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quarta-feira, 23 de setembro de 2026

SE VOCÊ NÃO SE DÁ VALOR, QUEM SE DÁ?


O que diferencia a excelência da mediocridade no trabalho em equipe não é a descrição do cargo no contrato

“A única maneira de fazer um excelente trabalho é amar o que você faz. Se você ainda não encontrou, continue procurando.” (Steve Jobs)

O valor de uma obra nunca é medido apenas pelo tamanho da ferramenta que se segura, mas pela imensidão do propósito que se carrega no peito. No trabalho em equipe, a ilusão de que existem funções maiores ou menores se desfaz no momento em que compreendemos que o resultado final é o somatório de entregas individuais — e o tamanho dessa entrega depende inteiramente do prazer e do sentido que cada um encontra no que faz.

Comecemos por considerar a determinação daquela funcionária da limpeza que, mesmo tendo encerrado seu expediente, decidiu retornar ao hospital para assumir o turno da noite. Não era apenas uma questão de varrer um chão; tratava-se de preparar o solo sagrado onde ocorreria o primeiro transplante de pulmão da América Latina. Ela se recusou a deixar que uma pessoa estranha cuidasse daquele ambiente. Ela podia não ter a noção exata da importância do que fazia, mas quando lhe perguntei por que voltara dispensando a moça da noite, ela foi sucinta: “Porque eu quero ajudar e acho injusto que alguém pretenda ocupar o MEU lugar”.

Essa mesma força esteve presente nos corredores da Nasa nos anos 1960, quando o presidente John F. Kennedy inspecionava as instalações do programa espacial. Ao deparar com um faxineiro segurando uma vassoura no corredor e perguntar o que ele fazia ali, o presidente não ouviu uma resposta sobre poeira ou lixo. O homem olhou nos olhos do líder e respondeu: “Eu estou ajudando a mandar um homem à Lua, meu presidente”. Ele não limpava pisos: ele garantia que a maior conquista humana da época funcionasse sem falhas.

Séculos antes, às margens do Tâmisa, o arquiteto Christopher Wren observava três pedreiros assentando exatamente os mesmos blocos de pedra sob o sol escaldante. Intrigado com atitudes muito distintas, perguntou a cada um deles o que estavam fazendo. O primeiro, exausto e amargurado, reclamou: “Eu tento sobreviver nesse calor horrível do verão de Londres”. O segundo, resignado, respondeu: “Tenho três filhos para sustentar, estou cumprindo o meu dever”. Já o terceiro, que trabalhava cantarolando, com brilho nos olhos, sorriu com orgulho para dizer: “Eu estou erguendo a Catedral de Londres, meu senhor!”.

Três pessoas, três tarefas idênticas, três universos completamente diferentes.

Não existem tarefas secundárias quando há clareza de pertencimento. 

O que diferencia a excelência da mediocridade em uma equipe não é a descrição do cargo no contrato, mas o quanto de si cada integrante decide colocar naquilo que faz. E essa entrega irrestrita só nasce quando a pessoa descobre o prazer de ser parte indispensável de algo muito maior do que ela mesma.

CAMARGO, J. J. Se você não se dá valor, quem dará? GZH, 2 set. 2026. Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/jj-camargo/noticia/2026/09/se-voce-nao-se-da-valor-quem-dara-cmtk1rj7b00yw0165fyh40mpb.html. Acesso em: 24 set. 2026. 

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