A inveja, a traição e a ingratidão podem vir de outras pessoas e, por isso, não estão sob nosso controle. Não podemos assegurar que todos sejam leais, sinceros ou agradecidos, ainda que os tratemos com bondade. O que depende de nós é nossa maneira de interpretar essas atitudes e de responder a elas.
Epicteto não aconselharia viver desconfiando de todos ou tentando descobrir “cobras” escondidas atrás de cada abraço. Isso nos tornaria prisioneiros do medo, da suspeita e da opinião alheia. Ele recomendaria prudência para reconhecer o caráter das pessoas, mas sem permitir que a conduta delas corrompa o nosso próprio caráter.
A imagem também pode ser interpretada por outra perspectiva: as três “cobras” mais perigosas não são apenas aquelas que encontramos nos outros. Elas também podem estar dentro de nós. A inveja nasce quando transformamos a superioridade ou a felicidade alheia em ameaça. A traição acontece quando abandonamos nossos princípios por conveniência. A ingratidão aparece quando esquecemos os benefícios recebidos e julgamos que tudo nos era devido.
Assim, uma leitura verdadeiramente epictetiana seria:
Não podemos controlar a inveja, a traição ou a ingratidão dos outros. Podemos, porém, vigiar nossos julgamentos para que essas paixões não se instalem em nós. A falta de virtude do outro pertence a ele; conservar nosso caráter pertence a nós.
A principal lição não seria “desconfie dos abraços e sorrisos”, mas:
Seja prudente com as pessoas, sem transformar a prudência em amargura. Quando alguém agir mal, não permita que o erro dele determine quem você se tornará.
Epicteto nos lembraria de que sofrer uma traição é um acontecimento externo; tornar-se vingativo, rancoroso ou desleal em resposta a ela é uma escolha moral nossa. O verdadeiro perigo não está somente em encontrar pessoas invejosas, desleais ou ingratas, mas em deixar que suas atitudes produzam em nós os mesmos vícios.

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