Bullying

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

 





Devemos dizer "não" para as coisas que não importam

MATEUS SALVADORI
Professor de Filosofia

Uma das coisas mais difíceis de fazer na vida é dizer "não": não para convites, não para pedidos, não para obrigações que parecem urgentes, não para aquilo que todo mundo está fazendo. Mais difícil ainda é dizer "não" para certas emoções que consomem tempo: a raiva que nos faz remoer o passado, a empolgação que nos distrai, a obsessão que nos desgasta, a distração que nos rouba presença.

Nenhum desses impulsos parece grande coisa isoladamente, mas, juntos, se tornam um compromisso, como se você tivesse assinado um contrato invisível de desperdiçar seus dias. Byung-Chul Han, em "Sociedade do Cansaço", explica que hoje o inimigo não está fora, mas dentro de nós. Tentamos nos superar o tempo todo, dizendo "sim" a cada nova meta e desafio, até quebrarmos por dentro. Essa autoexploração leva a doenças como ansiedade, depressão e burnout. O excesso de positividade e produtividade não liberta, apenas nos deixa mais cansados e culpados.

Essa sensação de perda não é nova. Há dois mil anos, Sêneca já alertava que muitos só percebem tarde demais o quanto de tempo foi desperdiçado com coisas inúteis. Ele nos provoca a refletir: "Quantas vezes outros roubaram a sua vida enquanto você não percebia o que estava perdendo, quanto foi desperdiçado em uma dor vazia, uma alegria boba, um desejo ávido, uma conversa falsa. Você entenderá que morria de modo prematuro." (Sobre a brevidade da vida, 3.3)

Dizer "não" pode incomodar. Pode decepcionar pessoas, fechar portas, gerar incômodos. Mas quanto mais você diz "não" ao que não importa, mais espaço cria para o que realmente importa.

É como no filme "Sim Senhor", com Jim Carrey: o personagem decide dizer "sim" para tudo e, no início, é divertido, mas logo fica sobrecarregado e sem tempo para si. Só encontra equilíbrio quando percebe que também precisa aprender a dizer "não".

Sêneca provoca de novo: "Você ouvirá muitos que dirão: 'quando eu tiver cinquenta anos, me aposentarei; aos sessenta anos, me retirarei dos cargos'. E quem garante que terá uma vida tão longa? Quem aceitará que as coisas aconteçam de acordo com o que deseja? Não sente vergonha por reservar para si essas sobras de vida e destinar ao exercício da boa mente apenas este tempo que não podia ser usado para mais nada? Quão atrasado é começar a viver quando a vida está para terminar!" (Sobre a brevidade da vida, 3.4).

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