Estoicismo: o que a filosofia antiga ensina sobre viver em um mundo que não controlamos
Os ensinamentos de Epicteto, Sêneca e Marco Aurélio continuam inspirando reflexões sobre as dificuldades, o cuidado e a maneira como respondemos aos acontecimentos.
Texto adaptado da reportagem de Mônica Vasconcelos, da BBC News Brasil em Londres, publicada em 30 de dezembro de 2024.
Como viver uma boa vida em um mundo imprevisível? Como fazer o melhor dentro das nossas possibilidades e, ao mesmo tempo, reconhecer aquilo que escapa ao nosso controle?
Essas perguntas atravessam o estoicismo, filosofia que se desenvolveu na Grécia e na Roma antigas e que tem entre seus representantes mais conhecidos Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio. Apesar da distância histórica, seus ensinamentos continuam despertando interesse entre pessoas que procuram enfrentar as dificuldades com mais equilíbrio.
Na reportagem da BBC News Brasil, o neurologista Fábio Porto conta como encontrou nessa filosofia uma maneira de lidar com momentos difíceis de sua vida pessoal e profissional. Também explica como algumas dessas reflexões aparecem em seu trabalho com pacientes com demência e seus familiares.
Os acontecimentos e a maneira como os interpretamos
O primeiro contato de Porto com o estoicismo aconteceu por meio da Terapia Cognitivo-Comportamental, conhecida como TCC, que procurou como paciente.
Ao explicar essa aproximação, o médico destaca a relação entre nossas interpretações e as emoções que sentimos. Uma situação pode provocar sofrimento tanto pelo que acontece quanto pelos significados que atribuímos a ela.
Essa reflexão encontra uma expressão conhecida no Manual de Epicteto:
“Não são as coisas que perturbam as pessoas, mas os pareceres a respeito das coisas.”
O convite é examinar os julgamentos que fazemos. Uma dificuldade pode levar alguém a concluir que sua vida perdeu o valor ou que já não existe qualquer possibilidade de felicidade. Questionar essa conclusão pode abrir espaço para outras maneiras de compreender a experiência.
Compreender para acolher uma nova realidade
No atendimento a pessoas com demência, Porto destaca a importância de compreender a doença. Segundo ele, conhecer o que está acontecendo ajuda pacientes e familiares a reconhecer que as dificuldades de memória não resultam simplesmente de falta de esforço ou atenção.
Esse entendimento pode diminuir cobranças e sentimentos de culpa, favorecendo uma convivência mais acolhedora.
O médico também questiona a associação entre o valor da vida e a capacidade de realizar uma atividade específica. Deixar de dirigir, por exemplo, pode representar uma perda importante de autonomia. Entretanto, isso não significa que todas as possibilidades de prazer, convivência e realização tenham desaparecido.
Na perspectiva apresentada por Porto, reconhecer uma limitação permite procurar outras formas de viver com significado.
O que depende de nós?
Uma das principais lições estoicas consiste em distinguir aquilo que depende de nossas escolhas daquilo que não conseguimos determinar inteiramente.
Podemos trabalhar sobre nossos julgamentos, orientar nossa conduta e procurar responder aos acontecimentos com mais cuidado. Já a opinião dos outros, o reconhecimento público e muitos resultados da vida escapam ao nosso domínio.
Essa distinção não dispensa o esforço. Ela ajuda a direcioná-lo para aquilo que podemos fazer.
Porto relaciona essa orientação às quatro virtudes tradicionalmente associadas ao estoicismo:
Sabedoria: avaliar as situações e reconhecer os limites de nossas possibilidades.
Justiça: tratar as pessoas com respeito e considerar suas necessidades.
Coragem: enfrentar as dificuldades e assumir as responsabilidades que nos cabem.
Temperança: moderar os impulsos e agir com equilíbrio.
Essas virtudes oferecem critérios para a conduta, inclusive quando as circunstâncias não correspondem aos nossos desejos.
O sofrimento que chega antes dos acontecimentos
Outra questão abordada na reportagem é o sofrimento antecipado.
Ao imaginar dificuldades futuras, uma pessoa pode começar a vivê-las emocionalmente antes que aconteçam. No contexto da demência, Porto menciona preocupações com a possibilidade de depender de um cuidador ou de enfrentar limitações maiores.
