Bullying

domingo, 15 de março de 2026

Sobre a vontade de ler POR ISMAEL LÓPEZ GÁLVEZ.

Sobre a vontade de ler

POR ISMAEL LÓPEZ GÁLVEZ

Há algum tempo ouvi Manuel Vicent dizer que existem duas formas de ler: de barriga para cima e de barriga para baixo. A primeira suporia uma leitura lúdica, hedonista, de sofá, cama ou praia, de puro prazer e passatempo; a segunda envolveria uma abordagem mais profunda, dir-se-ia estoica, de cadeira e escrivaninha, com os cotovelos sobre a mesa. O escritor defendia — talvez acertadamente — que a leitura que nos faz voar é, sem dúvida, a primeira. E não lhe falta razão. Assim, por exemplo, muitos de nós cruzamos o Egito antigo de Sinuê, embarcamos no Nautilus, perseguimos Moby Dick ou habitamos a Fantasia, a Terra do Nunca, a Ilha do Tesouro e outros sonhos e narrativas que nos divertiram e dignificaram. São, na realidade, milhões de pessoas que vivem hoje na imaginação oferecida pelo legado mais acessível do junco, onde cada manifestação, por mais medíocre que pareça a alguns, é digna de louvor na medida em que faz viver aqueles a quem a vida falha.

Dito isso, e descartada qualquer posição elitista, gostaria de reivindicar justamente a segunda: esse ler exigente na seleção e exigido por sua indispensabilidade. Pois, às vezes, embora não acreditem, os livros não têm que proporcionar prazer (pelo menos não imediato). De fato, há textos de extrema necessidade — que coincidem quase sempre com os considerados "clássicos" — que demandam um esforço considerável, uma intelectualidade desafiadora, uma leitura tão sossegada quanto crítica e ativa, e cujo contrato promete nos amar se também estivermos dispostos a aprender a amá-los. Emilio Lledó escreve que "se nos acostumarmos a ser inconformistas com as palavras, acabaremos sendo inconformistas com os fatos". Certo: a não aceitação do que é dado consiste em segurar, muitas vezes, o que nos move, e essa postura apela à vontade. Digamos que ela não foca no que os livros podem fazer por nós, mas no que estamos dispostos a entregar por eles. Este é o motivo pelo qual defender os clássicos a partir de seu divertimento ou entretenimento imediato quase sempre termina em fracasso.

Os textos que sobreviveram ao tempo, que se provaram contra o esquecimento, a tirania e a barbárie, alcançaram um status de sacralidade. No entanto, a distância que separa o tempo deles do nosso pode parecer intransponível: em ocasiões, sua forma profunda, densa e sóbria de nos revelar o terror que nos produz saber quem somos contrasta com a superficialidade que buscamos hoje, com a vacuidade que conseguiremos amanhã. Não pretendo enganar ninguém: "sagrado" e "sacrifício" compartilham a mesma raiz, indício claro de que, como apontou Platão, o bom é difícil (χαλεπὰ τὰ καλά). Séculos depois, Sêneca imortalizou também seu "Non est ad astra mollis e terris via": "Não há caminho fácil da terra às estrelas". Chesterton não estava equivocado: "as novas ideias são apenas fragmentos quebrados de velhas ideias".

Como Luis Alberto de Cuenca, não acredito na dicotomia entre alta e baixa literatura; apenas na boa e na má. Isso significa que uma grande história em quadrinhos pode ser tão nutritiva para a alma quanto um excelso tratado filosófico; e um péssimo poema tão nefasto para a emotividade quanto um insosso romance policial. Não é questão de gêneros, mas de qualidades. E o sublime, por ser sublime — isto é, por estar abaixo do que está, do que é evidente, por ter uma profundidade admirável —, necessita habitualmente de um trabalho de mina, de suor. Mark Twain dizia que um clássico é um livro que todo mundo quer ter lido e ninguém quer ler. Normal, o esforço enobrece, mas não costuma agradar. Apenas a recompensa última — se houver — poderia aliviar a fadiga. Portanto, a vontade, entendida como a capacidade para levar a termo decisões livres submetidas à razão, torna-se indispensável na hora de nos entregarmos a certas obras; sobretudo quando sua dificuldade emerge e seu divertimento é adiado ou, pior ainda, não aparece.

Lamento ter destruído o romantismo que se atribui à literatura; no entanto, há escritos fundamentais cuja essência não é deleitar. Acontece o mesmo com a árvore: sua espessura permite que o pássaro cantor se esconda da ave de rapina, mas esse não é o seu telos, seu propósito, senão, quem sabe, uma consequência inesperada.

Vejam bem, diante da pergunta "O que é o mais difícil de conhecer?", a única resposta possível para a escola pitagórica era "Conhecer a si mesmo". Ora, um clássico — seja ele antigo, moderno ou contemporâneo — é, como definiu Italo Calvino, aquele texto que serve para definirmos a nós mesmos em relação e, talvez, em contraste com ele. Resulta lógico, então, que envolva alguma complexidade, que nos exija como leitores e seres humanos.

Por conseguinte, o mínimo que podemos fazer diante de tamanha recompensa é resistir, nos responsabilizar, perseverar na leitura mesmo quando esta seja ou se torne árdua; não esquecer que houve homens e mulheres que nos ofereceram barcos robustos para navegar os maus tempos, mapas que nos indicaram o caminho para o que fomos, para o que somos e seremos, tanto em sua vileza quanto em sua bondade. "Com os clássicos — diz-nos Irene Vallejo — você se sente em casa". E um lar se cuida, não se abandona ao primeiro inconveniente. Pois, se algo a história do fogo nos ensinou é que, para sentar-se ao calor da fogueira, deve-se adentrar na floresta fria e recolher a lenha com frutífero e habilidoso empenho. Assim: a vontade de ler.

Nenhum comentário: