Bullying

sábado, 26 de setembro de 2026

E se a metade vazia do copo não fosse o problema?

O copo meio cheio, o copo meio vazio e a escolha que nos cabe

Por Deodato Gomes Costa

O copo está meio cheio e meio vazio ao mesmo tempo. Podemos olhar para a água que temos e sentir gratidão. Também podemos perceber o espaço vazio e reconhecer que algo nos falta. As duas observações são verdadeiras. Para os estoicos, porém, a pergunta mais importante vem depois: o que está ao nosso alcance fazer diante disso?

Epicteto abre seu Manual com uma distinção que ajuda a responder: “Algumas coisas dependem de nós; outras não.” (EPICTETO, 2023, p. 13).

A metade cheia nos lembra das pessoas que amamos, das oportunidades recebidas e dos passos que já conseguimos dar. A gratidão nos ajuda a reconhecer o valor dessas experiências, mesmo quando a vida não acontece exatamente como desejávamos.

A metade vazia também merece ser vista. Ela pode mostrar uma dificuldade real, uma necessidade ou um sonho ainda não realizado. Ignorá-la não resolve o problema. Podemos, então, perguntar: há alguma atitude justa e possível que eu possa tomar agora? Se a resposta for sim, podemos agir. Se for não, podemos acolher esse limite e escolher como lidar com ele.

Pense, por exemplo, em uma oportunidade que não deu certo. Não podemos mudar a decisão de outra pessoa. Podemos, contudo, avaliar o que aconteceu, preparar-nos melhor e tentar novamente. O resultado escapa ao nosso controle; nossas escolhas e nossos esforços continuam sendo nossa responsabilidade.

É assim que a imagem do copo ganha um sentido estoico. Ser grato pela metade cheia não exige negar a dor da metade vazia. E reconhecer o que falta não precisa apagar tudo o que já existe. Podemos agradecer, enfrentar as dificuldades e trabalhar pelo que é possível transformar, sem exigir de nós o poder de controlar toda a vida.

EPICTETO. Manual de Epicteto: encheirídion de Epicteto. Tradução de Valéria Paixão. 1. ed. Cotia, SP: Pé da Letra, 2023.

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