O médico defende que o cuidado também envolva ajudar a pessoa a reconhecer as possibilidades que ainda existem no presente.
Essa reflexão se aproxima dos ensinamentos de Sêneca sobre a inquietação diante do futuro. Planejar é necessário, mas a preocupação constante pode ocupar o espaço das experiências que ainda podemos viver.
Estar atento ao presente permite valorizar uma conversa, um encontro familiar ou uma atividade prazerosa. Também ajuda a perceber que o futuro imaginado não é idêntico à realidade de hoje.
O cuidado com quem cuida
A demência afeta também os familiares. Filhos, companheiros e outras pessoas próximas enfrentam mudanças na rotina, insegurança e sentimentos de impotência.
Segundo Porto, uma preocupação frequente é a sensação de não ter feito o suficiente. Essa cobrança pode levar à busca incessante por soluções, enquanto oportunidades de convivência e cuidado cotidiano recebem menos atenção.
A reflexão estoica propõe reconhecer os limites da ação sem abandonar a responsabilidade. O familiar pode buscar informações, acompanhar o tratamento e oferecer apoio. Contudo, não consegue garantir sozinho o curso da doença.
Reconhecer essa diferença pode ajudar a dedicar energia ao que favorece o bem-estar da pessoa e a qualidade do tempo compartilhado.
Aceitação e responsabilidade
Uma crítica comum ao estoicismo é a possibilidade de que a aceitação das circunstâncias produza conformismo.
Porto ressalta, porém, que a distinção entre o que podemos e o que não podemos controlar exige reflexão e exercício. Aceitar uma realidade pode ser o ponto de partida para agir de maneira mais adequada diante dela.
Na tradição estoica, viver em harmonia com a natureza envolve compreender a condição humana e orientar a vida pela razão. As mudanças, as perdas e a finitude fazem parte dessa condição.
Isso não elimina a tristeza nem torna as dificuldades pequenas. Oferece uma perspectiva para atravessá-las sem exigir que a realidade obedeça inteiramente aos nossos desejos.
O tempo das relações
A reportagem também aborda a possibilidade de reconstruir vínculos familiares.
Porto relata que algumas pessoas conseguem rever conflitos antigos e se aproximar de seus pais durante o enfrentamento da doença. Embora isso não aconteça em todos os casos, pode representar uma oportunidade de reconciliação.
A consciência de que o tempo é limitado torna mais evidente a importância de uma conversa, de um gesto de carinho ou de uma presença antes adiada.
Nesse sentido, a impermanência pode nos ensinar a cuidar com mais atenção das relações enquanto temos a oportunidade de vivê-las.
Dignidade e cuidado até o fim
Ao tratar da fase avançada da demência, Porto apresenta sua reflexão sobre o prolongamento do sofrimento e a importância de preservar a dignidade.
Na entrevista, o médico distingue o cuidado da busca por prolongar a vida a qualquer custo. Sua preocupação é com intervenções que, em determinadas situações, podem aumentar o sofrimento sem proporcionar benefício à pessoa.
O ponto central de sua reflexão é direcionar o cuidado para objetivos como aliviar a dor, oferecer conforto e respeitar as escolhas do paciente.
São questões delicadas, que a reportagem apresenta a partir da perspectiva do entrevistado e que envolvem o diálogo entre familiares e profissionais responsáveis pelo cuidado.
Uma filosofia que se aprende vivendo
O estoicismo continua atual porque nos convida a observar a maneira como pensamos e agimos diante das dificuldades.
Seus ensinamentos podem ser reunidos em quatro exercícios: reconhecer o que depende de nós, examinar nossos julgamentos, acolher a transitoriedade da vida e transformar o aprendizado em prática.
A leitura oferece o primeiro contato. O exercício acontece nas relações, nas decisões e nas respostas que construímos a cada dia.
Fonte: BBC News Brasil. Reportagem de Mônica Vasconcelos, publicada em 30 de dezembro de 2024, com o título “Estoicismo: a filosofia da Antiguidade que ensina a ‘aceitar o que não está no nosso controle’”.
A reportagem original também utiliza informações do programa The Forum — Calm in the Chaos: The Story of the Stoics, transmitido pelo BBC World Service em 1º de novembro de 2018.

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