que ela adapta o ritmo e a forma, mas não decide o sentido da
aprendizagem. Ela pode sugerir caminhos, mas não determina por que aprender,
para que aprender ou o que é relevante naquele contexto específico e para
aquelas pessoas.
Outro destaque para a IA diz respeito a feedback rápido e contínuo.
Correções automatizadas de atividades objetivas, devolutivas imediatas em
ambientes digitais e relatórios de desempenho são cada vez mais comuns. Essa
agilidade pode ser extremamente valiosa para monitorar progresso e ajustar
intervenções. Contudo, uma devolutiva pedagógica também envolve observação,
percepção de sinais sutis ou ambíguos, interpretação, análise do contexto,
empatia, encorajamento, entre outras competências por parte do educador.
Há dimensões fundamentais do trabalho docente que a IA não substitui,
pois cabe ao professor as decisões sobre o processo de ensino e aprendizagem e
a intencionalidade pedagógica. Além disso, a IA não constrói vínculos
pedagógicos nem assume responsabilidade pelo outro. Empatia envolve compromisso
humano; julgamento ético exige decisões orientadas por valores; liderança
pedagógica implica inspirar, mediar conflitos, saber regular as emoções e
responder pelas escolhas educacionais. Adicionalmente, a criatividade docente é
situada, orientada pelo contexto e pelas necessidades dos estudantes.
Ao mesmo tempo a IA pode ampliar competências docentes importantes. Ela
fortalece o pensamento crítico ao exigir avaliação das sugestões geradas, apoia
a tomada de decisão baseada em evidências ao organizar dados educacionais e
pode favorecer a diferenciação pedagógica e a experimentação criativa. Nesse
cenário, a IA deve ser entendida como parceira do professor, não como
substituta, preservando a centralidade da responsabilidade e do julgamento
profissional docente.
Para saber mais
Confira a seguir alguns exemplos de onde a IA pode apoiar mais e o que
segue sendo expertise do professor.
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Exemplos |
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Onde a
IA pode apoiar mais |
O que
segue expertise do professor |
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Geração
de ideias de atividades e planos de aula; sugestão
de sequências didáticas; criação de materiais
multimodais; organização de conteúdos por
objetivo; sugestão de estratégias de
engajamento; analise de padrões de
participação (em ambientes digitais); sugestão de estratégias e
atividades para potencializar o vínculo e autorregulação emocional; geração de conteúdo/leituras
para apoiar a ação docente; apoio à análise de feedback; sugestão de pontos de melhoria; apoio à registros reflexivos; geração de estratégias de
ensino e comunicação alternativas; |
Decidir
o que fazer para um grupo em específico; ajustar o planejamento com base
em clima escolar, perceber emoções, cultura da turma e acontecimentos
imprevistos; ler micro sinais emocionais ou
sinais ambíguos; entender silêncios,
resistências e constrangimentos situados; julgar adequação cultural, etária,
emocional (para o estudante real); integrar criatividade com
intencionalidade pedagógica; perceber como as atividades são
recebidas e o que, de fato, motiva; relacionar-se de forma genuína; cultivar interesse autêntico
pelos estudantes; promover presença afetiva;
escutar de forma ativa e empática; reconhecer/acolher sofrimento e
emoções; crer no potencial de desenvolvimento; gerenciar frustação; lidar com conflitos; sustentar a presença emocional
ao longo do tempo e ensinar pelo exemplo; refletir e significar sua
prática docente; atribuir sentido, valores e
metas à profissão; decidir quando, para quem e por
quê; realizar julgamento pedagógico; ler o contexto; tomar de decisão sob incerteza; construir identidade docente e
sentido no trabalho; atuar com responsabilidade
social; estabelecer relações de
confiança com a comunidade escolar; comunicação sensível; mediar expectativas e
conflitos; construir comunidade. |
Para conhecer um pouco mais sobre o modelo organizativo de
competências relevantes ao fazer docente do Instituto Ayrton Senna, consulte o
artigo
“More than just experience? Effects of years of teaching,
age, and gender on teachers’
social-emotional and instructional characteristics” disponível
em: https://doi.org/10.1016/j.tate.2025.105203
*Karen
Teixeira é gerente de pesquisa do Laboratório de Ciências para
Educação (eduLab21) do Instituto Ayrton Senna. Psicóloga, mestre e doutora em
Psicologia com ênfase em avaliação psicológica em saúde e desenvolvimento pela
Universidade Federal de Santa Catarina.

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